Heitor Dhalia está tão entusiasmado com o novo projeto em que está se lançando que até minimiza a experiência que poderia ser traumática de 12 Horas. Em São Paulo, o diretor falou sobre o thriller que estreia amanhã com o repórter do Estado já com a cabeça voltada para Serra Pelada, que roda no segundo semestre.

12 de abril de 2012 | 03h09

Era um sonho seu fazer um filme em Hollywood?

Não vou dizer que era um sonho, mas era com certeza um desafio e isso era bem interessante. Essa coisa do meu 'filme norte-americano' não é de agora, Começou a surgir quando Nina e, depois, O Cheiro do Ralo começaram a rodar o mundo e passaram em festivais nos EUA. No intervalo, fiz À Deriva, filmado no Brasil, mas com elenco internacional e produção idem. À Deriva foi para Cannes e virou uma espécie de cult entre os novos executivos de estúdios de Hollywood. Quando eu já estava desistindo desse hipotético filme nos EUA, surgiu a proposta para fazer 12 Horas.

E o que ela tinha de tão interessante?

Era filme de gênero, um thriller, e eu gosto de thriller. Pensei - é o tipo de filme que eu iria ver. Por que não fazer? Vários projetos bacanas foram indo pro brejo, incluindo uma biografia de Zelda Fitzgerald, que eu achava que poderia ser muito boa. Esse era um filme de um perfil talvez mais intelectual, até pelos personagens. Zelda, Scott Fitzgerald, os anos do jazz. E aí veio a história da garota que sofreu uma agressão e ninguém acredita. Havia uma obsessão da personagem, essa coisa de 'eu contra o mundo' que mexeu comigo. Encontrei o produtor, um milionário texano chamado Tom Rosenberg. As coisas foram se encaminhando, a Amanda (Seyfried) aceitou o papel. Pensei comigo - 'Agora, vai'. Só não pensava que seria tão complicado.

O que foi mais difícil?

Tudo. O Tom (Rosenberg) não é homem de cinema. Entrou nessa por capricho. O negócio dele é dinheiro. Não me deu nenhuma margem de movimento. Me engessou dentro de um esquema que era dele. Eu queria levar meu fotógrafo brasileiro, ele não deixou. Sugeri um gringo. Ele retrucou com dois nomes. Indiquei um, ele contratou o outro - isso para deixar claro quem mandava. Tom não me deixou ensaiar com a Amanda, nem discutir o personagem sozinho com ela. Havia sempre alguém de confiança dele me controlando. Nesse quadro, é claro que não poderia fazer nada pessoal, mas não creio que tenha me saído mal.

E o que saiu bem?

Talvez por insegurança, por trabalhar num esquema que não dominava, fui caxias. Me preparei muito. Terminei o filme antes do prazo, gastei menos. O público dos test screenings gostou. O Tom ficou tão satisfeito que até propôs trabalhar comigo de novo. Eu poderia ficar lá, fazendo esses filmes, mas não é o que quero. Vou fazer um filme meu.

Esse filme é o Serra Pelada?

É um filme grande e, com esse, sim, eu sonho há muito tempo. Por meio de dois amigos, que serão interpretados por Wagner Moura e Seu Jorge, quero contar a história do maior garimpo a céu aberto do mundo. Pesquisei muito para fazer esse roteiro original e posso dizer que a história do Brasil moderno passa por Serra Pelada, senão nasceu ali. As grandes fortunas... O Eike Batista tem um pé em Serra Pelada. Quero contar essa história das buscas pela pepita mítica, que vale milhões.

No imaginário da gente, Serra Pelada é um universo essencialmente masculino e tinha uma mulher, a Rita Cadillac. Ela é personagem do filme?

A Rita é personagem, sexy, objeto de desejo de todos aqueles machos. O garimpo foi controlado pelo Exército. A Rita era guardada por eles. Quero reproduzir a cena famosa, quando ela se apresentou pela primeira vez. "Não estão gostando, estão me jogando pedras", ela pensou. Mas o que jogavam eram pepitas, de tão loucos que ficaram.

Deve ter sido uma história muito forte de sexo e violência, não?

Mais que forte, louca. O garimpo tinha todos aqueles homens confinados. Mulheres não entravam, só a Rita. A consequência foi que o homossexualismo se desenvolveu e a prostituição passou a ser exercida por travestis. Mas não eram travestis mocinhas. Eram travestis machos, tipo Madame Satã, que encarnavam a violência. Elas só perdem a importância no garimpo quando o medo da aids faz com que todas elas, muitas doentes, sejam expulsas. O êxodo das travestis pode ser uma cena para ficar na história.

O que a experiência hollywoodiana vai ajudar num projeto desses?

Acho que em tudo. Trabalhando naquelas condições, em 12 Horas, consegui concluir um projeto que não era meu. Esse aqui é grande, imenso. Montar essa produção, trabalhar com um elenco grande e um batalhão de extras, tudo isso vai exigir disciplina, preparação, dedicação e tudo isso adquiri no 12 Horas. Tinha horas em que queria desistir, mas pensava - esses caras não vão me vencer. Espero usar muita coisa que aprendi lá para fazer meu filme aqui.

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