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'Estamira - Beira do Mundo' é encenado no Festival de Curitiba

No espetáculo, Dani Barros toma o lugar de catadora de lixo para dar vazão às suas inquietações

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, CURITIBA, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2012 | 03h10

Para falar daquilo que nos é mais caro, as palavras costumam faltar. Mas há sempre um consolo nas palavras de outrem, outras vozes que podemos convocar para que digam por nós. Em Estamira - Beira do Mundo, espetáculo apresentado ontem no Festival de Curitiba, a atriz Dani Barros toma o lugar de uma catadora de lixo para dar vazão a inquietações bastante particulares. "Eu encontrei ali o que eu queria dizer", diz ela, que mereceu pelo papel o Prêmio Shell de melhor atriz no Rio de Janeiro.

A peça toma emprestado o título do filme que lhe deu origem. No documentário Estamira, o diretor Marcos Prado acompanha o cotidiano de uma mulher com distúrbios mentais que trabalha em um imenso aterro sanitário. Dona de um discurso messiânico, ela se coloca como portadora de uma verdade a ser revelada. Em seus acessos, condena a hipocrisia, renega Deus e a religião, brada contra uma sociedade de controle, que impõe remédios e restrições para calar seus loucos, seus seres dissonantes.

Dirigida por Beatriz Sayad, a intérprete articula o discurso que toma emprestado de Estamira com elementos da própria biografia. Expõe, em intervenções delicadas, aspectos de sua relação com a mãe, vítima de depressão que passou por uma infinidade de tratamentos e internações. "A loucura é um assunto com o qual ainda não sabemos lidar. E eu vi aí a possibilidade de juntar as duas coisas: a maneira como esse passado com a minha mãe me impactou e o meu encantamento pela Estamira", pontua Dani.

Ao compor a dramaturgia, a atriz partiu principalmente do documentário. Estudou com afinco as inflexões e as palavras da personagem-título. Mas não só. "O filme já estava feito. Não faria sentido nenhum reproduzi-lo", considera. Com o intuito de extrapolar aquilo que já havia sido gravado, visitou e conversou com Estamira em diversas ocasiões, uma aproximação que se estendeu até a sua morte, no ano passado. Também trouxe para a encenação fragmentos de outros textos. A beleza incomensurável da simplicidade que habita a poesia de Manoel de Barros. O grito de dor que atravessa os escritos de Ana Cristina César.

Mesmo sem recorrer a apartes didáticos, o espetáculo explicita todos os elementos de sua tessitura. E encontra nessa forma de construção a parcela mais considerável de seu impacto e força. Os espectadores estão diante de um jogo aberto. Cenário e luz não tencionam criar ilusões. É nítido o trânsito da intérprete entre a própria voz e a evocação que faz a Estamira. Nítido, porém ambíguo.

Em sua atuação, ela se apodera com vigor da figura dessa outra mulher, coloca-a no próprio corpo. Uma fragilidade - repleta de força - que ultrapassa as palavras para se tornar física. Visível, palpável. Em movimento oposto, Dani Barros também abre sem pruridos um espaço para compartilhar angústias pessoais. É em uma zona enevoada, contudo, que certa mágica se dá. Breves transições, que podem durar alguns segundos apenas, nas quais as duas figuras estão sobrepostas. Confundem-se a atriz e a personagem a ser representada. Está-se a falar continuamente de perda, afeto e encontros. Mas quem fala? Não há em Estamira uma voz. Mas todas.

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