Estádio no país do futebol

Documentário registra mudanças na sociedade brasileira a partir das emoções e esperanças dentro do Maracanã

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2010 | 00h00

Se para Felipe Lacerda filmar "os últimos dias do Maracanã como o conhecemos" é também colocar em foco a alma do brasileiro, acompanhar diretor e equipe em um dia de filmagens é encarar de fato as contradições do caráter nacional.

"Parte pelo todo", simbólica de um povo famoso por seu jeitinho de improvisar e burlar as regras, a atual realidade do Maracanã revela contradições cruciais do brasileiro. Exemplo? O Estado seguiu a equipe em busca de um "traficante de cerveja" durante o Fla x Flu. Cerveja agora é proibida? "Dentro do Maraca, sim. Agora só cerveja sem álcool. Não dá, somos obrigados a dar um jeitinho", respondeu o vendedor autorizado (a vender refrigerante, água...), que "repassou" uma cerveja "de verdade" a R$ 10.

Diante da contradição, como explicar para o câmera holandês o fato de que "a imprensa não consegue entrar pelo portão comum?" Só pelo 18, explica o vendedor. "Mas o "traficante" de cerveja entra pela porta da frente com suas latinhas alcoólicas escondidas na mochil?"

Este é de fato um estádio, e um País, de contradições. "Mas, se assistir a um jogo tomando cerveja sem álcool é ruim, pior ainda é receber xixi na cabeça, levar latada, ter medo de gangues, de ser assaltado", ponderava um torcedor que "prefere pagar mais pelo ingresso, mas ter a segurança de trazer a família a pagar mais barato e assistir sozinho aos jogos".

Personagens. É de questões como essas, e da vida dos personagens que povoam a arena a cada jogo que Maracanã, o filme, trata. "O documentário registra e questiona as transformações que o Maracanã e o Brasil vêm passando. O Maraca de hoje é bem diferente de antes. Já mudou muito para o Pan. E está mudando mais. Há algum tempo corria o risco de virar reduto de batalhas quase tribais. Hoje há pontos, aqui, que parecem um shopping center", declara Lacerda. "Devemos pensar sobre como se perde em espontaneidade quando se ganha conforto e segurança. Isso não é ocorre só no futebol."

As reformas começaram em março e vão consumir cerca de R$ 720 milhões. Após registrar no último mês os derradeiros jogos, a equipe do filme parte agora para a fase de entrevistas com personagens dessa história. Entre eles, está o "maqueiro" Eneas. Morador da zona norte carioca, há 41 anos, ele toma duas conduções para chegar ao estádio. Em dias de jogo, chega 5 horas antes, coloca a rede nos gols, faz um lanche, toma banho, descansa e se prepara para a partida, que assiste dentro do campo, sentado no carrinho elétrico com que resgata jogadores feridos em batalha. "Quando chove, não funciona, tenho de levar o povo no braço."

Terminada a partida, Eneas tira a rede e segue para o vestiário. "Tá vendo este pente? É de osso. Tenho há 30 anos. Faço este penteado para ficar igual ao Pelé", "entregava" para a câmera. "Mas os cabelos brancos vou tingir para o próximo jogo. Vai ficar tudo pretinho." Aos 70 anos, ele espera ainda trabalhar no Maracanã em 2014. "E acho que a CBF devia me levar para a Copa da África."

Assim, como o "maqueiro", outras figuras que povoam o Maracanã, como o sargento Felipe, as Patricinhas, o Obama (veja fotos abaixo) compõem o mosaico entre a "velha" e a "nova ordem" do estádio e do Brasil.

Choque de Ordem. Ordem esta que em alguns casos foi imposta e em outros adotada e aprovada pela população do Rio. Desde que assumiu a prefeitura da cidade, em 2009, Eduardo Paes vem instituindo diversas medidas referentes ao chamado choque de ordem, que visa a ordenar, limpar e organizar a cidade para a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016.

Um símbolo desse "choque" é o outdoor em frente do Maracanã: Não seja expulso de campo: Fazer xixi na rua é penalidade máxima. "Veja só. Até há pouco tempo, o xixi na rua em ocasiões como o carnaval não causava nenhum alvoroço na população do Rio. Era um incômodo que durava dias e depois passava feito folia. Hoje, dá cadeia. Não estou defendendo o xixi, mas até que ponto a gente gosta da cultura do improviso ou aprendemos a conviver com o caos?", provoca o cineasta Lacerda. "Todos queremos hospital que funcione. Mas até onde queremos que nossa diversão seja controlada? Se futebol brasileiro traduz nosso caráter, organizar essa paixão resulta em quê?"

Geral. De olho nos símbolos da nova civilidade, a equipe do filme se desdobra para flagrar belos e espontâneos momentos desse coliseu pós-moderno. "No Maraca, até 2008, existia a Geral (acabou por exigência da Fifa, pois não se pode mais assistir a jogos em pé), onde a bagunça era permitida. Agora, este espaço espontâneo está se reduzindo. Em que ponto este choque de ordem vai ser benéfico e em que ponto vai alterar nossa personalidade? Ficaremos homogeneizados como as grandes capitais, os grandes estádios, os grandes shows do mundo?"

Caso para se pensar. E também para não se esquecer que Maracanã é também um filme sobre futebol. "Não tem como não ser. Falou de Brasil e de Maraca, falou de futebol. E vice-versa", analisa o produtor Diogo Dahl. Não por acaso, além da Coqueirão (produtora de Maracanã), Dahl fundou também a FlaFilmes. "Começamos por paixão mesmo, fazendo filmes sobre o Flamengo. Passamos a fazê-los profissionalmente. Agora lançamos vários DVDs. É incrível como o brasileiro quer assistir a futebol também no vídeo. Hoje há gente como nós, que acredita que futebol é bem mais que ópio do povo."

MARACANÃ EM OUTRAS FITAS

Canal 100 (Carlos Niemeyer)

Garrincha, Alegria do Povo (Joaquim Pedro de Andrade)

Garrincha - A Estrela Solitária (Milton Alencar Jr.)

O Que É Isso, Companheiro? (Bruno Barreto)

Rio 40 Graus (Nelson Pereira dos Santos)

Rio Zona Norte (Nelson Pereira dos Santos)

Geral (Ana Luíza Azevedo)

Barbosa (Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado)

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