''Estava só começando''

Leia um capítulo de Infâmia, romance de Ana Maria Machado, que tem lançamento previsto para junho, marcando a estreia da ficcionista carioca e integrante da Academia Brasileira de Letras na editora Alfaguara

, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2011 | 00h00

Jorjão não poderia dizer que estava sendo surpreendido. Afinal, sabia perfeitamente que alguma coisa estava sendo armada. Tinha falado com Túlio sobre o pai e combinado o encontro dos dois. Num gesto solidário, tinha até mesmo levado Custódio à redação onde seu cliente trabalhava. Lá, havia sido testemunha da primeira conversa entre eles.

Depois, durante alguns dias ainda acompanhou o desenrolar dos fatos - tanto pelos eventuais comentários do jornalista no decorrer de uma sessão de fisioterapia, quanto pelas novidades que o pai ia lhe contando em casa, agora que as confidências vinham mais fáceis, já que se quebrara a barreira entre eles. Sabia que, a partir das cópias de documentos que Custódio lhes passara, a televisão encarregara dois jovens repórteres de sair fuçando tudo que pudesse ter qualquer relação com aquele assunto, entrevistando gente, indo atrás de mais detalhes.

Mas no dia em que o programa foi ao ar, Jorjão não podia deixar de reconhecer que quase levou um susto. Jamais poderia imaginar que a denúncia ganhasse aquele destaque. Horário nobre, noticiário de prestígio, chamada no início do programa.

As imagens na tela falavam por si mesmas. Pilhas de material sem usar, quantidades inacreditáveis de equipamento que levariam anos para ser utilizadas - se é que seriam um dia. Endereços de fornecedores que não existiam, remetendo a empresas-fantasmas, que se apresentavam sediadas em lugares impossíveis de se localizar.

A câmera mostrava tudo. Aqui, um beco em que as casas não eram numeradas, ao lado de um valão onde esgoto corria a céu aberto, debaixo de um poste com um emaranhado de fios distribuindo ligações elétricas clandestinas. Ali, um parque sem nenhuma construção. Não podiam ser endereços de empresas fornecedoras de material. Eram locais abandonados, onde não havia ninguém. Mais adiante, finalmente, alguém: um morador humilde de alguma comunidade esquecida, que não tinha a menor ideia de que seu nome e identidade estivessem sendo usados como fachada para acobertar uma corrupção graúda.

O nome de Custódio não era mencionado, mas as incoerências reveladas pelos documentos guardados por ele iam sendo denunciadas. E as folhas das notas fiscais ocupavam a tela toda, com trechos em destaque, logo aumentados para chamar a atenção e permitir uma leitura melhor. Daí, passavam para os gráficos. E uns bonequinhos em desenho animado, com umas ratazanas guardando moedas num cofre, para explicar melhor como o bando agia. Não precisava ninguém entender como funciona um almoxarifado para ver logo que aquilo não batia, estava cheio de irregularidades absurdas. Desonestas. Um retrato claro de como a quadrilha fazia sua roubalheira. E mais os nomes de uns bacanas que apareciam aqui e ali. Com as explicações finais: o diretor Fulano de tal não retornou nossos telefonemas, a assessoria do deputado Beltrano explicou que ele está viajando e não pode dar entrevista mas enviou uma nota esclarecendo que deve haver algum engano pois ele não tem qualquer relação com esse assunto. E nem mesmo conhece esse diretor. A frase ficou escrita na telinha. No fundo, uma foto dos dois sozinhos, rindo numa mesa de restaurante à beira do lago de Brasília.

Por enquanto, tinha sido apenas uma boa reportagem num noticiário de televisão. Mas já se anunciava que ia ser aberta uma investigação. Será que então ouviriam também o Agenor? Será que ele contaria sobre o papel que estivera em suas mãos, com o nome do deputado na letra do diretor, seguido de $$$? Será que alguém conseguiria entrevistar e localizar a secretária afastada por ter deixado aquele papel ao alcance de olhos indiscretos?

