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Essa gente bronzeada

Prospera no Brasil a moda das estátuas pedestres, aquelas que dispensam pedestal

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2017 | 04h00

De Belo Horizonte vem a notícia de que Murilo Rubião está de volta, infelizmente não às mesas do Lua Nova, também ele finado, onde batia ponto. Por iniciativa da sobrinha Sílvia, o grande contista, nascido há 101 anos, pode ser visto, agora, numa versão em bronze, de pé no jardim da Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais, na Praça da Liberdade. 

Uma foto de jornal mostra Murilo a caminho de encontrar-se, como tantas vezes fez em vida, com os não menos brônzeos Cavaleiros de um Íntimo Apocalipse: Otto Lara Resende e Fernando Sabino, sentados num banco, e, de pé, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino. A poucos metros dali, o espetáculo confrangedor de andrajosos brasileiros em situação de rua, como agora é moda referir-se a quem não tem onde morar.

De certa forma também ele em situação de rua, só que em bronze, Murilo Rubião veio somar-se a um já nutrido grupo de escritores e artistas homenageados com estátuas pedestres, ou seja, aquelas que, dispensando pedestais, convivem ombro a ombro com os passantes. Sua multiplicação, Brasil afora, talvez já esteja a demandar um primeiro recenseamento de nossa população metalizada ao rés do chão. 

Só em Belo Horizonte, além dos cinco já citados, me lembro de topar com a poeta Henriqueta Lisboa e o romancista Roberto Drummond na região da Savassi, ela miudinha, grandeur nature, com um livro nas mãos, ele na postura do incansável flâneur que foi naquela região da capital mineira. No Centro da cidade, a dois passos da Rua da Bahia, que agitaram com seus modernismos na década de 20, Carlos Drummond de Andrade e Pedro Nava, já maduros, papeiam numa calçada. Fossem ainda vintanistas, como diria Mário de Andrade, e estariam, quem sabe, a ruminar a ideia de tocar fogo no porão de uma casa de família, o que na vida real não hesitaram em fazer, na esperança de verem as jovens moradoras, amigas deles, fugindo espavoridas só de camisola. As labaredas prosperaram, mas as camisolas não compareceram. 

No Rio de Janeiro, ao sabor de suas caminhadas, este cronista vem contabilizando fartura ainda maior de estátuas pedestres. No começo da avenida Atlântica, pode-se ver, empertigado, o marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, primeiro dos cinco ditadores do golpe de 64, de pé pela Pátria numa discreta elevação que tenta contrabalançar a baixa estatura do homenageado. Mas sucesso mesmo, ali na praia do Leme, quem faz é Clarice Lispector, ex-moradora do bairro, sentada num banco, com o cão Ulisses a seus pés. 

Na sequência: Ary Barroso na entrada de um botequim; o colunista social Ibrahim Sued na frente do Copacabana Palace; Carlos Drummond de Andrade, com seu enésimo par de óculos; Dorival Caymmi, meio tombado para a direita, braço esquerdo semierguido, como quem pede carona. No Arpoador, Tom Jobim com violão. No final do Leblon, o elegante colunista Zózimo Barrozo do Amaral. Não longe dele, na pracinha entre Dias Ferreira e Ataulfo de Paiva, o Cazuza. Chacrinha na Lineu de Paula Machado, no Jardim Botânico - bairro onde espetaram também o Otto Lara Resende.

Sentado a uma escrivaninha na esquina de Santa Luzia e Presidente Wilson, no Centro da cidade, Manuel Bandeira pensa talvez na vida que poderia ter sido e que, tudo somado, acabou por ser. Na Travessa do Ouvidor, Pixinguinha se exibe ao saxofone. Cartola na entrada da Mangueira. Acabou? Deve ter mais gente pegando um bronze no Rio. Mulher, porém, salvo engano meu, só a Clarice, na contramão de misoginia férrea e brônzea, mais clamorosa ainda numa cidade onde o que não falta é mulher escultural.

Em Maceió, Graciliano Ramos e Aurélio Buarque de Holanda são vizinhos. Na mineira Itabirito, o técnico Telê está com a bola toda, pousada na palma da mão. Em Curitiba, cravaram no centro de um canteiro de flores o cacique Tindiquera, que no século 17 enfiou no solo a sua lança para indicar aos brancos o lugar onde fundar a Vila Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, a futura capital paranaense. Em Itabira, berço de Carlos Drummond de Andrade, só o bom senso de cidadãos como Marcos Caldeira Mendonça, editor de O Trem Itabirano, pôde conter a proliferação de representações metálicas do poeta, cujo número já chegou a meia dúzia. 

No Centro de Porto Alegre, o mesmo Drummond, que nem gostava de viajar, faz companhia ao poeta Mário Quintana na Praça da Alfândega. Sentado, Quintana tem os olhos postos no amigo, que, de pé, parece um tanto jururu, talvez por lhe terem surrupiado o que estava a ler. No rosto de Drummond, o desaponto de quem, despojado de seu livro, viu ganhar sentido literal o verso famoso: “Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”. 

Sem-cerimônia maior da parte dos vivos, só a que presenciei no cemitério Père Lachaise, em Paris, no túmulo do jovem jornalista Victor Noir, baleado por um primo do imperador Napoleão III há quase 150 anos. Com o tempo, sua bela e trágica figura, caída sobre a lápide, esvaziou-se de toda conotação política, ao mesmo tempo que nela inflava um imprevisto apelo erótico, ditado pelo volume do sexo sob as calças. A protuberância converteu-se em talismã sob os dedos de jovens desejosas de engravidar. De tanto ser acariciado, aquele avantajado detalhe de sua anatomia acabou por conferir ao dono um brilho que, em vida, ele talvez não tenha tido.

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