Estação das flores

Antes sufocados por regimes autoritários, os 'rouxinóis da revolução' lutam com canções

Bolívar Torres, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

"Daqueles que resistem nós somos as vozes / Em seu caos, somos a chama / Somos livres e nossa palavra é livre / mas não esquece os que semeiam os prantos e traem nossa fé". Entoada nas ruas de Tunis durante as manifestações da Revolução de Jasmim, a canção Kelmti Horra (minha palavra é livre), da jovem compositora Emel Mathlouthi, logo se tornou uma das canções chaves dos protestos que derrubaram o ditador Ben Ali. Primeira faísca da chamada Primavera Árabe, que se alastrou pelo Oriente Médio confrontando regimes autoritários, a revolta tunisiana não foi a única a produzir canções emblemáticas. Ao longo dos últimos meses, a instabilidade dos países árabes é acompanhada por uma efervescência musical. Canções revolucionárias - muitas de autoria anônima - surgem por todos os cantos, incentivando a população a sair às ruas e resistir. Ritmos e estilos antes reprimidos ganham uma visibilidade inédita, mesmo que ainda permaneçam na clandestinidade para alguns. Embora vivam fases diferentes da revolta e um contexto político diverso, há pelo menos um ponto em comum entre as nações envolvidas no conflito: o nascimento de uma nova era na música árabe.

"Há uma incrível proliferação de música patriótica e revolucionária", conta o rapper líbio Ibn Thabit, ao descrever o cenário de seu país. "Todos os dias, ouço uma nova canção, às vezes de um artista conhecido, às vezes de recém-chegados. Tem gente do Marrocos e do Egito cantando especificamente sobre o que se passa na Líbia."

Ibn Thabit, nome de um poeta árabe do século 7, é o pseudônimo escolhido pelo rapper para esconder sua identidade e proteger sua família. Atacando Kadafi desde 2008, ele evita posar para fotografias ou se apresentar em público. Mesmo sem tomar partido, é um dos principais porta-vozes da revolução. Usando as redes sociais, disponibiliza suas músicas gratuitamente, como a mordente Apelo para a Juventude Árabe, que chama Kadafi de "o ignorante coronel". Difícil para entrevistas, diz que está cansado de jornalistas perguntando besteiras e faz uma série de questionamentos logo no primeiro contato com a reportagem: "Qual é o ângulo da matéria? O que as pessoas sabem sobre a Líbia no Brasil? Elas nos confundem com o Líbano. Impressione-me e eu retornarei o favor". Depois de uma nova troca de e-mails, mostra-se mais disposto a conversar, e faz um relato do ambiente nas ruas. "É uma pena você não estar aqui, agora, para ver as festas que fazemos nas ruas e as procissões. Temos o costume de sair com percussões e zukra, uma espécie de gaita de fole local, com cantores e rappers se misturando."

Apesar do vento de mudanças, a liberdade ainda não está totalmente ao alcance dos músicos árabes. Que o diga o cantor folk egípcio Ramy Essam, torturado durante quatro horas depois ser identificado como um dos "baderneiros" da praça Tahir. Apanhou de vara, foi eletrocutado e humilhado, mas logo voltou aos protestos assinando um dos hits da revolução egípcia, Irhal (vai embora), composto em apenas dois minutos. Por conta dos riscos, muitos músicos declinaram o pedido de entrevista do Estado, solicitando inclusive para sequer serem mencionados no texto.

Durante os protestos na Tahir, Mohammed El Deeb, um dos principais rappers do país, chegou a presenciar o assassinato de um homem. "Atiraram nele na minha frente. Vi a bala atravessar a sua cabeça", conta, da sala da sua casa, via skype, falando sem nenhuma pose ou tentativa de impressionar. Para Deeb, cantar a revolta continua sendo uma atividade perigosa.

"O que mudou, basicamente, é que antes eu precisava maquiar minhas palavras, falar por metáforas, e agora posso me expressar de forma direta", explica. "Posso chamar Mubarak de ditador corrupto e todos saberão que estou dizendo a verdade. Os militares sabem que a única maneira da população se acalmar e deixá-la falar o que quer. Mas ainda há muitas demandas. Pessoas continuam sendo julgadas por expressarem suas opiniões. A impressão é o que país ainda está se acostumando com a liberdade. É tudo muito novo."

Deeb, que participou dos protestos na Praça Tahir desde o primeiro dia, diz que a música continuará exercendo um papel fundamental na hora de reunir os indignados. "Na revolução as pessoas estão mais dispostas a ouvir as suas palavras", avalia. A música acaba sendo uma chamada de consciência que reúne gente de todas as classes."

