Esquerda sem futuro

Historiador inglês discute manifestações de rua na Flip e diz que militantes devem pensar mais no presente

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2013 | 02h21

O historiador e crítico de arte britânico T. J. Clark, um dos convidados da 11.ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que começa na quarta-feira, não acreditou em seus olhos quando viu pela internet imagens das manifestações de protesto nas ruas do Brasil. Grande teórico de arte com vários livros publicados no País (entre eles A Pintura na Vida Moderna), o professor aposentado de Harvard e Berkeley, aos 70 anos, ainda conserva a fama de marxista polêmico. E é nessa condição que ele chega a Paraty para fazer, na quinta, às 19h30, uma palestra sobre o conteúdo político da Guernica de Picasso (ele é grande especialista na obra do pintor e autor de um livro fundamental sobre ele, Picasso and Truth, inédito aqui).

Aproveitando sua passagem por Paraty, os organizadores da Flip programaram para sábado um debate entre o politizado crítico inglês, o psicanalista Tales Ab'Saber e o filósofo Vladimir Safatle. O tema: as diferenças entre os manifestantes de rua brasileiros e a multidão que lota os estádios na Copa das Confederações. Para quem ainda não o conhece, a Editora 34 acaba de colocar no mercado um livro destinado a informar e provocar, principalmente seus companheiros de ideologia: Por Uma Esquerda Sem Futuro.

Dito assim, parece que Clark abjurou seu passado marxista, mas ele esclarece em entrevista ao Estado, por telefone, de Londres, que desconhece alternativa ideológica capaz de barrar o avanço da Europa rumo a um novo fascismo de direita, ainda mais terrível que o dos ditadores do passado, como previu Pasolini. Clark é pessimista, admite, mas não como Nietzsche, que cita em seu livro - o filósofo alemão diz que nós, modernos, "não somos material para uma sociedade".

Talvez não sejamos mesmo. No entanto, o que preocupa Clark é a marginalização e a imobilidade da esquerda na Europa. Não há fórmula pronta para que ela consiga maior representatividade, mas o historiador aconselha a seus companheiros que troquem os ideais utópicos por demandas presentes - daí seu interesse particular no recente fenômeno das manifestações no Brasil, que expulsaram os partidos da rua para afirmar sua independência ideológica. Seriam esses manifestantes representantes da "esquerda sem futuro" de Clark, uma esquerda não estabelecida?

Para Clark, a crise não é só da esquerda, mas da modernidade, que ingenuamente acreditou no "capitalismo de consumo", erro "infantil" que, segundo o historiador, tem levado os intelectuais de esquerda a perder o foco e mirar o futuro com esperança messiânica, acreditando ainda ter a história uma lógica ou direção. O "sem futuro" do título de seu livro é, assim, simultaneamente, uma crítica e uma convocação à esquerda para que repense o presente e se importe menos com a tomada do poder num futuro remoto. Mais foco nas injustiças sociais e menos messianismo.

Clark admite não estar "satisfeito" com o resultado do livro, ensaio publicado só agora, mas escrito no ano passado para a revista New Left Review. O historiador, que saiu dos EUA em 2010, onde se aposentou como professor de Berkeley, desembarcou na Inglaterra impressionado com o declínio da esquerda na Europa. Resolveu, então, estudar as razões desse fiasco ideológico, recorrendo ao passado inglês. Pergunto a ele se temos ainda algo a aprender com o livro de Christopher Hill (The Experience of Defeat), que ele tanto recomenda, já que Hill trata exclusivamente do fracasso dos movimentos radicais na Inglaterra do século 17.

Ele responde: "Quando escrevi o ensaio, estava com os ingleses na cabeça, pois o século 17 foi um momento de descontinuidade, de revolução social, e Hill conta como essa geração reagiu às mudanças". Mas, reconhece ele, nem sempre o fracasso histórico de uns pode servir de forma didática para explicar o dos outros, garantindo uma analogia certeira com o presente. Clark admite que viu superficialmente a questão de Grécia, não percebendo a implosão do Pasok. Para ele, o país da tragédia clássica caminha para uma outra tragédia, a da saída da modernidade. Não com um estrondo, mas com um suspiro, sem nada de espetacular, acrescenta. Clark diz que o futuro do país pertence aos inimigos da esquerda, citando os camisas negras da Aurora Dourada (partido de extrema direita grego) que atacam imigrantes albaneses nas favelas.

"Os intelectuais de esquerda, como a maioria dos intelectuais, não são bons políticos", diz Clark, confirmando o que escreveu. A esquerda, segundo ele, é "despreparada" e sua inabilidade está "expressa no silêncio dos intelectuais europeus." Isso não sugere um programa radical. Correndo o risco de ser interpretado como reformista, o historiador recomenda moderação, evocando o exemplo do desarmamento nuclear depois da Segunda Guerra. "Pedir a redução de mísseis a um país", argumenta, "pode não ser revolucionário, mas atrapalha um bocado os planos bélicos da indústria armamentista". Os neoliberais, conclui, estão tentando há 30 anos boicotar as organizações sociais e cabe à esquerda "resistir à colonização do cotidiano pelo mercado, pelo capital". E a arte, qual seria o seu papel hoje? "A arte é uma atividade humana indispensável, mas não acho que deva se dobrar a um projeto político", finaliza, lembrando o desastre estético do realismo socialista russo sob Stalin.

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