Essência e forma em Fernando Pessôa

A arquitetura e a música originais de Fernando Pessoa - morto há 75 anos - serviram de tema a um especialista de peso

Adolfo Casais Monteiro, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2010 | 00h00

Dos diversos Fernando Pessoa, dois sobretudo oferecem maior dificuldade ao leitor sem cultura poetica: Alvaro de Campos e Alberto Caeiro. Um e outro lhe exigem a capacidade de reconhecer aquela musica propria a todo o autentico poeta, que não se aprende nos manuais de metrificação, mas pela educação do ouvido e do gosto. Ora, a autentica poesia, nunca tendo alcançado em Portugal maior publico do que minoria bem reduzida, perdeu em vez de ganhar com a popularidade excepcional dos versos de Guerra Junqueiro, por obra dos quais se criou no espirito dum largo setor do público, até aí alheio à poesia, a crença de ser esta uma habil orquestração de lugares comuns do pensamento e de comesinhos sentimentos. Todas as facilidades - sob as quais há, sem duvida, o talento real do poeta, mas dum poeta que seguiu os convites da popularidade em vez da exigencia interior de autenticidade - graças às quais Junqueiro conquistou para a leitura de versos um publico de ouvidos fechados às severas ressonancias da grande poesia, em vez de ajudarem, ainda mais dificultaram a sua compreensão.

''Portugal, país de poetas'' é uma dessas faceis imagens que, não sendo falsas nem verdadeiras, são tomadas sempre no sentido falso; país de poetas ou não o certo é não ser o português leitor de grande poesia, sendo-lhe totalmente alheias as tradições culturais que, noutras terras, permitiram que ela não fôsse apenas usufruto duma tenue minoria, e trouxeram até à boca do povo os versos dos maiores poetas. Faltou-lhe um elemento fundamental para isso: ouvido. A musica da poesia foi empobrecendo, depois de Camões, até recuperar no seculo passado, com Antonio Nobre, grande parte da sua vitalidade, só inteiramente reconquistada com Camilo Pessanha, Sá-Carneiro e, sobretudo, Fernando Pessoa.

País de poetas faceis, isso sim: de habeis rimadores, de opulentos retoricos, de maviosos liricos. Mas capaz de deixar morrer à fome qualquer novo Camões que viesse oferecer-lhe uma ''obra'', a arquitetura e a musica conjugadas numa realização complexa. E a obra de Pessoa é realmente essa realização: a alternativa dos heteronimos constitui a arquitetura, vivificada pela musica propria a cada um deles. A obra em sua total figura é o contraponto das musicas diversas que se completam; Fernando Pessoa não é apenas o ''fala só'' com que se identifica o lirico; e a superioridade da sua obra sobre a de Sá-Carneiro, que não lhe é inferior pela inspiração, está nessa conjugação de elementos, nessa multiplicidade de planos - está em não ser autor de admiraveis poesias apenas, mas duma grande ''obra''.

Mas a captação desta multiplicidade exige do leitor que o ''acessivel'' não lhe faça perder de vista o ''dificil'' - termos que emprego aqui, como é evidente, em relação àquele baixo nivel de cultura poetica atrás referido. Exige dele, em primeiro lugar, que a musica de Alvaro de Campos, de Ricardo Reis e de Alberto Caeiro não lhe seja menos familiar do que a de Fernando Pessoa ele mesmo, e que nas complexas harmonizações da ''Tabacaria'' ou da ''Ode Maritima'', por exemplo, saiba reconhecer as mesmas virtudes que na melodia mais familiar do ''Menino de sua mãe''. Exige, em suma, que a musica lhe ensine aquilo que a metrica não oferece.

Não creio que Pessoa tivesse razão, ao esquematizar os vários graus da poesia, reduzindo o lirismo a uma forma inferior de expressão, a qual, em relação à epica e à dramatica, considera ''a incapacidade comovida de ter qualquer delas'', como ''cantar as emoções se têm'' (1). Poderia, e deveria talvez, se isso não me fosse levar demasiado longe, transcrever aqui as paginas magistrais de Frederico Gundolf, na introdução do seu ''Goethe''. Citarei pelo menos, daquelas onde expõe a sua concepção da poesia lirica, esta passagem essencial: ''Do ponto de vista do conteudo, o eu não poderia constituir a diferença caracteristica do lirismo; porque o conteudo de toda a verdadeira poesia não pode deixar de ser o eu do poeta (...) Não são a primavera, a mulher amada, etc., que o poeta lirico tem como tarefa representar, mas sim a experiencia vivida, a vibração que o transporta ao contacto destes objetos exteriores. A sua materia é a experiencia que tem da primavera, e não a primavera ela propria. O quiproquó entre estes dois conteudos profundamente diferentes, entre um objeto e a sensação dum objeto, constitui um dos erros fundamentais da antiga estetica. (...) A poesia lirica é aquele genero em que conteudo e materia são desde o inicio identicos, precisamente a essencia do eu que compõe o poema'' (2). Deste ponto de vista, poderiamos chegar, porventura, desmentindo Pessoa, teorico da poesia, ao reconhecimento de que ''sua ''poesia dramatica é, afinal, lirismo. Mas isto vem aqui tão só como incidente; e para registra que a referencia a lirismo se refere à concepção de Pessoa, unicamente.

Seja como for, o importante para aqui é acentuar que entre as formas tradicionais usadas por Fernando Pessoa ele mesmo e por Ricardo Reis, e os ritmos ''livres'' dominantes em toda a poesia de Alberto Caeiro e quase toda a de Alvaro de Campos, a diferença não é de essencia, mas de grau. Que não é uma diferença que opõe, mas uma diferença que, digamos assim, completa. A complementaridade dos diversos Fernando Pessoa é uma ''verdade'' indispensavel à leitura certa da sua obra; e as opções tão correntes são uma diminuição para o leitor que as faz, pelo menos todas as vezes em que preferir ''um'' entre os varios seja negar os outros, isto é, não os ''atingir''. A simplicidade aparente de Fernando Pessoa ele mesmo resulta de o ouvido estar habituado àquela musica, embora Pessoa a tenha enriquecido extraordinariamente. Ele tira efeitos novos de ''notas'' familiares ou ouvido. Digamos, se quiserem, que a ''escala'' de Fernando Pessoa ele mesmo, assim como a de Ricardo Reis, é a tradicional na nossa poesia, e que os outros dois introduzem uma ''escala'' tão pouco familiar como foi, aos ouvidos dos ocidentais, a que lhe revelou a musica de Mussorgsky.

''A poesia ritmica (...) segue (...) todos os movimentos do espirito, como a sombra os do corpo (...) transcendendo pensamento e emoção, é a mesma individualidade'' - eis o que, ao pô-lo em paralelo com a quantitativa e a silábica, sobre ela diz Fernando Pessoa, num trecho (3) do qual achei conveniente alijar tudo o que não era essencialmente a definição que para aqui interessa. Isto basta, contudo, para destacar que os elementos novos introduzidos por Pessoa, através de Alberto Caeiro e Alvaro de Campos, na poesia portuguesa, alargam as suas possibilidades de expressão, mas não as alteram, pois que as distinções entre os três referidos estadios das formas poeticas não envolvem distinções de essencia.

(1) - ''A nossa crise''. Porto, 1950. É reedição duma entrevista concedida por F. P., em 1923, à revista ''Revista Portuguesa'', onde saiu no n. 23-24.

(2) - ''Goethe'' - I v., p. 34-5 da tr. francesa.

(3) - ''Paginas de Doutrina Estetica'', p. 236-7.

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