Espiral de luz e sons de Carvalhosa

MoMA recebe A Soma dos Dias, primeira mostra individual do artista nos EUA

Tonica Chagas, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2011 | 00h00

A Soma dos Dias, intervenção escultórica feita de tecido, luz, composições do americano Philip Glass e outros milhares de sons, que Carlito Carvalhosa criou no ano passado para o espaço octogonal da Pinacoteca do Estado, em São Paulo, é a primeira individual deste artista brasileiro a ser exibida por um museu americano.

Ela abre hoje a temporada de exposições de outono-inverno no Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York, com o título vertido para o inglês (Sum of Days) e ocupando o átrio do edifício com seus 2.100 metros quadrados de leveza branca, percepções e memórias.

"É magnífico expor num museu desse porte", diz o artista, que se viu diante de um desafio ao transpor a instalação para um lugar que visita desde a década de 1970. Para ele, a complexidade da ampliação projetada por Yoshio Taniguchi, que duplicou o espaço de exposições do MoMA a partir de 2004, "faz parecer que o desejo da arquitetura é quase o de sumir". O vão livre do átrio, que vai do segundo ao sexto andar do prédio, é envolto por paredes de alturas diferentes, janelas que dão para a rua ou para o interior e pontes onde as pessoas são vistas indo de um lado para o outro entre as galerias. "A gente não sabe bem onde está", explica Carvalhosa, ecoando nessa observação o que o público também sente ao percorrer a gigantesca espiral que forma A Soma dos Dias e transforma o espaço que ocupa.

Esse trabalho, que fica em exibição no MoMA até 14 de novembro, vem na sequência de dois criados em 2008: Apagadores, para a capela do Solar do Unhão, o Museu de Arte Moderna da Bahia, e Estou Lá, visto no Paço Imperial, no Rio de Janeiro. "A origem deles está na ideia de que espaço é sempre igual e, de certa forma, não se consegue separar lugar de espaço", explica o escultor e pintor, formado em arquitetura. Em todos, ele provoca a separação levando o público a percorrer caminhos entre paredes de tecido não tecido (TNT).

Presa a uma estrutura de alumínio, a espiral branca que desce por 19 metros desde o teto do museu (três metros a mais do que na montagem feita para a Pinacoteca) pesa ao todo 40 quilos, é iluminada por 260 lâmpadas fluorescentes e incorpora 68 microfones e alto-falantes. Dispostos em alturas diferentes, estes gravam e reproduzem o som do ambiente durante todo o tempo. A Soma dos Dias tem músicas de Philip Glass, que Carvalhosa conheceu no Rio há cerca de 20 anos e, no ano passado, convidou para colaborar nesse trabalho. Como ocorreu em São Paulo, os concertos serão executados dentro da espiral pelo próprio compositor ou outros músicos. As apresentações de 60 a 90 minutos serão semanais, no período de visitação pública e com horário divulgado na conta do MoMA no Twitter (@MuseumModernArt) apenas no dia em que ocorrerão.

"Minha intenção era criar uma situação fugidia, de difícil descrição, de difícil compreensão, mas que movesse as pessoas, que me movesse", afirma Carvalhosa. A separação de espaço e lugar se dá durante o percurso pelo interior da tela branca, no sentido pleno da expressão, o que leva a projeções feitas por cada um. Entre as comparações mais frequentes vêm imagens de fundo do mar e de cachoeira; outras remetem a tradições religiosas como o branco do candomblé, os santos velados na Quaresma ou os espelhos cobertos na casa de judeus enlutados, conta o artista. "Este retorno é muito interessante porque não é o que eu fiz, está ligado à memória das pessoas."

Na parte sonora de A Soma dos Dias também ocorre uma separação. Tudo o que se passa no espaço branco é gravado e o que seria o ruído de fundo é retirado digitalmente. A cada dia, uma nova gravação se sobrepõe à anterior e a soma do som ambiente e dos concertos forma camadas imateriais, como se ele fosse absorvido pelo lugar e devolvido aos poucos. "Essa estrutura flutuante e ondulada é um volume invisível de dias", define poeticamente o venezuelano Luis Pérez-Oramas, curador de arte latino-americana do MoMA e organizador da exposição em parceria com Geaninne Gutiérrez-Guimarães, curadora-assistente no Departamento de Desenhos do museu.

Curador de artes da Fundação Cisneros, em Caracas, até assumir a chefia do setor que comanda no museu nova-iorquino, em 2006, Oramas conhece o trabalho de Carvalhosa há quase 30 anos. "Mas nunca tive a experiência física de uma obra dele até ir à Pinacoteca de São Paulo no ano passado", conta o organizador da exposição, que também será responsável pela curadoria da 30.ª Bienal de São Paulo, no ano que vem.

"A espiral é emblemática na construção ocidental", lembra Oramas, citando o fascínio do renascentista Leonardo da Vinci (1452-1519), do construtivista Lászlo Moholy-Nagy (1895-1946) e do contemporâneo Richard Serra por essa forma. A diferença, conforme aponta o curador, "é que na obra deles ela permanece visível e na de Carlito Carvalhosa tem-se a experiência dela sem vê-la".

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