Esplendor ao vivo, no palco e em CD

Zubin Mehta e Filarmônica de Israel lançam disco com concerto em parque na Tailândia e fazem turnê no Brasil

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2013 | 02h15

Desde os LPs até os CDs e mp3 de hoje em dia, os discos que vêm com a chancela "ao vivo" vendem a ilusão de que o ouvinte terá acesso imediato à performance rara, não importa onde nem quando ela aconteceu. O dogma, que sempre valeu para as músicas improvisadas, como o jazz principalmente, transformou-se em mantra no universo da música clássica, sobretudo a sinfônica. As orquestras mantêm selos próprios e colocam boa parte de seus concertos à venda em mp3 para download.

Mas o rótulo "ao vivo" quase nunca é verdadeiro. Em geral as gravações "ao vivo" compõem-se de uma série de picadinhos pinçados de inúmeras performances e passam por complexos processos de mixagem até o master, já bem distante do concerto real. Há ocasiões, porém, em que isso não é possível. Elas são únicas, irrepetíveis. Ainda bem. A orquestra é obrigada a se expor de fato. É o caso do ótimo álbum duplo registrado em concerto ao vivo da Filarmônica de Israel e Zubin Mehta em 2012, ao ar livre, em frente ao célebre Grande Palácio de Bangcoc, Tailândia, no 15.º Festival Internacional de Música e Dança.

Há coincidências de repertório entre o álbum e as apresentações que a orquestra e o maestro fazem esta semana em Campinas (hoje, no Parque Arautos Da Paz), Paulínia (amanhã, no Teatro Municipal), São Paulo (terça e quarta, na Sala São Paulo) e em Ribeirão Preto (quinta, no Teatro Pedro II), como a Abertura Leonora nº 3 de Beethoven e a Sinfonia nº1 de Brahms. Ótima oportunidade para checar as performances, primeiro na gravação (disponível para download no site classicsonline.com por US$ 19,99) e depois ao vivo, em concerto.

Beethoven domina o concerto, literalmente pela Leonora nº 2 , por tabela na Sinfonia nº 1 de Brahms. Como se sabe, ele fez um tributo explícito a Beethoven no movimento final, praticamente citando o tema da Ode à Alegria da Nona Sinfonia. Maestro e músicos pareciam em estado de graça. E é incrível como isso transparece na gravação, nos menores detalhes, como os pizzicati das cordas no "Un poco allegretto" ou em diversos outros trechos em pianíssimo. Igualmente no quase schubertiano Andante sostenuto, toda a magia das cordas de Israel foi captada pelo precioso trabalho dos técnicos, mesmo em condições adversas, na captação ao ar livre do concerto. Tecnicamente o resultado é excelente.

Artisticamente, outro triunfo aconteceu com o Capricho Espanhol, do russo Rimsky-Korsakov, um mago da orquestração. É uma de suas obras mais conhecidas e massacradas mundo afora. Mehta devolveu-lhe seu esplendor, desde a Alvorada até o Fandango final irresistível. O próprio compositor escreveu em suas memórias que no primeiro ensaio, em 1887, a orquestra inteira levantou-se e o aplaudiu logo após a primeira parte. "Emocionado, pedi aos professores que aceitassem que dedicasse a obra a eles." Emocionados ficamos nós até hoje, ao ouvi-la numa execução tão intensa. De novo, a qualidade técnica faz esquecer que o concerto aconteceu ao ar livre.

O toque final de excelência nesta estupenda gravação aparece na Sinfonia Concertante em Mi Bemol Maior, para Violino, Viola e Orquestra K. 364, de Mozart. Ele a compôs em 1779, logo depois de retornar a Salzburgo vindo de Paris, onde soube da morte de sua mãe. É obra emocionalmente intensa. Curiosidade: a tonalidade geral é mi bemol, mas Mozart escreveu a parte da viola solista em ré maior; por isso, é preciso afiná-la meio tom acima dos demais instrumentos. É por isso que a viola solista soa tão brilhante e consegue fazer frente ao já brilhante por natureza violino solista. Mehta parece não ter diminuído a quantidade de cordas para a execução, o que, no entanto, não tem a menor importância, porque o resultado é romanticamente espetacular.

A sinfonia concertante é um híbrido remanescente, nas décadas finais do século 18, do concerto grosso barroco, onde um pequeno grupo de instrumentos (o concertino) opunha-se e ao mesmo tempo integrava a orquestra (ripieno). É delicioso acompanhar a genialidade de Mozart, ora fazendo-os submergir, ora emergir da massa orquestral. O tom lírico impõe-se no Presto final, onde a viola de Roman Spitzer e o violino de Ylia Konovalov, ambos ótimos, agem como uma soprano e uma contralto duelando e/ou conversando.

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