Espólio de Burle Marx vai a leilão

Roberto Burle Marx (1909-1994) era, sem dúvida, um homem fascinante. Personagem central da cultura brasileira do século passado, foi o autor de alguns dos mais importantes projetos paisagísticos do País, introduzindo o pouco de natureza presente na obra um tanto sisuda e cinzenta dos nossos modernistas. São seus projetos paisagísticos antológicos como os do Parque Ibirapuera, em São Paulo, da Pampulha, em Belo Horizonte, o do calçadão da Praia de Copacabana e o do Aterro do Flamengo. Talvez por isso tenha ficado mais à sombra sua obra pictórica, que agora ganha destaque com a realização de um leilão com 42 trabalhos de sua autoria.Esse acervo, legado pelo próprio artista a seus assessores diretos, teve de aguardar nove anos para poder ser colocado à venda. A partir de hoje as obras que pertencem ao arquiteto e fotógrafo Haruoshi Ono, à secretária Maria Amália, ao cozinheiro Cleofas César e aos jardineiros Ataíde Alves Corrêa e Manuelino Nilton da Silva poderão ser vistas no Atlântica Business Center, no Rio, e serão vendidas no mesmo local, nos dias 15 e 16.Ao escolher como herdeiros desse conjunto de obras seus assessores diretos, Burle Marx procurou privilegiar aqueles que compartilharam de perto seu trabalho, partilharam com ele o interesse por diferentes aspectos da criação artística, sem privilegiar esta ou aquela linguagem. "Se faço jardins não quero fazer pintura, se faço pintura não quero fazer litografia; cada especialidade pede uma técnica e um meio de expressão. Por isso eu me bato muito: não quero fazer uma pintura que seja jardim. Que a pintura e os problemas artísticos tenham influenciado todo meu conceito de arte, não há dúvida. Tenho procurado na vida não me cingir a uma fórmula. Detesto fórmulas. Eu amo os princípios", afirmou ele certa vez.Talvez essa declaração explicite como Burle Marx conseguiu ser tantos e um só ao mesmo tempo, íntegro e com uma personalidade forte, reconhecível em todas as esferas de sua vida. É evidente que a importância concreta de sua produção como paisagista - que interfere e contribui para a melhoria da vida de milhares de cidadãos, tão sacrificados pela ausência de políticas públicas em nosso país, e além do mais deu pela primeira vez o status merecido à rica e desprezada flora brasileira - faz com que esses trabalhos brilhem mais forte. Mas é crescente o número de pessoas que julga sua produção artística de ateliê um tanto injustamente esquecida. "Não se pode dizer que ele é um ótimo paisagista e um mau pintor", afirma a marchande Soraia Cals, amiga do artista e organizadora do leilão, por causa exatamente de sua proximidade com o artista.Segundo ela, que chegou a ser sócia de Burle Marx em uma empresa, entre as obras ofertadas se destacam por exemplo a tela Composição I - Série Veneza, exibida na Bienal de Veneza (e que ilustra a capa do cuidadoso catálogo elaborado para o leilão) ou Interior, de 1940, na qual se vê uma clara influência do cubismo de Braque e Picasso. Esta última é a mais valiosa do lote de obras do artista, tendo seu preço mínimo estimado em R$ 100 mil.Mas nem só de Burle Marx é feito o leilão que ocorrerá nos dias 14 e 15. Também estarão à venda na mesma ocasião mais de uma centena de obras, de diferentes épocas e autores, entre as quais há pérolas como o belo Auto-Retrato com Adalgisa, de Ismael Nery. Essa obra, pintada em 1928, é a mais cara do leilão e segundo Soraia Cals vem despertando grande interesse do mercado, em especial entre os colecionadores paulistas. O preço mínimo, de R$ 850 mil, já está garantido.

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