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Esquerda ou direita?

Não era intenção minha pôr mais lenha na fogueira da discussão em torno de um assunto já de si tão sapecado, esse do antagonismo esquerda/direita. Não há, porém, como não reincidir no tema, para desovar manifestações suscitadas por algo que escrevi na semana passada - a respeito não de comunismo versus capitalismo, devo logo esclarecer, mas de um camarada que ganhou fama de esquisitaço pelo hábito que tinha de acomodar o falo, sim, ele mesmo, no lado direito, ao contrário do que faz, sabe Deus por quê, praticamente toda a porção masculina da humanidade.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2015 | 02h06

A historinha rendeu papo. Em vez da chuva de que andamos tão necessitados, choveram comentários. O falo deu o que falar. Voltemos, pois, ao baixo-ventre.

Numa solitária intervenção feminina, a Rachel veio lembrar que antigamente (hoje não?), calça de homem tinha o "gancho" - aquela parte em que se junta o tecido das duas pernas - um tantinho maior no lado esquerdo, de modo a abrigar com conforto o supracitado balangandã e seus ainda mais melindrosos anexos.

Já o Sérgio começou chamando atenção para o fato de que a braguilha (veja aonde chegamos - e pensar que minha mãe se orgulhava de ter formado este filho bacharel em direito) tem abertura no sentido direita-esquerda, o que para o destro facilita o tantas vezes urgente entra e sai. Em seguida, ele deixou no ar a hipótese de que, exatamente por esta razão, o canhoto preferiria acondicionar sua prenda no flanco direito. Fá-lo-ia (e voltaria) de modo natural.

Uma enquete sumária, porém, não logrou somar um só canhoto ao esquisitaço da semana passada - o qual, aliás, cabe informar a você e ao Sérgio, era destro. Assim sendo, claro está que nesse particular todo varão, salvo aquele e quem sabe mais alguns, é inabalavelmente esquerdista.

Ia a conversa nesse pantanoso rumo quando o Cláudio, com acuidade e bom senso, observou que no meio costuma estar, além da virtude, o delicado objeto da controvérsia, quando seu portador esteja vestindo cueca samba-canção. Em outras palavras, o Cláudio quis dizer que, num sentido ao menos, já não é inescapável o maniqueísmo que pretende confinar pessoas (e mesmo partes delas) nos escaninhos da esquerda e da direita.

***

Dito isso, vamos a temas mais elevados, para falar de criaturas que, tementes a Deus, não hesitaram em pedir a Ele o que só ao Diabo se pediria.

1. Amélia, também ela mulher de verdade, casou-se com moço pobre, o que para sua mãe, dona Terezinha, já constituía infortúnio suficiente. Mas não ficou nisso a contrariedade materna, multiplicada quando a moça pôs no mundo um par de gêmeas. Consternada, dona Terezinha despencou do Norte de Minas rumo à Capital, para dar uma força à filha.

O espetáculo de pobreza que encontrou na casinhola de periferia deixou-a arrasada, sobretudo ao ver no varal a fartura de fraldas de pano (ainda não as havia descartáveis). Seu coração, que já não era essas coisas, apertou-se mais:

- Deus podia ter dó da Amélia, e levar pelo menos uma das meninas...

2. Toninho, com quem Eunice é casada há mais de meio século, ficou cego de um olho. Nem por isso a mulher o liberou da obrigação de levá-la ao médico, numa cidade menos acanhada, para consultas triviais, ao volante do Santana da família, o qual, também recentemente, numa coincidência de mau gosto, perdeu na estrada um dos faróis.

A viagem pode não ser longa - pouco mais de uma hora -, mas é complicada: para não enfrentar os pedágios da rodovia federal, Eunice manda Toninho pegar uma estradinha, tão bonita quanto perigosa, com muitas curvas, e lá vai ele, dirigindo quase em braile. As temerárias expedições comportam tantos riscos que Auxiliadora, irmã de Eunice, já não sopita o desagrado:

- É um absurdo - desabafa - ela obrigar Toninho a dirigir, ainda mais numa estrada que é uma serpentina!

Como as reclamações deram em nada, desandou a fazer novenas, e nem assim desceu dos Céus a ansiada luz. Já sem saber o que pedir à Santa, Auxiliadora, como a Terezinha da história anterior, saca a última carta:

- Vou pedir a Nossa Senhora pro Toninho ficar cego do outro olho.

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