"Espírito da Terra" traz Wedekind inédito

Estréia hoje no Sesc Anchieta Espírito da Terra, performance solo de Débora Duboc com direção de Marcio Aurélio. O espetáculo costura 14 composições inéditas do libertário dramaturgo alemão Frank Wedekind (1864-1918), dos anos em que, ao mesmo tempo, animava e assustava feiras e cabarés na Alemanha.Trata-se de uma montagem corajosa, desde o autor escolhido à interpretação de Débora, a premiada atriz de Senhorita Else, de 1997, também dirigida por Marcio Aurélio. Débora está grávida e, neste dia de estréia, ingressa também no oitavo mês de gravidez. Tranqüiliza lembrando tratar-se de um gestação sem complicações. E reconhece também esta transgressão como mais um elemento cênico. "Poderiam dizer que estou fragilizada, e que não é essa a hora de representar", considera. "Mas, ao contrário, eu quis justamente aproveitar este momento único do ponto de vista emocional e até hormonal", diverte-se.Este Wedekind é outra opção corajosa. Não se trata de uma simples reedição de seus clássicos, como o Despertar da Primavera, embora o título seja emprestado de uma das muitas versões de seu mais clássico personagem, Lulu, a fêmea fatal eternizada nas telas por Louise Brooks em A Caixa de Pandora (1929), de Georg Wilhelm Pabst. Aqui, optou-se por raras valsas, marchas e canções literárias legadas pelo autor, e o ineditismo de sua encenação concretiza um projeto de nove anos.Tudo começou quando o diretor Marcio Aurélio presenteou Débora, sua ex-aluna da Unicamp, com algumas canções de Wedekind. Ao longo dos anos, a complicada versão para o português e sua interpretação foram amadurecendo. A tradução contou com a participação de Christine Röhrig, que assina também a dramaturgia do espetáculo. "Tentei manter a linguagem acessível e direta que caracteriza o texto de Wedekind." A seu pai, Heinz Röhrig, deve-se parte da realização do projeto. Alemão e músico, seu encontro e sua afinidade com o pianista Lincoln Antonio, da Companhia do Latão, disparou a retomada do projeto, e é o próprio Lincoln quem faz a direção musical de Espírito da Terra, acompanhando Débora ao piano.No espetáculo, Débora canta alguns temas caros ao autor alemão, como a sexualidade, a hipocrisia e a opressão burguesa. Na definição do diretor Marcio Aurélio, são músicas "absolutatamente subversivas e politicamente incorretas". Como em Assassino de Tia, em que Débora canta "Fui eu quem trucidei minha tia/Minha tia, o bagaço do tempo/Arranjei de dormir lá um dia/E limpei todo apartamento". Ou em Declaração, em que se ouve "Que enterrem até o pescoço/Que não sobre carne e osso/ Mas não troco um jovem esguio/Por dama alguma no cio".Por essas e por outras, a obra do autor que inspirou Berthold Brecht e Friedrich Dürenmatt, tido como precursor do teatro moderno alemão, foi censurada em seu país no início do século e banida durante a 2ª Guerra Mundial. Recentemente, e aos poucos, vem recuperando seu prestígio em sua terra natal, chegando a inspirar instituições a organizarem e estudarem sua obra, como a Editions- und Forschungsstelle Frank Wedekind (EFW), fundada em 1989 em Darmstadt, nas proximidades de Frankfurt. À frente dela, Elinor Waldmann acredita que "a importância do autor ainda não foi reconhecida". E lamenta que, de toda a sua extensa obra, a dramaturgia moderna concentre-se quase unicamente em seus primeiros e mais batidos trabalhos. "Uma das poucas exceções é a encenação de Franziska em Hannover, prevista para setembro", ressalva. Atualmente, a EFW dedica-se a uma série de publicações organizando todo o material deixado pelo autor, que deve ser finalizado até 2004.Espírito da Terra - Sesc Anchieta - Rua Doutor Vila Nova, 245, Consolação, tel.: 256-2281. Todas as quartas, até 12 de julho. Ingressos a R$ 15,00.

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