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Esporte e civilidade

Do outro lado do mundo termina um festival de batalhas esportivas nas quais a civilidade e a paz, debaixo da aceitação do mérito como um valor, enquadram todas as disputas

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2021 | 03h00

Enquanto aqui no Brasil continuamos a debater (para não resolver) questões básicas relativas à democracia (como o processo eleitoral), do outro lado do mundo termina um festival de batalhas esportivas nas quais a civilidade e a paz, debaixo da aceitação do mérito como um valor, enquadram todas as disputas.

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“Olimpíadas são guerras esportivas”, diz meu amigo Temístocles Teixeira, um velho professor de História, apaixonado pela rivalidade entre Esparta e Atenas. “Trata-se de uma batalha mundial, na qual, em vez de tesouros, mulheres e escravos, ganham-se medalhas.” Entendo e faço um contraponto: nos Jogos Olímpicos, as identidades dos competidores são dadas pela nacionalidade, mas a identidade predominante é a de atleta. O esporte inibe filhotismo, heranças, raças, tamanho e poder. Ademais, todos os eventos têm regras fixas que não podem ser modificadas durante o torneio. Eis um caso claro de plena dominação burocrática: de um espaço no qual as normas valem para todos, inclusive para quem as controla. 

– Muito diferente do Brasil..., sussurrou Temístocles.

São essas condições que criam o que chamamos de “transparência”. Por isso, prossigo, as intensas disputas físicas jamais chegam ao nível do barbarismo jurídico-político nacional. No fundo, a Olimpíada pode ser vista como uma prova de que meritocracia depende de regras explícitas. Isso tornam as práticas impessoais. O vencedor foi o que tirou o melhor partido nas regras nas mesmas condições do derrotado. A conjuntura não muda a estrutura tal como o falar não muda uma língua.

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O isolamento relativo das atividades esportivas (praticadas com roupas, objetos e espaços especiais e submetidas a um tempo especial, que pode, inclusive, parar) reafirma um ideal que jamais atingimos no “mundo real”. 

– Como assim, perguntou Temístocles? 

– A vida é feita de ambiguidade, arrisquei. Um gesto simples – digamos o aperto de mão entre uma mulher e um amigo ciumento – pode ser interpretado como prova de adultério. As tais “objetividades” da vida são raras, porque estão sempre sujeitas a múltiplas interpretações. Por isso, recorre-se a uma “terceira opinião” – o plano legal. Uma dimensão que, em países elitistas, como o Brasil, permite tudo aos privilegiados. Ora, não há “foro privilegiado” numa corrida de 100 metros rasos ou num jogo de futebol porque, no esporte, tudo é absolutamente claro, medido e contado.

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O campo do esporte é denso. Está centrado no corpo (daí a proximidade com a guerra e com a brutalidade) e nos usos desse corpo de acordo com técnicas explícitas. 

Em 1934, o genial antropólogo francês Marcel Mauss escreveu um ensaio pioneiro sobre as “técnicas de corpo”, enfatizando como as sociedades nos obrigam a falar, comer, beber, dormir, morrer e amar. Todo mundo tem cabeça, tronco e membros, mas cada sistema cultural concebe e usa esses corpos de modo particular. 

Mauss apresenta como exemplo a técnica de nadar vertical de braçada, que aprendeu como “front crawl”. Nele, como sabemos, nada-se com o corpo estendido na água num estilo depois difundido pelas competições e pelo cinema. Mauss também fala do modo de andar requebrado das mulheres maoris e dos gestos que distinguem idosos de jovens e o masculino do feminino. Relendo esse trabalho, recordei dos meus tempos de atletismo quando, no salto em altura, eu pulava o sarrafo de frente e não de costas como fazem os atletas modernos. 

Neste grande ritual de técnicas de corpo que é uma olimpíada, o que mais chama a minha atenção é o controle das frustrações nas derrotas. Em todo ritual competitivo, o lado prazeroso se enlaça a uma angústia cujo centro é ganhar ou perder. Tal dualismo é saliente nas modalidades coletivas e surgem com força na Olimpíada que transforma times em representantes de suas terras natais.

Penso que só não sucumbimos totalmente porque tais angústias são programadas e têm início, meio e fim. Justo o que nos falta na ansiedade da vida real. No cotidiano, falamos em perdas irreparáveis; no esporte, falamos em um jogo cujo final nos remete de volta à luta com os nossos fantasmas. 

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Juntei num livrinho algumas de minhas reflexões sobre futebol e Olimpíada, tendo como base a experiência de observador nos jogos de 1984, realizados em Los Angeles e dos quais participei como um antropólogo interessado em rituais e como um intruso comentarista para a finada Rede Manchete de televisão. Levei pancada de muitos jornalistas esportivos porque, no meu olhar, a bola, a rede, o tempo e as técnicas de corpo eram mais importantes que o torcer. 

Por isso intitulei a obra de A Bola Corre mais que os Homens. Pois tal como os recordes encurtam o tempo, e as bolas – animadas pelo espírito da civilizada competição esportiva – ganham vontade e vida própria, nós – meros jogadores – passamos. 

É ANTROPÓLOGO SOCIAL E ESCRITOR, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’

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