Esplendor da Amazônia, por Arthur Omar

Depois do carnaval brasileiro e daguerra no Afeganistão, o artista brasileiro Arthur Omar voltasuas incansáveis lentes para a Amazônia. Mais uma vez, trata-sede um projeto nada modesto, a começar pelo título do livro,lançado pela Cosac & Naify: O Esplendor dos Contrários -Aventuras da Cor Caminhando sobre as Águas do Rio Amazonas(208 págs., bilíngüe, R$ 89). Segundo ele, o objetivo da obra éo mesmo que persegue há três décadas: renovar a iconografiabrasileira, desautomatizar os discursos viciados, as gradesretóricas e conceituais impostas pela mídia e que se interpõementre nosso olhar e a realidade. "Quero reinventar a percepçãosobre estes objetos, desmontar as poderosas figuras narrativasque embotam a visão", defende o artista. O novo livro é uma tentativa de descobrir novas maneirasde ´dizer a Amazônia com imagens´, para dar ao espectador achance de vivenciar uma experiência inédita de contato com afloresta, seus mitos e o poderoso imaginário que a envolve.Textos do próprio artista, oscilando entre o documental e opoético, vão ladeando um percurso de imagens insólitas, às vezesassustador e sinistro, construído de árvores, galhos, terra,rios, barcos, homens e animais. Contudo, as palavras aqui não vão a reboque, masfuncionam para ampliar o sentido das imagens. "Olho o RioAmazonas, através da câmera, e a primeira coisa que me vem àcabeça é Moby Dick. Preciso de um verde que equivalhacromaticamente a uma caça à baleia", escreve ele. "Um verdetrespassado por arpões, do qual escorre a sua cor complementar.Estranhos são os caminhos da cor, e mais estranho pensarcolorido." O artista empreendeu quatro grandes viagens à região,seguindo o curso do rio Amazonas desde Manaus até Terra Santa,já no Pará. Fantasioso, Omar compara seu périplo amazônico,realizado no ano passado, a uma grande aventura, incursão aoutra dimensão do real, façanha digna de um romance de JosephConrad (1857-1924), o escritor ucraniano autor do clássico OCoração das Trevas (1902). No texto de abertura, Dante nas Águas, ela relata,em cores fortes, o momento crítico da jornada, espécie de ritode passagem, quando a embarcação em que viajava naufragou, eleperdeu todo o equipamento fotográfico, incluindo boa parte dosfilmes que já havia batido, e quase morreu afogado. "Não sei seagarrei o barco, ou se foi ele que me agarrou. Descemos oAmazonas a toda velocidade. Meu corpo deixava na água um rastroinvisível de adrenalina que devia enlouquecer os pirarucus",escreve. "Eu sou mineiro, não sei nadar." Entretanto, se o leitor quiser prescindir da palavra, opercurso por O Esplendor dos Contrários pode ser feitoapenas através das fotografias, representações da paisagemselvagem que vão de encontro ao conceito estético do "sublime" por seu sentimento de profunda admiração e temor pelagrandiosidade e violência da natureza. Para fazer outro paralelo com a pintura, as imagens deO Esplendor dos Contrários são ricas em associações com astelas de Caspar David Friedrich (1774-1840, maior pintorromântico alemão e um dos gênios mais originais de toda ahistória da pintura de paisagens), principalmente pelo caminhopoético que ambos percorrem em busca da natureza espiritual dapaisagem, e na luta para trazer à tona seus aspectos ocultos. A seguinte definição de um método perceptivo para seaproximar da paisagem foi escrita por Friedrich no início doséculo 19, mas podia muito bem estar na boca de Arthur Omar maisde 200 anos depois, servindo de prelúdio para seu O Esplendordos Contrários: "Feche seu olho carnal para ver a imagemprimeiro com o olho do espírito; então traga à luz do dia aquiloque viu na escuridão, para que a imagem gerada possa agir sobreas demais de fora para dentro." Omar, contudo, tempera esta proposta romântica com certaveia mística, de par com seu estilo eloqüente e espirituoso defalar sobre o próprio trabalho: "Para fotografar, eu preciso metransformar. Só posso produzir estas imagens se estiver em umestado, ético e