Esse suave e híbrido sacrilégio do Gotan

Antes de tocar Rayuela, Eduardo Makaroff, violonista do Gotan Project, explicou: "O próximo tema é uma homenagem a Júlio Cortázar, o grande escritor argentino". Rayuela, ou O Jogo da Amarelinha, é o livro que Cortázar escreveu em 1963. Interessante, porque é um livro cujo assunto principal é o próprio livro, embora haja personagens. É como o próprio Gotan Project, que, embora escale vários "personagens" principais em sua música (hip-hop, dub, blues, eletrônica), tem como assunto o velho universo arquetípico do tango, que se espalha organicamente pelos gêneros "emprestados", dando-lhes unidade e consistência.

Crítica: Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2010 | 00h00

Havia quatro holofotes à frente do palco do HSBC Brasil, na noite de anteontem, no show único que o Gotan fez de seu mais recente disco, Tango 3.0. Em cada holofote, uma letra, formada por corpos de bailarinos: T, A, N, G e O. "Nós somos o Gotan Project, e viemos de Paris e Buenos Aires", anunciou Phillipe Cohen-Solal, o francês que teve o insight de empreender essa viagem sacrílega pela tradição do Rio de La Plata. Ele e o suíço Christoph Mueller se postam à frente de sintetizadores e laptops, enquanto o argentino Eduardo Makaroff conduz uma orquestra de tango no centro do palco: violão, bandoneón, violino, piano e uma cantora.

A cantora atua na maioria dos temas, à exceção de Tu Misterio, no qual o bandoneonista assume o vocal. A batida eletrônica enxertada se torna um vigoroso veneno antimonotonia contra a vibração depressiva do tango, e logo as garotas mais soltas do recinto estão dançando, para satisfação de Cohen-Solal.

Então, Cohen-Solal principia a explicar que a próxima canção abordará "a história de vossos pais ou vossos avós, que vieram um dia da Europa para o Brasil ou a Argentina". O nome da balada: Erase Una Vez, a mais explícita e pop do lote, quase um Emílio Santiago na noite.

Uma mulher na plateia pede a canção mais conhecida, do primeiro disco, La Revancha del Tango, e Makaroff reage: "Você gosta do tango? Do tango sentido?". E lhe dá em seguida a versão transgênica, Tango Square.

Canções novas juntam-se às conhecidas com suave desinibição. Santa María (del Buen Ayre) aninha-se no colo da tribal e dançável Diferente; a nostalgia de Época se funde a pedais e bases industriais e à narração de um gol de Maradona. Os cavaleiros do após-calypso do Gotan empunham guitarras, maracas, Mueller toca um "tabuleiro eletrônico" durante Rayuela, e a noite fica elétrica, profética sob seus versos. "Tem que saber mexer os pés/ Na amarelinha, ou na vida/ Você pode escolher um dia/ Qual o lado? De que lado saltarás?"

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