Essa é pra tocar no rádio?

Meu colega de Ouvido Absoluto, Gilberto Mendes, escreveu aqui nesse espaço sobre a saudade do rádio que ouvia nos anos 30. Fiquei emocionada e solidária com sua nostalgia e pensando sobre o que se ouve hoje. Eu fui uma ouvinte com esse espírito de que fala nosso maestro nos anos 70, época fundamental para minha formação. Gosto de brincar que nasci junto com a Jovem Guarda, em setembro de 65, o que é verdade. Apresento as provas nas fotos de vestidinho curtíssimo, sapatinho boneca e meias brancas até os joelhos que usava aos 4 anos de idade. Sou fã de Roberto e Erasmo até hoje, assistia suas aventuras na Sessão da Tarde, achava Jerry Adriani o homem mais lindo do mundo e tinha minha própria guitarrinha de plástico azul.

Patricia Palumbo, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2011 | 00h00

O rádio fazia parte de nossas fantasias lá em casa através das histórias que minha mãe contava. Ela fugia pra ouvir as novelas que minha vó proibia. E canta até hoje os sucessos de Noel Rosa e Custódio Mesquita que ouvia sem parar e que todos os seus filhos sabem de cor. Meu pai, carioca da Tijuca de Tim Maia, foi ator bissexto de radionovelas e é um obcecado pelo aparelhinho. Me apresentou à FM numa viagem de carro para o Rio de Janeiro, me ensinou a "zapear"estações e a ouvir ondas curtas.

Muitos anos mais tarde fiz pra BBC de Londres um programa chamado Don''t Touch That Dial mostrando música brasileira em transmissão mundial. Recebi de volta um envelope gigante recheado de mensagens dos remetentes mais improváveis, incluindo cartões postais de um convento em Singapura. Pelas ondas sonoras da BBC encontrei freiras apaixonadas pela canção do Brasil.

Essa é a magia do rádio. Eu falo aqui e alguém vai me escutar a milhas de distância. E quando eu digo alguém pode ser um milhão de alguéns, em horários diferentes, em lugares diferentes. Eu amo as ondas curtas que contrariando a sua própria definição são as que vão mais longe.

Pra quem faz música esse meu objeto de reflexão, quero crer, ainda é importante. Mesmo que já tenha sido mais poderoso e democrático nesse País. Foi-se o tempo em que cabeças como as de Caetano Veloso e Maria Bethânia eram "feitas" pelo rádio. Era daquela caixinha que saiam as vozes de João Gilberto, de Orlando Silva, de Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga. Foi ouvindo rádio que Luiz Melodia percebeu que sua música era pop e universal porque misturava a música negra norte americana com o samba do Estácio. Na época da Rádio Nacional, Dalva de Oliveira cantava no Rio ao vivo e era ouvida na Paraíba, no Recôncavo Baiano, nos pampas gaúchos.

Com 13 anos do programa Vozes do Brasil (na internet também, pelo endereço http://patriciapalumbo.com) consegui fazer uma redinha para o programa com a vontade de multiplicar a informação. Estou no ar em emissoras públicas e universitárias em Salvador, Brasília, Curitiba, Belo Horizonte e São Paulo. Toco artistas de Belém do Pará como o excelente Arthur Nogueira, que lançou o CD Mundano; Patricia Polayne, que usou as células rítmicas do coco de de Aracaju no seu Circo Singular; os poemas de Arruda na voz paulistana mato-grossense de Alzira E; músicas de todo canto desse País com a maior diversidade possível de gêneros, épocas e estilos. E todo mundo quer tocar no rádio, quanto a isso não há dúvida. A quantidade insana de discos que recebo não me deixa mentir. Mas diante da massificação do dial, fico imaginando a angústia do compositor. Que rádio vai tocar a minha música?

Quando Gilberto Gil - o autor da deliciosa canção que dá nome a esse artigo - assumiu o ministério da Cultura, tive esperança de que ele mexesse nesse vespeiro que é a concessão pública de rádio e a horrorosa e emburrecedora prática do jabá. Esboçou-se naquele momento uma tentativa de fazer virar crime a compra de horário comercial para tocar música. Não vingou. Continuamos ouvindo figurinhas repetidas, a mesma música, o mesmo artista, nos mesmos horários. Tudo igual. Como se esse País imenso só fizesse música sertaneja ou religiosa.

Eu sempre recomendo para o músico brasileiro as emissoras segmentadas. São muitas e, juntas, tem grande audiência. Ainda assim para alguns a internet é a saída, o meio, o fim. Estamos de fato todos conectados e para ouvir a diversidade da música popular brasileira de verdade, a sintonia também está na web. Eu descubro muita música boa navegando pela internet e já joguei meu programa na rede - o rádio de ondas curtas da nossa era. Livre, poderosa, democrática. E vai longe.M

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