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Estações de Metrô

O vagão da estação Guilhermina-Esperança está tão cheio que agora a estação só se chama Guilhermina

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2021 | 03h00

Palmeiras-Barra Funda

A plataforma está cheia. Do alto, sou o aqualouco decidindo se devo ou não pular naquela piscina. Se a covid fosse fosforescente, eu teria uma estratégia de como nadar até o vagão. Talvez se eu nadasse de costas. De costas. 

República 

Dois fanáticos por futebol entram no vagão. Um passageiro usa uma máscara do Corinthians; o outro, a do Palmeiras. Sinto uma troca de olhares, uma briga silenciosa, uma promessa de violência que nunca será consumada. Não são negacionistas. Foi um empate com sabor de vitória para os dois lados. 

O religioso entra no vagão. Tira a máscara, abre a Bíblia e começa a pregar. A palavra gritada, lançando perdigotos negacionistas pelo ar, vai perdendo o sumo. Ele fala em amor, compaixão, respeito, mas o que se ouve é apenas um zunido de rádio mal sintonizado. Daquela boca sem máscara pululam conceitos abstratos, folhas podres, slogans de morte. Perto de mim, alguém grita: “Põe a máscara, maluco”. E essa foi a verdadeira e única palavra do Senhor. 

Brás

O ambulante não sabe usar o produto que está tentando me vender. Qual a razão de usar a máscara no queixo? Dever ser como usar preservativo na orelha, não é? Ainda assim, ele insiste em dizer que a máscara é excelente e que tem um material qualquer capaz de esganar a covid que, porventura, venha com alguma saliência viral para cima de nós, potenciais compradores. Ele garante que a máscara também é eficaz contra todas as cepas e tretas que existem ou que ainda não foram descobertas. São cinco máscaras por R$ 10. Levo três por R$ 5. 

Tatuapé

Em pé, perto da porta, o casal se beija. Impossível não reparar no desespero de línguas enroladas, afogadas, famintas, sacanas e insaciáveis. Um beijo como se não houvesse amanhã. Talvez não tenha mesmo. Em tempos de pandemia, o amanhã é um luxo sem garantias. Imagino corações de covid sobrevoando a cabeça da dupla. Todo meu apoio, mas seria melhor se eles arrumassem um quarto. Mas um quarto está muito difícil de se achar.

Penha

Tem um jovem sentado no lugar reservado para os idosos. Uma senhora de idade bastante avançada e cabelos brancos se aproxima. Sinto que ela tenta chamar atenção do menino de forma educada. Ele finge que não está vendo. Penso em intervir, mas sou pego de surpresa pela reação de velhinha. Ela começa a conjurar uma espécie de praga ou maldição contra o folgadão. O garoto dá de ombros. Finge que não é com ele. A idosa, sem mais delongas, afastou-se e sumiu entre os outros passageiros. Sumiu, literalmente. Desapareceu, sacou? O garoto ainda não pode perceber, mas eu já vejo os efeitos do seu descaso. Coitado. Amo as bruxas. E sempre torci por elas. 

Guilhermina-Esperança

O vagão está tão cheio que agora a estação só se chama Guilhermina. 

Corinthians-Itaquera

Abrem-se todas as portas, com meu “abre-te, Sésamo” imaginário. Quem não foi ungido pelo home office desceu apressado – depois de arrancar a fórceps da muquirana mão da existência mais um dia de pão e de leite. Agora, é chegar em casa, tirar os sapatos, tomar um banho, brincar com as crianças, jantar com a patroa, assistir um pouco de TV e torcer para essa tosse chata não ser nada demais. 

 

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