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Ignácio de Loyola Brandão
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Estamos vivendo um mega despautério

Despautério. Li a palavra na crônica de Humberto Werneck, que vem fazendo toda semana um primoroso memorial literário de Minas neste caderno. Despautério. Pensei o que seria tão estranha e enigmática palavra? Estava tomando meu café na CPL, rodeado pelos motoristas de táxi que trabalham à noite. Como carregam gente muito diferente, talvez um deles soubesse o que é. Perguntei, um a um. Olhavam-me e perguntavam: onde viu essa palavra? É gíria nova? Doença? Droga? Coisa da internet? Facebook? Nome de ministro? Ninguém sabia o que era.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

27 de maio de 2016 | 02h00

Se eu fosse ainda criança, teria perguntado ao meu pai que, não soubesse, iria à enciclopédia Jackson, que o socorria com eficiência. Meu pai morreu em 1993 e a enciclopédia está fechada em caixas em Araraquara, com minhas coisas. Aliás, não sei o que fazer delas, cartas, cadernos, originais, livros. Despautério?

Comia aquele pão na chapa e dava tratos as bolas (quem criou essa expressão? Por que?). Tivesse o celular do Werneck, ligaria, mas de qualquer maneira era muito cedo, seis e dez da fria manhã de terça-feira, ele devia estar dormindo. Se o célebre etimologista Sérgio Fenerich estivesse aqui, seria fácil, mataria na hora. Estaria eu vivendo situação semelhante a do filho que perguntou ao pai o que é plebiscito no conto de Machado de Assis, que os professores do primário e do ginásio insistiam tanto em analisar? Verdade que era uma boa escola, professores bem preparados, tinham bons salários, alunos recebiam merenda digna, não uma banana como hoje. Tempo em que as escolas eram frequentadas e não ocupadas (e desocupadas à força) pelos estudantes, pedindo pelo amor de Deus para ter aula.

Soubessem desse futuro sombrio, aposto que todos aqueles mestres que no passado deram aulas a gerações e gerações, iriam para a praça publica, se embeberiam de álcool e tocariam fogo nas roupas, imolando-se. Como fez o lendário monge Thích Quàng Dúch, professor de uma faculdade em Saigon, Vietnã, em junho de 1963, em protesto contra a proibição da religião budista no país.

Despautério. Podia correr para casa, abrir o dicionário, tenho um de português arcaico, de Zenóbia Collares Moreira. Porém, fiquei. Cedi à gula. Impossível me afastar do pão na chapa dourado e sedutor que os chapeiros Beto e Nildo fazem, com o suco de laranjas frescas doces escolhidas uma a uma com carinho pelo Jason. Fechando com o expresso que só o Wilson sabe tirar. Não me atrevi a me levantar, o significado podia esperar, ainda que me cutucasse. Tem coisa melhor que padaria nas primeiras horas da manhã, o prosaico cotidiano iniciando? Na sua casa, Werneck dormia, ignorando o turbilhão na minha cabeça? Ou o que acontecia dentro de mim era um despautério?

Para quem não leu a crônica, Werneck, ainda jovem e imberbe na Belo Horizonte de Fernando Sabino, Otto Lara, Hélio Pelegrino e Paulo Mendes Campos, imortalizados no romance O Encontro Marcado (*), conheceu Murilo Rubião, aproximou-se, acabou trabalhando com ele no Suplemento Literário de Minas, publicação mítica que existe até hoje, agora nas mãos do Jaime Prado Gouvêa. Um dia, o lendário Rubião, humilde como somente os muito grandes são, pediu a Humberto que lesse um conto e desse alguma opinião.

Werneck, com a coragem de um jovem audaz no trapézio volante (como diria William Saroyan), atreveu-se a sugerir que Rubião tirasse a palavra despautério. Hoje, à distância, o conto é melhor ou pior sem a palavra? Pelo texto, percebe-se que o cronista carregou enorme culpa por décadas, assim como por 70 anos pesou-me o fato, mais que condenável, de ter surrupiado, na infância, as bolinhas de vidro que tinham sido do carrossel de meu avô. Escritores expiam a culpa na literatura. Werneck teve absolvição com sua crônica? Tive com meu livro Os Olhos Cegos dos Cavalos Loucos? Cometemos ambos um despautério?

O que significa a palavra? Levantem-se, corram ao dicionário ou ao Google. Posso ajudar. A situação política que vivemos agora, ELES contra os NÓS, a discussão foi golpe, não foi (afinal acabou sendo um pacto, segundo o tal Jucá), parece na verdade um mega despautério. Fui ao Aurélio, realmente a palavra tem origem entre 1400 e 1500 com o flamengo Johannes van Pauteren, cuja gramática era confusa, atabalhoada de marca maior. Despautério? Pesquisem, se esforcem.

(*) Quem escreverá O Encontro Marcado dos jovens escritores que frequentam a Mercearia São Pedro, delirante, agitada?

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