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Esse obstinado Don Juan

Acreditava que podia empurrar a história rumo ao socialismo sem render-se ao stalinismo

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2017 | 02h00

Ocorreu em princípios dos anos 60, em Paris, quando Juan Goytisolo (1931-2017) e eu nos víamos de vez em quando. Não sei como chegou a minhas mãos aquela revista do regime, com um grande artigo em primeira página, Esse Obstinado Don Juan, acusando-o de incitar todas as conspirações que se tramavam na França contra a Espanha de Franco. Levei-a a ele e o lemos juntos em um bistrô de Saint-Germain. Poucas vezes tornei a vê-lo tão contente, ele que era geralmente esquivo e reservado. Aquela diatribe lhe confirmava que estava no caminho certo: a dissidência e a rebeldia já eram seu documento de identidade. 

Embora fosse cinco anos mais velho do que eu, tínhamos tido a mesma formação intelectual, marcada pelo existencialismo francês e as teses de Sartre sobre o compromisso; se, escrever era atuar, a literatura podia empurrar a história para o socialismo sem com isso render-se ao stalinismo, como (queríamos acreditar) estava fazendo a revolução cubana. Seus primeiros romances, os melhores que escreveu, Juegos de Manos, Duelo en el Paraíso, Fiestas, La Resaca, La Isla, mostravam um realismo voluntarioso, transparente, bem trabalhado, e uma intenção crítica que acertava o alvo. Depois, na segunda metade da década de 1960, contagiado pelas teorias de Roland Barthes e congêneres, que dissecariam a literatura francesa da época, decidiu mudar brutalmente de forma e conteúdo. Em Señas de Identidad, Reivindicação do Conde Julião, Juan Sin Tierra, Makbara e outros livros, tentou se reinventar literariamente, ensaiando uma prosa rebuscada e litúrgica, com frases longas e estruturas gasosas, nas quais histórias imprecisas pareciam pretextos para uma retórica sem vida. Creio que ele se equivocou e é provável que desses livros impossíveis só reste a recordação das imprecações contra a Espanha, recorrentes e coléricas.

O ódio que Juan tinha da Espanha se parecia muito com amor; apesar de suas vociferações contra o país onde nasceu e do qual se exilou durante boa parte de sua vida, ele acompanhava o dia a dia de suas circunstâncias, seu acontecer político, suas fofocas literárias, frequentava seus clássicos com amor de erudito, defendia Américo Castro ferrenhamente contra Claudio Sánchez-Albornoz e resgatava alguns de seus autores esquecidos, como Blanco White, em ensaios esplêndidos. Durante alguns anos, ele se negou a crer que a Transição tivesse mudado o país e instaurado uma verdadeira democracia; sustentava, com sua obstinação característica, que tudo aquilo era uma delgada aparência sob a qual continuavam mandando os mesmos de sempre.

Por sorte, continuou escrevendo aquelas reportagens e livros de viagens que havia começado com Campos de Níjar, La Chanca y Pueblo en Marcha. Seus informes e passagens por Sarajevo e os Bálcãs, Turquia, Egito, Palestina, Chechênia eram documentados e ágeis, originais, análises geralmente certeiras, mas sempre apaixonadas.

 

Os livros melhores que escreveu e que serão lidos no futuro como um testemunho excepcional sobre um período particularmente obscurantista da história da Espanha, são Coto Vedado (1985) e En los Reinos de Taifa (1986). Valentes e comovedores, ele revela neles sua vida secreta, suas pulsões mais íntimas, a difícil descoberta de sua identidade sexual. A homossexualidade é apenas um dos dados que comparecem nessa catarse controlada. Há vários outros, entre eles seu fascínio baudelairiano pela porcaria urbana, os bairros lúmpen e rufianescos, os personagens marginais, malditos, como seu admirado Jean Genet, o ladrão que saqueava alegremente as casas dos esnobes que o convidavam para jantar para ouvi-lo se jactar de suas façanhas. Quem diria que o destino ajeitaria as coisas para que fossem enterrados juntos, no cemitério espanhol de Larache, no Marrocos.

Juan Goytisolo, que morreu no dia 4 de junho, aos 86 anos, foi o primeiro escritor espanhol de sua época a se interessar pela literatura latino-americana, a ler e promover os novos romancistas, e, com a ajuda de sua mulher, Monique Lange, que trabalhava na editora Gallimard, fazê-los traduzir para o francês. Foi, também, um dos primeiros a compreender que a literatura em língua espanhola era uma só, e a se empenhar em reunir de novo essas duas comunidades de escritores das duas margens do oceano aos que a Guerra Civil espanhola havia separado e isolado. Uma das mentiras que circulavam sobre ele é a que, por preconceitos políticos, tinha sido uma muralha que freou as traduções de escritores espanhóis na França. Consta-me que não foi assim, e que, em muitos casos, como o de Camilo José Cela, por quem não podia sentir a menor simpatia, mexeu as influências que tinha para que fosse traduzido.

Em política, nós seguimos trajetórias bastante parecidas. Ao grande entusiasmo pela revolução cubana dos primeiros anos, seguiu-se a decepção e a ruptura quando do caso do poeta Herberto Padilla. Ambos havíamos escrito a seu respeito e conhecíamos sua profunda identificação com a revolução; as absurdas acusações de agente da CIA contra ele nos revoltaram e nos levaram a redigir (em meu apartamento de Barcelona, junto com Luis Goytisolo, José María Castellet e Hans Magnus Enzensberger) o manifesto que consumaria nossa ruptura com a Cuba castrista e a grande divisão do que parecia então a sólida fraternidade entre os romancistas latino-americanos. Recordo aquela época, que foi a da revista Libre (que ele animou e que era financiada por Albina du Boisrouvray), os incansáveis manifestos e as conspirações incessantes, como um jogo de meninos jogado por nós, os adultos, sem nos dar conta de que tudo que fazíamos não servia de grande coisa, pois as decisões deveras importantes eram tomadas muito longe de nós, nesse coração do poder político ao qual os verdadeiros escritores nunca chegam (nem deveriam se aproximar). 

Quando Monique morreu e Juan foi viver em Marrakesh, quase deixamos de nos ver. Tínhamos reuniões esporádicas, sempre cordiais, e eu continuava lendo suas obras, com interesse seus ensaios literários e bastante esforço seus textos criativos. Seus artigos para El País indicavam que, apesar dos anos transcorridos, ele continuava o mesmo: belicoso, dissonante e arbitrário. Em nossos raros encontros, ele me animava a ir visitá-lo e me oferecia um passeio inesquecível por sua amada praça de Yemaa el Fna, onde se alternavam os contadores de histórias e os encantadores de serpentes.

Só depois de sua morte me dei conta da agonia de seus últimos anos, desde que quebrou o fêmur ao cair na escada de um café, naquela famosa praça à qual costumava ir às tardes para ver o sol se fundir com as montanhas azuis; seus padecimentos físicos e seus apuros econômicos. E dos problemas que teve para encontrar um túmulo laico, como ele queria, num país onde os cemitérios são obrigatoriamente religiosos. Conhecendo-o, penso que esse final tumultuado, embaralhado e tragicômico não o teria desagradado: de alguma maneira, refletia sua maneira de ser contraditória e sua vida traumática e peripatética. Juan, amigo, descanse em paz./TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK 

* MARIO VARGAS LLOSA É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

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