Jorjão sabia que o pai não tinha falado nada disso com Túlio. Só dera as primeiras indicações sobre o que tinha observado e passara ao jornalista as cópias dos documentos. Tudo o mais tinha sido investigação da reportagem. Tinha certeza de que Custódio jamais iria quebrar a confiança de Agenor e sair contando o que o amigo lhe revelara. Mas pelo pouco que conhecia do outro, imaginava que a essa altura ele também estaria pensando em abrir o bico e passar também algumas informações, ao ver o assunto na televisão. Era fácil. Não precisava aparecer nem se expor. Era só contar o que sabia e mencionar a existência da secretária.

O resto ficaria por conta dos repórteres. Descobrir o nome dela, seu endereço, investigar o que fazia, convencê-la a falar, apurar as ramificações daquela história. Com certeza falaria. Quem é que ia perder uma oportunidade daquelas para se vingar de uma demissão e ainda aparecer na televisão, nos jornais e revistas? A partir daí, era só se produzir para dar entrevista e ficar famosa. Com uma boa fama: a de quem defende o dinheiro do povo e ajuda a combater esses salafrários corruptos e suas maracutaias. Uma pouca vergonha. Talvez ela tivesse até guardado umas cópias de recibo de depósito bancário. Ou uma agenda velha. Ia ser fácil convencer todo mundo de que ela não tinha culpa nenhuma, era uma assalariada, estava só cumprindo ordens do chefe. Mas, se administrasse bem a chance que a vida lhe dava, podia se dar bem. Jorge não a conhecia, não sabia que cara (e que corpo) a mulher tinha. Mas sabia que, na certa, ela ia falar. Até mesmo para se dar bem com isso. Com sorte, se ela fosse uma baranga podia acabar se candidatando a vereadora pela oposição. E se fosse uma gata gostosona, ia logo ser convidada para posar pelada para um site ou uma revista masculina. Mesmo se não fosse tão gata nem tão gostosona, para que existe Photoshop? Podia até ser contratada para alguma coisa na televisão. Por exemplo, ser assistente em algum sorteio, sorrindo e levando a bolinha da loteria para o apresentador ver. Nem precisava decorar papel. Ou ser uma daquelas bailarinas que ficam fazendo figuração no fundo do palco em programas de auditório. Claro que ela ia falar, contar o que sabia e até o que não sabia. Uma chance daquelas podia ser um bilhete premiado para o sucesso.

Sentado na poltrona da sala, ao lado dos pais e da avó no sofá já meio velhinho e puído nos braços, enquanto entravam os comerciais ao final daquele bloco de notícias, Jorjão se surpreendeu quase sorrindo com aqueles pensamentos, viajando por onde a imaginação o levava. Também tivera sua participação para que aquela denúncia chegasse a esse ponto. E se sentia bem, agora, vendo a satisfação do pai:

- Agora esses caras vão ver o que é bom para a tosse. Pensavam que iam levar tudo assim na mão grande? Que a gente era tudo um bando de otário? Que ninguém ia ver? Ninguém ia reclamar?

Custódio comemorava, de pé, indo em direção à cozinha. Era um momento de alívio, depois de muito tempo de aflição e agonia.

Voltou com duas latinhas de cerveja, abriu uma, passou a outra para o filho. Perguntou a Mabel:

- Vai querer uma também?

- Não, obrigada - disse ela, se levantando.

Jorge estranhou aquela falta de entusiasmo das duas mulheres. Custódio também. Tanto que já perguntava:

- Algum problema?

Mabel acariciou a cabeça dele, como se faz com uma criança:

- Não, meu bem. Nenhum problema. Estou só indo buscar umas empadinhas na cozinha.

- Você não me engana. Não gostou do programa. O que foi?

- Não é que eu não gostei. Fico muito orgulhosa de você, Custódio. Você foi muito corajoso. Mas fico também um pouco preocupada, com medo. Por sua causa. Essa gente é capaz de tudo.