estético, de consciência alterada. Como naAntropologia da Face Gloriosa: eu só vejo o êxtase do outrose estiver em êxtase também. No instante em que a fotografia édisparada, eu não vejo nada. O meu invisível em conexão com oinvisível do outro. Choque de partícula contra partícula, que mefaz atingir um estado transcendente." Sobre a aplicação de sua cartilha particular no universoamazônico, ele conta que, na hora da foto, reagia "como seestivesse realmente trocando um olhar com o objeto", fosse eleuma pessoa, uma árvore ou um animal. "É uma interação, de talforma que o objeto da imagem me vê também. Não fiz a foto daárvore porque a achei bonita, mas porque entramos em algum tipode comunicação em que ela fez disparar em mim uma série deassociações, às quais remetem à memória, à infância, até chegarà origem da cor. Eu estou vendo o verde, mas estou reativandotambém o primeiro verde que vi na vida." Omar batizou suas fotos de "paisagens além do bem e domal", pois diz buscar, a um só tempo, um olhar que se afastatanto da impiedade do turismo ("Que é consumista e predador,que suga e devora os objetos, mesmo quando tenta apreciar."),quanto do discurso piedoso da ecologia, a idéia de proteger esalvar a floresta, "que também não é capaz de transmitir umaexperiência real, na verdade nos afastando dela". Neste sentido, sua grandiosa empreitada passa também porrenovar a maneira como recebemos toda a paisagem brasileira, aiconografia do futebol e as festas tradicionais como o carnavale o boi-bumbá de Parintins. Aliás, ele está à frente de umdocumentário sobre a célebre Festa do Boi que ocorre na cidadeamazonense, em fase de finalização e que será exibido pela "TVCultura" (sem data prevista). Repetição absurda - Segundo Omar, é preciso recuperar aexperiência energética que está impregnada nesses eventos."Fomos formatados pela repetição absurda, infinita derepresentações do carnaval, do Boi-bumbá e da Amazônia, sempreas mesmas. Então, não conseguimos convocar uma vivênciadiferente dessas imagens preconcebidas. Minha idéia é alcançaruma linguagem capaz de dar conta da energia pulsante desseslugares, alvo que a mídia não atinge." O lançamento deste livro é a parte final do amploprojeto do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) visando amapear os 30 anos da trajetória artística de Arthur Omar. No fimde 2001, a sede paulistana do CCBB promoveu a retrospectiva "OEsplendor dos Contrários", de onde saíram muitas imagens paraeste livro homônimo. Além da mostra de fotografias amazônicasrecentes, o evento incluiu toda a sua produção de filmes (doislongas, dez curtas e 28 vídeos, parte da mostra "A Lógica doÊxtase", com curadoria de Ivana Bentes) e uma grandevideoinstalação (Fluxus) que ocupou o hall central do edifício. A carreira internacional de Arthur Omar é respeitável:ele já expôs em duas edições da Bienal de São Paulo (1998 e2002), na Bienal do Mercosul (1999) e na Bienal de Havana(2000). Suas obras também foram vistas no MAM do Rio e São Paulo no Centro Georges Pompidou, em Paris, e no Museu de ArteModerna de Nova York (MoMA), onde, em 1990, foi consagrado comuma retrospectiva de sua produção. No fim de 2001 promoveu, emSão Paulo, sua primeira exposição em uma galeria comercial emmais de três décadas de carreira (Frações da Luz, na GaleriaNara Roesler). Entre 1971 e 2000, produziu dezenas de filmes, como olonga-metragem Triste Trópico (1974), selecionado paramostra retrospectiva histórica do cinema brasileiro no Festivaldos Três Continentes de Nantes, França, em 1982, e o vídeo ONervo de Prata (1987), sobre o artista plástico Tunga, filmedivulgado e premiado em festivais pelo mundo. Pela Cosac & Naify já publicou os livros de fotografias Antropologia da FaceGloriosa e O Zen e a Arte Gloriosa da Fotografia. O site oficial do artista (www.arthuromar.com) acaba deser reativado e traz sua biografia artística, imagens de seustrabalhos e textos críticos sobre sua produção.

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