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Está rindo do quê?

Atravessamos holocaustos e horrores e a ‘Mona Lisa’ não liga, não se indigna

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2022 | 03h00

Mais um atentado contra a Mona Lisa. Sua fama e sorriso enigmático agridem pessoas transtornadas. Estou sofrendo, e ela está lá, impassível, impávida, por séculos. 

Atravessamos holocaustos e os maiores horrores que a Humanidade é capaz de produzir, e ela não liga, não muda, não se indigna. Atravessamos mundos dantes não navegados, conhecemos novos mundos, escravizamos continentes, indígenas e negros, incendiamos cidades e florestas.

Extinguimos animais, povos, línguas. Com a pólvora, as guerras se tornaram cada vez mais cruéis e destrutivas. Com a bomba atômica, autodestrutivas, definitivas. Tímida, introvertida, você, Gioconda, seduz. Talvez seja o rosto mais conhecido. Está no nosso imaginário.

Da Vinci tinha apego. Nunca a vendeu e a levou quando se mudou para Paris. Ficou exposta em Versalhes. Depois da Revolução, Louvre. Napoleão se apaixonou e dormia com ela. Foi escondida durante guerras, foi roubada, ganhou uma tela de vidro à prova de bala, protegida como uma líder mundial. Claro. Jogaram ácido sobre ela, café, apedrejaram. E agora, uma torta.

Não tem joias e é anônima, renascentistas não nomeavam seus quadros. Ninguém sabe ao certo a identidade. A historiadora Maike Vogt-Lüerssen a descreveu como a esposa mais infeliz do mundo. Afirma que é o retrato de uma duquesa de Milão de 17 anos, Isabella de Aragon, infeliz no casamento com seu primo, bêbado impotente que batia nela. As roupas pesadas indicariam luto. 

Outros dizem ser mulher do rico comerciante Francesco del Giocondo, que ou estaria grávida ou tinha acabado de parir, por conta do véu. Seria a felicidade da supremacia do ato de ser mãe. Para Freud, representa o desejo erótico pela mãe.

Raio X, scanners a laser, supercomputadores, algoritmos tentam desvendar se a mãe ou noiva está feliz, infeliz, com dor, passando mal. Um computador da Holanda via comparações, indicou que ela era uma mulher feliz. Gioconda é alegre em italiano.

É o rosto mais pop (mais famoso que Os Beatles), reproduzido por Warhol, Duchamp, Dalí, retratada por Rossellini e Visconti. Já sugeriram ser um autorretrato do próprio pintor, Leonardo.

Lasciva, recentemente best-sellers de ficção e thriller policial encontraram segredos em camadas que revelariam a localização do Santo Graal, e que Madalena era esposa de Jesus, apóstola decisiva nos rumos do cristianismo.

Ela parece ter vida, seus olhos acompanham quem a vê de frente. Observa-nos como uma deusa. Por que me interpretam tanto? Cruzou a revolução industrial e tecnológica, modernismo e o pós. Testemunha nossa imprudência. Ironiza nossa incapacidade de evoluir.

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