'Estado precisa ter acesso às obras de artistas mortos'

Secretária municipal de Cultura do Rio de Janeiro defendeu intervenção do Estado em obras privadas

Adriana Chiarini, de O Estado de S. Paulo,

19 de outubro de 2009 | 15h50

Falta um marco regulatório no País que dê maiores condições ao Estado de dar acesso público e cuidar de obras de artistas mortos, defendeu a secretária municipal de Cultura do Rio de Janeiro, Jandira Feghali. Pela legislação atual, as obras são propriedade privada dos herdeiros dos artistas e seu uso depende de autorização deles. "Como a propriedade é privada, só se tem acesso se for permitido. Temos várias situações no Brasil em que a família impediu livros, interrompeu exposições, guardou acervos inadequadamente", afirmou.

 

Veja também:

linkFogo destrói boa parte das obras de Hélio Oiticica no Rio

linkDiretora quer divulgar obras de Oiticica salvas de incêndio

 

Jandira conta estar há dois meses estudando como outros países lidam com o tema, que veio à tona pelo incêndio da maior parte do acervo do artista plástico Hélio Oiticica neste fim de semana na casa da família dele,no Jardim Botânico, na zona sul do Rio. Ela destacou que a obra de Oiticica marcou uma época e é importante para toda a sociedade.

 

"Meu lamento é profundo, até porque tentamos que fosse de outro jeito. Eu pessoalmente conversei com o sobrinho dele para a gente ter a cessão do acervo para o Centro Hélio Oiticica, por comodato. A gente não tem orçamento para comprar US$ 200 milhões. Poderiam não ceder todo o acervo, mas uma parte. Há que haver uma nova forma de lidar com isso e aí é uma legislação nacional", afirmou a secretária.

 

Jandira criticou diretamente o curador do Projeto Hélio Oiticica e sobrinho do artista, César Oiticica Filho, conhecido no meio artístico como Cesinha. "Na minha opinião, nós perdemos um acervo por uma atitude fechada do herdeiro, particularmente. A gente conversou foi com o sobrinho", disse, referindo-se a César Oiticica Filho.

 

Por contrato realizado na gestão do ex-prefeito Cesar Maia, já vencido e não renovado, o Projeto Hélio Oiticica ficaria abrigado no Centro Municipal Hélio Oiticica, nas imediações da Praça Tiradentes, e receberia R$ 20,5 mil por mês. De acordo com Jandira, "não era o projeto, que recebia R$ 20,5 mil por mês era o Cesinha, que montou um escritório privado num espaço público e recebia para ele. Essa relação do Cesinha com a gestão anterior é no mínimo polêmica e obviamente não pudemos manter. O acervo não estava lá desde 2002", disse. "Ele recebia em nome de um projeto que não se cumpria", disse. "Ela (Jandira) está tentando fugir das responsabilidades que são dela por não renovar o contrato", respondeu por e-mail César Maia.

 

Procurado pela reportagem, César Oiticica Filho disse que, se a declaração de Jandira fosse publicada, ele processaria a secretária. "É impressionante como ela mente. Ela tem o contrato com o Projeto Hélio Oiticica", disse. Afirmou que o Projeto Hélio Oiticica gasta muito mais que R$ 20 mil por mês, sendo R$ 8 mil apenas para Museologia e Pesquisa. Também disse que o Projeto fez exposições históricas no Centro que tinha proposto um programa para continuidade da exposição e a Secretaria não aceitou.

 

Oiticica Filho ironizou a declaração da secretária de que na França, por exemplo, o Estado tem prioridade na compra da obra quando um artista morre: "Quem dera que o Brasil fosse como a França. Acredito que a Jandira quase nunca deva ir a exposições de artes plásticas". Também alfinetou: "a primeira ação de Jandira no Centro foi demitir a museóloga e até hoje não colocou ninguém para o lugar".

Tudo o que sabemos sobre:
Hélio Oiticica

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.