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Essa musa prosaica

Para Drummond, a dentadura foi inspiração poética. Para outros, armadilha ao falar

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

25 de junho de 2019 | 02h00

Não é impossível que você se lembre da história, contada aqui faz tempo, do aperto pelo qual passou um repórter, quando, em meio à entrevista, a fala do entrevistado começou a engrolar, cada vez mais ininteligível, como se o falante tivesse agora a boca cheia de cascalho. À beira do pânico, o jornalista foi puxando a cadeira para junto dele, e só lhe faltava sentar-se no seu colo quando a mulher do camarada, passando pela sala, berrou, pois além do mais o marido era meio surdo: 

– A dentadura, benzinho, a dentadura!

Certamente habituado a tal tipo de intervenção, o benzinho, sem se alterar, bateu com os dedos na boca, de modo a devolver a dentadura ao seu hábitat, e, novamente inteligível, retomou a fala no ponto em que estava.

Aliviado, o repórter saiu dali a desfiar entre dentes o poema, Dentaduras Duplas, com que Drummond, condenado a uma radical banguelice, cantou a inesperada musa, tão prosaica quanto protética: “Inda não sou bem velho para merecer-vos…”, reclamou o poeta, que andava então pelos 35 anos, para achar consolo, nos versos finais do poema, numas “feéricas dentaduras, admiráveis presas” que lhe permitiriam mastigar, “lestas e indiferentes, a carne da vida!”. 

Ele mesmo naquela faixa etária, o jornalista pela primeira vez se deu conta de que no criado-mudo de seu poeta predileto, então ainda vivo, haveria de repousar, à noite, em vez de lira, um copo d’água onde dormissem também as decantadas dentaduras duplas. Ainda não sabia que Drummond, pela vida afora, tinha a manha de tirar a prótese para impressionar crianças, a começar pelos três netos. Um sucesso, sempre.

O repórter – este cronista, você adivinhou – lembrou-se de um querido senhor de sua infância, espichado na cama, atento ao rádio de válvulas que, em vacilantes ondas curtas, lhe trazia algum noticiário do Rio de Janeiro. Ao lado do aparelho, roubando a cena, jazia o copo com a dentadura, que a refração da luz distorcia e agigantava. 

Sem perder o decoro, o senhor, meu amado vovô Santos, contava casos com o sabor e a graça de sempre – mas o menino, para quem o espetáculo era inédito, só tinha olhos, arregaladíssimos, para aquele copo onde, aterrador, transparecia um sorriso avulso, e para o rosto provisoriamente afilado onde a boca emurchecida parecia mascar por dentro as bochechas.

Como na futura história da entrevista, em dado momento a esposa entrou no quarto – e aí o marido, interrompendo um relato, desfiou para ela, com elã nada senil, uma declaração de amor. A mulher, com quem já cumprira bodas de todos os metais, sorriu, encabulada, antes de deixar o quarto. Ele, então, conferiu a hora, voltou-se para o neto e piscou um olho, temperando a doçura com uma gota de ironia muito sua: 

– Este foi o madrigal do meio-dia...

*

Menos ternas, porém mais divertidas, são as historinhas, também odontológicas, que encontro num livro septuagenário, jamais reeditado, de Djalma Andrade, cronista belo-horizontino pré-(e anti)modernista, hoje infelizmente esquecido. 

Desenterrando assuntos da República Velha, o escritor dedica duas deliciosas páginas a um certo cônego João Pio, mais político do que religioso, integrante, nos começos do século 20, do Senado estadual, instituição a que a revolução de 1930 poria fim. 

Segundo Djalma Andrade, que o conheceu, o cônego João Pio, tendo perdido cedo todos os dentes, tornou-se autoridade, antes de mais nada, em dentaduras. Nesse particular, notabilizou-se como conselheiro. Se alguém, no Senado, o via a confabular pelos cantos com um colega, tinha direito de supor que o tema dos cochichos não era a política, e sim instruções para o bom uso de próteses dentárias.

João Pio achava que toda dentadura (naquele tempo se dizia “chapa”) era vulnerável a uma determinada palavra, a qual, quando pronunciada, a fazia saltar da boca. Ele próprio, em meio a um discurso, cometeu a imprudência, ao rebater um aparte, de dizer “maligno”, e por pouco não se deu mal. “A dentadura partiu como uma flecha”, contou ele. “Com agilidade pasmosa, alcancei-a no ar e coloquei-a novamente na boca.” E acrescentou: “Notei a admiração dos meus colegas. Ninguém sorriu, naturalmente, em consideração a mim e à majestade do recinto.”

Escaldado, o cônego tratou de encomendar nova prótese – para mais tarde descobrir seu ponto fraco: o substantivo “proteu”, designativo de pessoa que muda facilmente de opinião. Viu-se forçado a mudar, não de opinião, jamais, e sim de dentadura – e, para encurtar a história, chegou a ter uma porção delas, guardadas “num pequeno armário, cada uma com o registro da expressão que não devo usar”. Havia palavras, como “superstição”, que não chegavam a provocar a expulsão da chapa, mas tinham o condão de mergulhar o usuário “num estado deplorável de nervosismo”. 

Em compensação, contava o cônego, havia dentaduras, digamos, benignas. A de um amigo seu, por exemplo, morador em Mariana, que, com três dias de antecedência, informava sobre um resfriado a caminho. Outra, em Sabará, avisava sobre mau tempo por vir. 

Certa ocasião, aposentado, um de seus colegas, de nome João Ribeiro, mudou-se de Belo Horizonte, não sem antes providenciar dentadura nova, e de ir aconselhar-se com o cônego João Pio, que não lhe deixou ilusões: 

– Um dia – preveniu –, horrorizado, você descobrirá a palavra fatal, que não pode ser dita impunemente. Escreva-me, quando isso acontecer.

Meses depois, um telegrama de João Ribeiro. Na folha de papel azul, não mais que uma palavra: “Libélula”.

 

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