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Estados Unidos do fogo

O fascínio de um argentino pelo Brasil, o 'país da brasa', é relançado na obra Orgia

João Silvério Trevisan, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

O olhar estrangeiro pode desvendar aspectos ocultos de outro país. O diário brasileiro do argentino Tulio Carella evidencia isso. Publicado no Brasil com o título de Orgia (ed. Ópera Prima, 312 págs., R$ 64), esse livro acaba de ser relançado após mais de 40 anos esgotado. Foi a convite do seu amigo e tradutor Hermilo Borba Filho que Carella veio para o Recife em 1960, como professor na Escola de Teatro da Universidade local, e lá permaneceu quase 2 anos. Nesses diários, o quarentão Carella relata o clima político do País, mas sobretudo suas experiências sexuais, de modo tão obsessivo quanto as viveu.

Fascinado, Carella referia-se ao Brasil como "país da brasa". Sua estada no Recife efervescente do período lhe provocou um verdadeiro choque epifânico: "Creio que está nascendo um outro eu". Nessa cidade, parecia ter chegado a Sodoma e adentrado o paraíso: "tudo é força erótica, contato corporal", encontra-se "Vênus deitada, Urano nas esquinas". Viveu quase em estado de êxtase sexual, graças aos negros locais, que amou e por quem foi amado. "Acho que pelas veias dos negros não corre sangue, mas luz do sol, a substância vital dos trópicos. (...) Aqui eles têm o ar de cisne e usam seus farrapos com uma majestade indescritível".

De adorador dos Estados Unidos do Fogo (como batizara o Brasil), Carellla passou a vítima do "país dos contrastes" - para citar outro estrangeiro que tentou desvendar nossa difícil identidade. Com forte sotaque espanhol e frequentador assíduo do cais de Santa Rita, acabou sendo detido pelo Exército como suspeito de intermediar as relações entre cubanos revolucionários e as Ligas Camponesas. Corria o explosivo ano de 1962. Os militares, paranoicos com a subversão, esqueceram que esse cais era então um famoso ponto de sexo anônimo entre homens. Ao vasculhar a casa de Carella, descobriram não as provas da sua subversão mas os relatos de suas aventuras homossexuais. Só então se deram conta do equívoco. Como garantia, as autoridades fotocopiaram seus diários, ameaçando divulgá-los caso ele fizesse denúncias sobre as torturas sofridas. Ainda assim, a notícia se espalhou e Carella foi expulso da universidade. O reitor, segundo relato de Hermilo, não queria um professor que "vivia caçando homens; e o que é pior, negros". Em seguida, Carella foi obrigado a voltar para a Argentina. Orgia saiu publicado no Brasil em 1968. Depois de esgotado, mergulhou no esquecimento.

Entrei em contato com essa obra de Carella no Recife, em finais da década de 70, quando fazia pesquisas para meu livro Devassos no Paraíso (Record). Através de amigos locais, como Antonio Cadengue, consegui entrevistar ex-alunos dele, que me deram um exemplar desse livro já então raro. Inseri a história de Carella e trechos do seu livro num capítulo em que narrei como estrangeiros iguais a ele tinham sucumbido aos apelos eróticos do "país da brasa" - entre outros, Conrad Detrez, Fernand Legros, George Michael, Nestor Perlongher, Elizabeth Bishop.

Na década de 90, o livro "brasileiro" de Tulio Carella foi descoberto na Argentina, justamente através da minha obra. Passei a ser procurado por conterrâneos dele, interessados em localizar os originais perdidos e até mesmo editá-los a partir da versão em português. Atualmente, um estudante prepara uma tese que resgata a literatura homoerótica de Carella. Enquanto isso, no Brasil, Orgia criou uma pequena sub cultura, a partir de Devassos no Paraíso. Quando estudante de cinema em Nova York, Karim Aïnouz chegou a fazer um curta, Paixão Nacional, vagamente inspirado na história do exílio brasileiro de Carella. Aliás, um dos sonhos de Karim era filmar a história de Carella, mas agora isso parece ter se tornado coisa do passado, depois que se tornou famoso.

O curioso é que, sem conhecer o livro, sofri algo semelhante ao equívoco que vitimara Carella, quase 20 anos antes. Em 1978, fui interrogado, fotografado e fichado na polícia, junto com os demais editores do jornal Lampião, sob acusação de atentar contra a moral e os bons costumes, segundo a Lei de Imprensa. Como prova de que o Brasil continuava paradoxal (ou destrambelhado, vá lá), o delegado começou perguntando se eu já tinha ido a Cuba, se conhecia alguém que tinha visitado Cuba, etc. Até que um auxiliar veio cochichar no seu ouvido, e a sessão terminou de repente. Tive que voltar outro dia, para sofrer o interrogatório certo. Afinal, eu não era um subversivo padrão. Diante de mim e do meu advogado, ambos de terno e gravata, o delegado visivelmente confuso perguntou como devia me chamar. Em linguajar cru e direto (que aqui transcrevo mais respeitosamente), eu lhe respondi: "Pode me chamar de homossexual mesmo". Eu não sabia que Tulio Carella já vivera antes as consequências deste país de contrastes. Ou, quem sabe, de piadas prontas, não fossem os aspectos trágicos de tais equívocos. Foi também graças a esses contrastes que o Brasil ofereceu à Argentina e ao mundo esse Orgia, exemplar da melhor literatura erótica, dotado de grande beleza de estilo e acuidade reflexiva.

JOÃO SILVÉRIO TREVISAN É ESCRITOR E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE DEVASSOS NO PARAÍSO E REI DO CHEIRO (RECORD)

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