Estante da Semana: Camilo José Cela, o poder da telenovela...

Entre os lançamentos de livros, Nicodemus Pessoa indica a obra-prima de Camilo José Cela, A Colmeia; a novela que deu origem ao filme Gangues de Nova York; uma edição que reúnem poemas do paulsita Ribeiro Couto; e uma obra com os resultados de extensa pesquisa sobre o poder da telenovela A Indomada.O PAULISTA RIBEIRO COUTO. AGORA, OS SEUS BONS POEMAS.Em poucos meses, a Global Editora fez reaparecer um nome quase esquecido no mercado editorial. Em maio, trouxe Ribeiro Couto em prosa, dentro da coleção Melhores Contos, e, agora, traz-nos a sua poesia, no livro Melhores Poemas. A apresentação e seleção é do escritor José Almino.A poesia de Ribeiro Couto pertence à segunda geração do Modernismo. De acordo com a crítica especializada, o poeta, um paulista de Santos (1898-1963), sempre conseguiu contrapor, aos temas nobres, os do dia-a-dia, aqueles ao alcance do olhar de qualquer cidadão. Tudo isso em linguagem ponderada e em meio tom. Em seu primeiro livro de poemas, ainda era possível detectar um leve tom simbolista. Depois, Ribeiro Couto aproximou-se do Modernismo, mantendo sua originalidade no trato lírico do cotidiano. Sua poesia caracteriza-se, em geral, pela musicalidade.Na apresentação do livro (Global, 200 páginas, R$ 25,00), que na realidade é um estudo sobre a trajetória do acadêmico Ribeiro Couto na poesia, José Almino vê na poesia do autor o mesmo que Otto Maria Carpeaux viu nos poemas de Toulet. "Há versos de Toulet que poderiam ter sido escritos por Ribeiro Couto (...) Poetas como eles não tiveram muita influência nem deixaram linhagem. Mas são pontos luminosos. Inapagáveis".DE OLHO NA TV. O PODER (TERRÍVEL) DE UMA TELENOVELA.Um livro com a marca da Summus, editora que tem em seu catálogo alguns dos mais importantes títulos da bibliografia brasileira sobre a televisão. Em Vivendo com a Telenovela: mediações, recepção, teleficcionalidade estão os resultados de uma pesquisa sobre a "A Indomada", da TV Globo, veiculada em 1997.As autoras - Maria Immacolata Vassallo de Lopes, Silvia Helena Simões Borelli e Vera da Rocha Resende ? estudaram a recepção da telenovela em quatro famílias de diferentes condições sociais. O objetivo era descobrir:Como uma telenovela atua sobre o cotidiano das famílias que a acompanham?Como ela modifica o comportamento dos espectadores?Como as pessoas reagem à medida em que a trama se desenrola?Com qual personagem cada um se identifica e por quê?As respostas estão (todas) em Vivendo com a Telenovela (Summus, 400 páginas, R$ 63,00), um livro que retrata uma apaixonante e rara aventura intelectual.Um pouco de informação sobre as autoras:Maria Immacolata Vassallo de Lopes é doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom).Silvia Helena Simões Borelli é professora do Departamento de Antropologia e da Pós-graduação em Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).Vera da Rocha Resende é psicóloga, doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP.UMA TERRA DE MALANDROS? SIM, SÃO PAULO TAMBÉM FOI.A História oficial, aquela que se aprende na escola, não registra uma única linha. Mas a São Paulo da garoa, que tanto se orgulha de sua dedicação ao batente, já teve, sim, seus dias de glória ? e quanta glória! ? no exercício da malandragem. As provas estão em Malandros da Terra do Trabalho, da professora Márcia Regina Ciscati (Fapesp/Annablume, 274 páginas, R$ 23,00). O livro é resultado de sua tese de mestrado na Unesp, a Universidade do Estado de São Paulo.A pesquisa da professora vai de 1930 a 1950. A partir da análise desse período, voltando às vezes no tempo, ela, paulistana do bairro da Penha, reconstrói, ao menos em parte, a história da cidade. Recorrendo a testemunhos variados ? depoimentos, notícias de jornal e crônicas literárias ? recriou ambientes como a Boca do Lixo e o chamado Quadrilátero do Pecado, no centro da cidade, e outros pontos de malandragem, boêmia e jogos, espalhados pelos bairros. Um deles é o tão celebrado edifício Martinelli, por exemplo, símbolo da urbanização paulistana, que abrigava pelo menos quinze cassinos.UMA VIAGEM POR NOVA YORK, DA POBREZA À VIOLENCIA.O livro As Gangues de Nova York (Editora Globo, 384 páginas, R$ 43,00) enfoca a história da cidade desde os anos 1840 até 1863, período marcado por tumultos sangrentos. Na época, os limites entre o gangsterismo e a política eram pequenos. Os dois principais partidos políticos, o Tammany Hall e o Native Americans, usavam as gangues para a pilhagem do dinheiro público e a conquista do controle de Manhattan. A corrupção estava disseminada em todos os níveis do governo, incluindo a polícia. Ao mesmo tempo, os imigrantes chegavam praticamente sem nenhum dinheiro e qualificação, indo morar em cortiços decrépitos. Para sobreviver, tinham de recorrer ao crime e à prostituição. O livro tem um caráter cult, tendo merecido uma citação de Jorge Luis Borges em seu conto "O provedor de iniqüidades Monk Eastman", que está em sua História Universal da Infâmia. ESTÁ DE VOLTA A OBRA PRIMA DE CAMILO JOSÉ CELAUm livro publicado pela primeira vez em 1951, em Buenos Aires, pois Camilo José Cela teve problemas com a censura na Espanha. Em A Colmeia, agora reeditado, ele enfoca a vida em Madri, sem conformismo e outros disfarces. Os críticos batizaram de caleidoscópio a técnica de Cela na narrativa. Em A Colmeia (Bertrand Brasil, 416 páginas, R$ 50,00), o escritor assemelha-se a um fotógrafo, que sai à rua com sua câmera para retratar tudo que vê, apresentando assim a vida miserável de um grupo de pessoas na Madrid dos anos imediatamente posteriores à Guerra Civil Espanhola. São mais de trezentos personagens, que se entrecruzam em três dias de dezembro por dois ou três bairros da cidade. Os temas abordados no romance são a humilhação, a pobreza, o aborrecimento, a repetição e a ameaça, o que dá um colorido todo especial àquele momento espanhol por volta de 1943.Camilo José Cela, Prêmio Nobel de Literatura em 1989, foi um dos mais criativos escritores da atualidade. Falecido em janeiro de 2001, aos 85 anos, o autor espanhol manteve sua produção intensa até o final.

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