E a avó completou:

- Você devia ter tido mais cuidado, meu filho. Não precisava ter se mostrado.

- Mas eu não me mostrei, mãe...

- Se mostrou, sim. Só um vulto escuro sem aparecer a cara, com aquela voz de taquara rachada para disfarçar, mas se mostrou.

Jorjão achou graça. Só mesmo a avó para chamar de "taquara rachada" aquela distorção eletrônica que os produtores do programa tinham usado para não permitir a identificação do entrevistado.

- Claro que se mostrou, meu bem - concordou Mabel. - Quem te conhece pouco pode ter ficado sem saber quem era. Mas todo mundo na repartição a esta altura já sabe. Você é que chefia o almoxarifado, que tem acesso a essas notas, que sabe como se gasta ou se guarda todo esse material... É claro que só pode ter sido você.

- E esse teu jeito de endireitar um pouco os ombros antes de falar uma coisa importante... Pode ser um vulto, mas quem te conhece e vê esse gesto logo sabe que é você. Desde pequenino você faz isso. Igualzinho a seu pai.

Só aí Jorjão se deu conta de quanto a avó estava perturbada com aquilo. Poucas vezes na vida a ouvira falar no marido. Nunca vira um retrato do avô. Ela dizia que lá na roça, de onde ela veio, não tinha retratista. E ficara viúva muito cedo, quando Custódio ainda era bebê. As referências a esse tempo eram esparsas e por vezes contraditórias. Deviam ser lembranças muito dolorosas de uma vida dura. Com a idade, iam ficando misturadas. Às vezes ela recordava que viera para o Rio, grávida, com o marido caminhoneiro que queria se instalar na cidade grande. Ele ficou indo e vindo, trouxe uns móveis e uns trecos, começou a montar a casinha no Catete onde a família morava até hoje. Chegou a abrir uma pequena transportadora, estava cheio de planos, queria organizar os caminhoneiros numa associação. Mas de repente, veio o acidente com o caminhão. O marido morreu e ela ficou trabalhando de empregada doméstica para criar o menino, até conseguir comprar a máquina de costura com a qual varara noites para conseguir pagar as contas e não perder a casa. Outras vezes ela se atrapalhava, se confundia, contava que o marido gostava de brincar com o filho quando ele começou a andar, buscar a criança na creche antes que ela chegasse do trabalho - e então parecia que ela já estava num emprego antes de ele morrer. De qualquer modo, a felicidade familiar não durara muito. E o fato é que ela evitava falar nele.

Ouvir essa referência surpreendeu o neto, que de repente se deu conta da possível evolução daquela denúncia. Por mais cuidado que a produção do programa tivesse tomado, era bem provável que muita gente reconhecesse o pai, após vê-lo no noticiário. Podia ser que a comemoração de hoje virasse um problemão amanhã. Aquilo podia ser só o começo de uma avalanche. Começou a se perguntar se a mãe e a avó não teriam uma certa dose de razão em suas preocupações.

A frase também teve algum efeito sobre Custódio, que repetiu:

- Meu pai?

Mas antes que alguém pudesse dizer mais alguma coisa, o telefone tocou. Era o Agenor. O primeiro chamado de uma série que ia manter todos acordados até tarde naquela noite. Ligaram o Palhares, o Vantuil, até a dona Guiomar e o marido. E mais uma porção de vizinhos e amigos que não tinham nada a ver com a repartição mas tinham reconhecido Custódio e queriam dar os parabéns, na base do:

- Aí, hein? Na televisão...

Pelo visto, as duas mulheres tinham razão. Muita gente o identificara. Para não falar dos que não se manifestaram.

Estava só começando.

A AUTORA

Nome: Ana Maria Machado

Idade: 69

Origem: Rio

Algumas obras: Abrindo o Caminho, Bisa Bia, Bisa Bel

História Meio ao Contrário (infantis), Amigos Secretos (juvenil), Aos Quatro Ventos, A Audácia Dessa Mulher, Alice e Ulisses (adultos)

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