A efusão musical no Oriente Médio não é recente. Muito antes da revolução, graças às redes sociais e às novas tecnologias, as jovens gerações gravavam e compartilhavam músicas proibidas ou de alto teor "subversivo", além de manter um contato muito mais estreito com a cultura ocidental. O que permite a artistas de origem árabe, nascidos e estabelecidos fora do Oriente Médio, uma chance de continuar ligado com suas raízes. O sírio-americano Omar Offendum, por exemplo, grava canções bilíngues, alimentando a revolução com torpedos musicais enviados de sua base em Washington. Sua canção mais famosa, #Jan24#, é uma colaboração entre rappers internacionais, que lembram os eventos egípcios.

"Durante minha turnê no Oriente Médio, percebi que as novas gerações têm um conhecimento maior da cultura ocidental", observa Offendum. "Dependendo do lugar, posso inclusive cantar em inglês que todos entendem. Os jovens são expostos à TV parabólica e à internet. Sabem o que acontece lá fora, como o resto do mundo opera, e estão cansados de lidar com a realidade deles. Essa revolução não é nova. Anos antes, o hip-hop já estava lá, o rock já estava lá, e ela não passa apenas pela música ocidental, mas também por ritmos e cantos locais, tradicionais."

Com a luta em andamento, os manifestantes precisam, mais do que nunca, de vozes que os representem. Não por acaso, artistas desconhecidos viram celebridades da noite para o dia, aproveitando o embalo dos protestos. É o caso do rapper tunisiano El Général, um garoto de 21 anos que, em poucas semanas, ganhou notoriedade mundial soltando a voz contra Kadafi.

Dependendo dos rumos da revolução, músicas antigas também podem assumir uma nova importância. A própria Kelmti Horra, a joia de protesto folk citada mais acima, já era cantada desde 2007 por Emel Mathlouthi, mas só se transformou no símbolo de um país a partir das primeiras manifestações tunisianas, no final de 2010. Expatriada em Paris, a jovem cantora eclética, que transita entre o folk e o trip-hop, Joan Baez e Tricky, havia acabado de desembarcar para uma série de shows em sua terra quando a revolução estourou. Sem hesitar, saiu para as ruas e fez coro com os revoltados.

"Foi um momento emocionante para mim", lembra Emel. "Eu estava nervosa, mas cantar Kelmti Horra foi uma opção natural. Foram as pessoas que a pediram, porque ela representa o mal-estar da sociedade, e traz a esperança por mudanças."

Com a fuga de Ben Ali, Emel espera que a música tunisiana tome um novo rumo: "Talvez agora tenhamos mais estrutura. Nunca tivemos nada, só havia a internet a nosso favor. É importante que a música tunisiana se expresse com toda a sua diversidade."

CRONOLOGIA MUSICAL DA REVOLUÇÃO ÁRABE

TUNÍSIA

27 de dezembro de 2010

Começam os protestos em Tunis contra os problemas do país: economia, desemprego e repressão. Depois de colocar fogo em si mesmo, o ambulante Mohammed Bouazizi é visto como mártir. Em meio a slogans de raiva e revolta, a cantora Emil Mathlouthi entoa Kelmti Horra, música de protesto que clama por liberdade de expressão.

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EGITO

25 de janeiro de 2011

Primeiras manifestações no Cairo. Inspirados na revolta tunisiana, a população toma o centro da cidade, pedindo a renúncia de Hosni Mubarak. O título de uma canção de Ramy Essam, Erhal (Vai Embora), se transforma em palavra de ordem, retomada em vários países árabes. Essam é torturado pelo regime.

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LÍBIA

17 de fevereiro de 2011

O "Dia da Raiva" líbia marca oficialmente as revoltas no país. Mais tarde, a data é celebrada pela canção anônima Misrata, que empresta o nome da cidade dominada por forças anti-Kadafi. Depois de décadas sendo reprimida pelo general Kadafi, a música líbia renasce, com novas canções, a maioria sem autores ou copyright.

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SÍRIA

4 de julho de 2011

Depois de ser visto cantando Vai, Bashar (É Hora de ir Embora), uma música jocosa contra o presidente Bashar Al-Saad, o poeta e bombeiro Ibrahim Qashoush é encontrado morto no Rio Orontes com a garganta cortada. A música ganha as ruas de Hama, cantada pelas multidões em sua homenagem.

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