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''Estava quieto no meu canto''

De Florença, Zubin Mehta, que vem ao Brasil neste mês, fala ao Estado sobre projetos, ópera e carreira

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2010 | 00h00

"Você viu meu Rigoletto no fim de semana?" A primeira pergunta quem faz é o entrevistado. De sua casa em Florença, o maestro Zubin Mehta parece eufórico. Vai e volta do telefone, está se despedindo de um amigo que o visitara de surpresa enquanto começa a conversa com o Estado. Pede um instante para tirar o carro da frente da garagem. Volta logo depois. "Então, o Rigoletto, você viu? Foi filmado em Mantova, em locações na cidade." A ópera de Verdi foi transmitida pela televisão para toda a Europa - mas não chegou ao Brasil. A grande atração era o tenor Plácido Domingo, no papel título, escrito para um barítono."Você precisa dar um jeito de assistir. A voz dele é um fenômeno, mantém um frescor inacreditável."

Depois de concertos por aqui, no ano passado, com a Filarmônica de Israel, Mehta está de volta ao Brasil. No dia 26 (domingo) comanda a Filarmônica de Munique no Parque do Ibirapuera e, na segunda (27) e na terça (28), apresenta-se na Sala São Paulo, antes de partir para o Rio, onde faz concerto no Teatro Municipal. Desde 2004, é regente emérito do conjunto, um dos mais antigos da Alemanha. "Minha primeira vez com eles foi há quase 20 anos. A orquestra, então, era comandada por Sergiu Celibidache. E eu era chamado sempre que ele não podia reger, já estava com idade. Um dos grandes privilégios profissionais que tive foi comandar a filarmônica em concertos dedicados a autores como Bruckner, a quem ele oferecia leitura muito pessoal."

O programa no parque tem de tudo um pouco - Johann Strauss Jr., Dvorak, Brahms, Tchaikovsky, apenas peças curtas e célebres do repertório. Na Sala São Paulo, segunda, o destaque é a Sinfonia n.º 1 de Mahler; na terça, a Sinfonia n.º 4, de Mahler. Nos dois dias, o concerto para violino de Max Bruch, com solos da violinista japonesa Mayuko Kamio. "Vocês vão ficar loucos com esta menina, é um talento excepcional", diz o maestro.

Do Rigoletto, a conversa cai imediatamente em Mahler. O compositor tem sido homenageado por conta de dois aniversários - os 150 anos de nascimento (2010) e centenário de morte (2011). Alguns registros de Mehta aparecem em caixas comemorativas de gravadoras como a Decca e a Deutsche Grammophon, mas ele diz que não tem nada de novo previsto. Uma nova integral das sinfonias? "De jeito algum", começa. "Se me chamassem para fazê-las ao longo de uma ou duas temporadas, eu até me animaria. Todas juntas, de uma vez só, no entanto, seria uma irresponsabilidade comigo e com a música dele."

Seu primeiro contato com a música do compositor foi ainda na Bombaim natal. "A Quarta Sinfonia, sempre, ouvida à exaustão", lembra. Estamos falando dos anos 50, quando o processo de resgate das sinfonias do compositor estava apenas começando - levaria ainda dez anos para que Leonard Bernstein, em Nova York, e, em seguida, Bernard Haitink, em Amsterdã, lançassem as duas primeiras integrais dedicadas às obras. Havia, no entanto, espalhados por todo o mundo, mahlerianos entusiastas - e um deles era Hans Swarowsky, professor de Mehta em Viena. "Ali, sim, tive contato maior com a sua produção."

Nos anos seguintes, as nove sinfonias de Mahler, mais o adágio da décima, incompleta, se tornariam parada obrigatória para qualquer regente e orquestra, assim como as sinfonias de Beethoven haviam sido na primeira metade do século 20. Mehta, pessoalmente, diz nunca ter se sentido obrigado a fazer as sinfonias, buscando um todo coeso na interpretação.

"Sua escrita é irregular, é preciso admitir. O que me fascina, porém, é o caráter extremamente pessoal de sua música. Seu sofrimento renasce nas partituras de maneira comovente. A perda da filha, da mulher, uma vida pessoal atribulada, a campanha dos críticos contra seu trabalho, está tudo lá. É certo que nas primeiras obras, tudo é mais sutil. Mas há sempre a busca por uma resposta de vida, suas sinfonias buscam sempre a vitória no final. Isso dá a ele um caráter profético, que até hoje se mistura à percepção que temos de sua música."

Para Mehta, interessa bastante a faceta de Mahler como maestro. "Tendo trabalhado com orquestras regidas por ele, como a Filarmônica de Nova York, ou a Ópera de Viena, é fácil notar uma tradição, a maneira como ditou tendências que permaneceram por muito tempo."

Ópera. "Foi um grande Rigoletto" - é Mehta quem volta ao assunto, que passa então a girar em torno de seu trabalho com a ópera. Nos anos 70, ele fez gravações históricas, de referência, de obras como Il Trovatore ou Aida, de Verdi. Na última década, porém, tem se dedicado bastante ao repertório germânico, em especial Strauss e Wagner. Ele não vê nisso um plano consciente - e usa o Rigoletto como prova de que está aberto a todos os repertórios. O que acontece, diz, é que a ópera exige um contexto eficiente de trabalho - e os bons convites que recebeu tinham como proposta esse repertório.

Foi assim com uma nova montagem da tetralogia O Anel do Nibelungo, de Richard Wagner, feita por ele em 2007 em Valencia (Espanha), em uma recém-inaugurada casa de ópera dirigida pelo maestro Lorin Maazel. Foi dele e da diretora da casa, Helga Schmidt, que surgiu o convite. "Eu estava quieto no meu canto", brinca o maestro. "E eles vieram me propor o Anel. Disse que faria com duas condições. A primeira, que montassem uma bela orquestra wagneriana. A segunda, que eu pudesse trabalhar com os artistas do Fura del Baus. Eles aceitaram e eu, então, resolvi começar a trabalhar."

Mehta conta que se impressionou com a trupe catalã durante uma montagem de A Danação de Fausto, de Berlioz, no Festival de Salzburg, na Áustria. "Eu e minha mulher ficamos maravilhados com aquilo e ali resolvi que gostaria de trabalhar com eles."

A montagem acaba de sair em Blue Ray e DVD. A concepção cênica faz uso de elementos realistas, como a presença da água, lado a lado com vídeos projetados em enormes telas de alta resolução, com efeitos visuais surpreendentes. "Aquilo é puro Wagner, todas as indicações dele estão sobre o palco. Foi uma das minhas melhores experiências em ópera. Eles são extremamente flexíveis, recriavam tudo à medida que isso se fazia necessário durante o trabalho. E há um frescor no fato de que eles trabalham como equipe, ou seja, não há personalidades tentando se impor sobre a música."

QUEM É

ZUBIN MEHTA

REGENTE

Nascido em Bombaim (1936) em uma família aristocrática, aos 18 anos foi estudar música na Áustria. Aos 22 anos estreia como maestro em Viena; aos 24 se torna regente titular da Sinfônica de Montreal e, aos 26, titular da Sinfônica de Los Angeles. Sua fama vem das interpretações que realiza de música sinfônica neorromântica de compositores como Anton Bruckner, Richard Strauss e Gustav Mahler.

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