Esquizofrenia sonora marca show de Ringo

O show de Ringo Starr pode ser definido mais ou menos assim: músico milionário ultrafamoso entediado do golfe (ou do gamão) resolveu fazer uma turnê, mas não queria dureza e encarregou vários amigos aposentados do golfe semanal de darem uma força. Imaginou que assim chegaria ao hole-in-one, mas o que aconteceu é que se afastou do seu objetivo irremediavelmente.

JOTABÊ MEDEIROS, CIDADE DO MÉXICO, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2011 | 03h06

Foi mais ou menos o que aconteceu na noite de anteontem, no Auditório Nacional, na Cidade do México, na estreia da novíssima turnê da All Starr Band de Ringo Starr, baterista dos Beatles que vem ao Brasil pela primeira vez na vida para 7 shows. Foram quase duas horas de concerto, com 22 canções no roteiro.

Ladeado por um grupo de músicos muito simpáticos, mas que curiosamente celebrizaram-se todos por um único hit em sua carreira musical - caso dos integrantes de bandas extintas como The McCoys, The Romantics, Mr. Mister -, Ringo transpira pouco e acaba virando um coadjuvante em seu próprio show. Não seria um problema, se o grupo que o acompanha fosse notável, mas não é. É um exército de soft rock perdido em algum limbo dos anos 1970 e 1980. E há um grande desequilíbrio entre eles.

A banda do tipo "one hit wonder" acaba empilhando um lote de canções que não têm a menor ligação entre si. Por exemplo: o tecladista Edgar Winter toca sua composição Frankenstein, quase um delírio progressivo no qual sintetizador, sax, percussão (e o que vier) viram objetos de improvisação na mão do músico, quebrando o ritmo do show. Um pouco mais adiante, vem Broken Wings, do grupo Mr. Mister, um dos maiores e mais entediantes hits radiofônicos da História.

Amizade é tudo para Ringo, então não importa o desnível. Foi assim que ele chamou o tecladista Gary Wight (que participou do disco All Things Must Pass, de George Harrison) para cantar a soporífera Dream Weaver. As músicas do disco mais recente de Ringo, Y Not?, são tremendamente fracas, como The Other Side of Liverpool, na qual ele canta sob o lado negro de sua cidade natal e ataca com "fúria" calculada um kit de percussão à frente da banda e de sua bateria.

O público no Auditório Nacional, mais de 10 mil pessoas, agitava balões brancos e acendia isqueiros e gritava alucinadamente "Ringo, Ringo, Ringo". Ainda assim, ele não teve dó. "Obrigado, México. Vocês foram a melhor plateia... da noite inteira", disse Ringo mais uma vez, brincando com as expectativas da sua audiência.

Os mexicanos sempre caíam nas várias piadinhas de Ringo. Como quando ele perguntou se alguém tinha algum pedido de canção para ele tocar e todo mundo começou a sugerir alucinadamente. Aí ele apontou para o meião e diz: "Ok, você pediu Photograph, vamos lá!" Claro, era a música que já estava prevista, ninguém pediria Photograph (nem a mulher dele, Barbara Bach, que assistia ao show no meio do público, na mesa de som, fotografando tudo com uma câmera digital). Ou então, quando ele disse que irá tocar uma canção de sua antiga banda. E completou: "Rory Storm and the Hurricanes. Não a que vocês estavam pensando (a banda que integrou antes dos Beatles)". E tocou Boys.

Antes de soar o primeiro acorde de Yellow Submarine, ele brincou de novo: "Se vocês não sabem qual canção é esta, então estão no concerto errado". Dos Beatles, foram só três canções (e teve o corinho de Give Peace a Chance, de John Lennon, cantado pela banda, nos agradecimentos finais): Yellow Submarine, I Wanna Be Your Man e With a Little Help from my Friends. A voz de Ringo nunca foi das melhores, mas é o testemunho real de uma lenda e é sempre emocionante ouvir With a Little Help from My Friends (que ele mesmo cantava em Sgt Pepper's). Ele bem que podia dar uma chance à sua porção Fab Four (Ringo nem sequer pronuncia o nome "Beatles" durante o show). Seria tosco, mas seria lindo.

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