Estar vivo, aqui e agora

Distantes no espaço e afastadas no tempo, três manifestações da arte de esculpir em cera merecem ser associadas hoje por uma leitura que eu diria pop e artesanal. Proporei como contexto o retorno do hiper-realismo à produção nossa contemporânea. Essa é a proposta da coluna deste sábado, decorrente da anterior em que, com marco inicial nos primórdios da Renascença florentina, fizemos um levantamento do uso da cera de abelha como material escultórico identificado - até no uso metafórico da palavra - com a tonalidade da pele e o aspecto do semblante humano. A não esquecer que a expressão "estar fazendo cera" significa fingir: que se joga futebol de verdade ou se namora para casar. O potencial de verossimilhança da "cera" a favoreceu para se chegar ao naturalismo ilusório em escultura.

Silviano Santiago,

16 Fevereiro 2013 | 00h25

As três associações serão feitas a partir de lugar e data.

Florença, 1478. Depois do trágico atentado sofrido por Lourenço de Médici e o irmão na catedral Santa Maria del Fiore, Orsino Benintendi esculpe em cera e no tamanho natural três ex-votos do governante. Privilegia um deles, vestindo-o com as roupas esfarrapadas pelo punhal assassino dos Pazzi e cobertas de sangue. A efígie de Lourenço - "più che viva" - é depositada em igreja conventual da cidade. Passa a desfrutar os ganhos políticos decorrentes da graça divina irradiada pelo Crucifixo milagroso do beato Chiarito, a seu lado.

Paris, 1782. Como se inspirado pelo ex-voto de Lourenço, o escultor alemão Philippe Curtius inaugura no Palais Royal uma grande exposição de esculturas em cera. Destaque para a representação da família real francesa à mesa no Palácio de Versalhes, e para os bustos, entre outros, de Voltaire, Benjamin Franklin, Madame du Barry e da atriz Louise Françoise Contat. O escultor conta com discípula e auxiliar, Maria Grosholtz, filha da governanta da casa e futura herdeira de Curtius. Maria casa-se em 1795 com o medíocre François Tussaud, de quem herda apenas o sobrenome. O Salão de Cera Curtius - transferido depois da Revolução Francesa a Londres - passa a se chamar Museu de Cera Madame Tussaud, hoje visitado em 14 cidades do mundo. A busca da autenticidade levou o Museu a imitar o átrio da Igreja da Santíssima Anunciada em Florença. Por exemplo, as figuras de Robespierre e dos demais revolucionários foram esculpidas a partir de máscaras mortuárias feitas no Cemitério da Madeleine (hoje Capela Expiatória, no Square Louis XVI), para onde iam os guilhotinados. Em 1857 os Tussaud adquiriram a lâmina original da guilhotina acionada pelo carrasco Charles Henri Sanson.

Contextualizemos os dois exemplos com expressões tomadas à crítica da época. A figura humana em cera parece viver e respirar, só falta falar (Giorgio Vasari, século 16). O visitante já imagina que a boca de Voltaire vai-se abrir e proferir palavras (Cambridge chronicle, 1818).

Londres, 1999. O japonês Hiroshi Sugimoto, "fotógrafo do séc. 16" (sic), inspira-se na luz de que os pintores renascentistas se valiam para apreender modelos vivos, a fim de retratar as figuras expostas em tamanho natural no recinto do Museu de Cera Madame Tussaud. São personagens antigos e modernos da História e da Arte. Com um clique atemporal, Sugimoto pinta em preto, branco e cinza - sobre fundo negro - os modelos em cera foto-realísticos inventados por Philippe Curtius e aperfeiçoados pela discípula Tussaud e seus descendentes. Nos "portraits" londrinos de Sugimoto, o destaque vai para a série poligâmica que retrata - à maneira de Hans Holbein - Henrique VIII e as seis esposas. Os retratos de figuras históricas e modernas de Sugimoto fazem parte de um projeto itinerante do Museu Guggenheim, que começou por Berlim em 2000.

Associemos os três casos. Atualizados em 1999 pelos retratos de Sugimoto, os ex-votos de Lourenço, o Magnífico, e as esculturas em cera do museu de Madame Tussaud podem e devem ser comparados às pinturas em silkscreen do pop Lewis Hamilton, Swingeing London (1967), que reproduzem - em sete versões diferentes - uma foto jornalística de grande impacto midiático. Nela estão retratados Mick Jagger e o marchand Robert Fraser presos e algemados no banco de trás duma radiopatrulha. Visivelmente constrangidos, escondem os respectivos rostos com as mãos. Jagger e Fraser estão sendo conduzidos ao Fórum de Clichester a fim de serem incriminados pela posse ilegal de drogas. Hal Foster em The First Pop Age (Princeton, 2012) compara a pintura de Hamilton ao célebre afresco de Masaccio Expulsão do Jardim do Eden (1424). No entanto, seu raciocínio é diferente do nosso, apenas acentua a vergonha do ser humano ao ser expulso.

Interessa-nos assinalar que, se a pop art nos seus primórdios - ao entrar em lua de mel com a cultura de massa - se distancia da "grande tradição em arte", tal como estabelecida por F.R. Leavis e Clement Greenberg, também as três amostras elencadas acima se ressentiriam da condição de inferioridade caso os valores destes dois críticos ainda dominassem com exclusividade. Por outro lado, se o museu (no sentido oitocentista do termo) é a moldura que garante - como quis Michel Foucault na análise de Manet - o estatuto da Arte contemporânea, já nas três amostras vemos que o átrio de igreja florentina ou o salão (cabinet) de curiosidades londrino podem ser os bastidores por onde peças esculpidas em cera se adentram fotograficamente - como o urinol de Marcel Duchamp - para o palco e as luzes do prestigiado Museu Guggenheim.

Mais do que o ex-voto de Lourenço, bem mais do que as esculturas de Madame Tussaud, ainda mais que a pintura em silkscreen de Hamilton, os portraits de Sugimoto descarrilham as teorias sobre o naturalismo ilusório, de que se valem os defensores dos meios técnicos de reprodução mecânica. É sempre bom saber - diz Sugimoto em paradoxo - "o que significa estar vivo aqui e agora".

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