'Essa elite do charuto me incomoda', diz Luciano Camargo

Luciano, irmão de Zezé, ganha independência e firma sua postura ao não apoiar movimentos sociais

Georgia Nicolau, do Jornal da Tarde,

30 de setembro de 2007 | 14h02

Ele é fã de Chico Buarque, Zé Ramalho, Legião Urbana. Em seu tempo livre, gosta de assistir à TV Senado. Se deixar, fica horas falando sobre política, governo Lula, Renan Calheiros. Em evidência desde que esnobou o movimento Cansei (ato cívico idealizado por Jesus Sangalo, irmão de Ivete Sangalo, e encabeçado por empresários como João Dória Jr), Welson David Camargo, nome de batismo de Luciano, segunda voz da dupla mais famosa do Brasil, foge do estereótipo que habita o imaginário dos detratores da música sertaneja. Por telefone, ele falou ao Jornal da Tarde: Você tem aparecido bastante ultimamente. Vai tomar as rédeas da dupla com Zezé Di Camargo? Não, nunca houve essa coisa de ‘tomar as rédeas’. Somos uma empresa, dividimos opiniões. Sentamos eu, o Zezé e o Franco (Scornavacca, empresário da dupla) para pensar no que vamos fazer. O Zezé me escuta, quando um não pode fazer uma coisa o outro vai lá cobrir. Na época do lançamento do nosso filme (Dois Filhos de Francisco), por exemplo, o Zezé me disse que não sabia falar sobre cinema. Então, fui a ponte entre a família e as pessoas. Engordei 15 quilos nessa época.  Você tem se exposto bastante ultimamente... O que aconteceu foi que me convidaram para participar de um movimento e eu disse não. Não tenho nada contra quem começou, mas até o nome é equivocado. Cansei? Qual é a ação de alguém cansado? Descansar. O que me deixou mais chateado é que eu estava em Goiânia e fiquei sabendo que, na passeata do movimento, tinha gente de tênis Nike, roupinha para fazer cooper, a maioria carregando seu cachorrinho. E as famílias das vítimas do avião (da TAM, cujo acidente matou 199 pessoas em São Paulo, em julho, motivou o início do ato) chorando, sofrendo. Essa elite do charuto me incomoda. Você gosta bastante de política. O que achou da absolvição de Renan Calheiros? Você é amigo dele? Por conhecer o Renan Calheiros, ter amizade com ele, torcia para que não fosse verdade. Mas aí teve um monte de provas. Não houve uma falta de decoro, mas várias. Poxa, mais um em quem acreditei... Acreditei no Lula, recebi na minha casa o plano de governo e só por isso fiz campanha para ele. Voltando à música: nos últimos tempos, temos visto várias separações de artistas irmãos: Sandy e Junior, Mutantes... Isso pode acontecer com Zezé e Luciano? Eu e o Zezé nunca vamos nos separar. No meu caso, não penso nunca em parar de cantar. E carreira solo, nunca. Já é um sacrifício para mim cantar sozinho no show. Eu e meu irmão temos vontade de fazer um quarteto: eu, ele e duas enfermeiras, quando estivermos bem velhinhos (risos). Eu brinco que curto muito mais o Zezé do que ele me curte. Porque ele é 24 horas alegria, está sempre antenado, conversando com todo mundo, contando piadas. Ele é, para mim, o maior profissional da música no Brasil, nunca vi ninguém que se dedica tanto, trabalha tanto como meu irmão. Não temos essa coisa de ego, de achar que um é melhor do que o outro. Quando um tem uma idéia, vibramos como se a idéia fosse nossa. O que você achou do programa ‘CountryStar’, da Band, primeiro voltado apenas a sertanejos? Não acompanho o CountryStar. Durante o pouco tempo que tenho, vejo programas alternativos na televisão, noticiosos. Ou vejo novela. Você já se declarou contra o ‘jabá’ (pagamento de gravadoras às rádios para tocarem determinadas músicas). Ele continua existindo? Jabá existe desde que eu me entendo por artista. Existem formas diferentes. Tem programa de TV aberta em que a pessoa vai lá e o apresentador está ganhando, o que eu não acho injusto, eu só não acho que seja transparente. Deveria ser. Mas vocês pagam jabá? Eu atendo todas às rádios possíveis e impossíveis. Tudo o que eu pensei em cantar eu gravei, eu sou suspeito para falar. Mas não dá para negar que existe. Eu só não posso falar se é justo ou injusto porque eu não sou dono de rádio. Mas não é só no Brasil, nos EUA tudo é na base do jabá. O que eu acho é que, se não houvesse, melhoraria a qualidade musical, porque há coisas que tocam na rádio que eu abomino. Por mais eclético que eu seja, meu ouvido não é pinico.

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