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Espinhos do afeto

O medo das delicadezas de seu coração o levava a se fazer de cacto

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2018 | 02h00

Começou mal, pensei, ao entrar pela primeira vez na redação do Jornal da Tarde, ainda no prédio da Major Quedinho, 28. Foi no começo da tarde de 16 de maio de 1970, horas depois de apear na velha rodoviária e de deixar na casa de amigos minha bagagem de pré-imigrante. Ah, sim, e de almoçar no Ferro’s Bar, na Martinho Prado, no qual me meti sem saber que se tratava de um reduto de lésbicas, realidade da qual só me dei conta ao perceber que era ali um solitário comensal do sexo masculino. Voltaria muitas outras vezes, e se registro o fato é como ilustração do estado de ignorância paulistana com que desembarquei na minha cidade adotiva.

Mas eu falava, antes de ser por mim mesmo brutalmente interrompido, do mau presságio que me perpassou a alma quando, em busca de emprego, enfiei a cara pela porta do Jornal da Tarde, no 5.º andar do antigo prédio do Estadão. A razão do mal-estar foi a presença, bem à minha frente, de alguém que conhecia de Belo Horizonte, o poeta Ubirassu Carneiro da Cunha, com quem havia cruzado no mundinho da literatura, sem que trocássemos mais que esgares e balançadas de cabeça. Entre nós até então havia, não digo hostilidade, mas indigerível falta de simpatia.

E agora lá estava ele, econômico até em balançadas de cabeça, sentado a sua mesa. Era um sábado, dia de redação às moscas, pois o jornal não circulava aos domingos. Quem comandava o rarefeito plantão era o Moisés Rabinovici, belo-horizontino que eu conhecia de nome, e foi ele quem me aplicou o teste: reescrever uma reportagem, não publicada, sobre Pardinho, a única cidade paulista aonde não chegariam as imagens da Copa do Mundo, pela primeira vez transmitida ao vivo no Brasil.

Com a insegurança de quem teme ser desalojado a qualquer momento, ocupei uma das muitas mesas vazias, e em uma hora dei cabo da tarefa. Como o Rabinovici - que logo aprendi a chamar de Rabino - tinha saído para almoço, fiquei ali, baldio, por um bom tempo, exposto a olhares nem um pouco amistosos do Ubirassu.

De repente levantou-se, veio até mim e, sem qualquer cerimônia, catou meu escrito, que se pôs a ler, de pé, testa plissada, entre muxoxos. Ao terminar, me encarou por um momento, jogou a matéria sobre a mesa e proferiu o veredicto:

- Bela merda.

E, sem me dar tempo para arrebanhar minhas coisas e tocar para a rodoviária, de volta a Minas Gerais, de onde, achava, nunca devera ter saído:

- Mais bela do que merda. Melhor que a maioria do que sai neste jornal. Vamos tomar um café!

Ficamos amigos instantaneamente. Amizade à sua maneira, é claro. Ubirassu Carneiro da Cunha, o Sussu, era dotado de afetividade agreste, espinhenta, comparável, imaginava eu, à paisagem eriçada de cactos do mais árido rincão de Pernambuco, onde nasceu. Temeroso de que pudessem vazar delicadezas reprimidas, ele, poeta cabralino, rigoroso a mais não poder, tinha horror a hemorragias sentimentais. Homem bonito, fazia sucesso com as mulheres, para as quais certamente reservava doçuras, mas sua fama era de macho em estado puro. “Sussu nem é macho, é reprodutor”, brincava o Moacir Japiassu, que com ele rimava também por ser um cabra nordestino. 

Folclore ou não, mas verossímil, contava-se que o pernambucano certa vez entrava acompanhado no Copan, onde vivia, quando topou com um colega mais jovem, que também chegava. Era dessas noites festivas em que não estar com alguém confere espinhos de solidão ao que em outra circunstância seria apenas sozinhez. Ao ver que o moço não tinha um par, Sussu puxou-o de lado e, com modos de coronelão, determinou: “Fique com a moça!”. Entre divertido e horrorizado, o mineirinho recusou o oferecimento duplamente espantoso - já se viu tamanho macho abrir mão da fêmea? -, mas, conhecendo o amigo, sentiu que encastoado na barbárie havia um grão de canhestra afetividade.

No jornal, onde a história de Pardinho me valeu uma vaga de foca (condição em que fiz carreira, diria algum maledicente), logo efetivado, foi breve o meu dia a dia ao lado do Sussu, pouco tempo depois incumbido de editar o caderno agrícola do Estadão. Quando, num raro desabafo, me contou que enfrentava sozinho a trabalheira, me ofereci para dar um trato em pelo menos um texto por semana. Foi um custo convencê-lo de que não carecia gastar comigo 1 centavo de seu esquálido borderô.

Começou então a rotina semanal de encontrar sobre a mesa as matérias que Ubirassu se vexava de entregar de corpo presente, mortificado pela inamovível certeza de estar, ele, homem de esquerda, a explorar o semelhante. Sem palavras, impôs um tortuoso ritual em que também eu, para não vexá-lo ainda mais, cuidava de não devolver pessoalmente os textos, deixando-os sobre sua mesa quando ele lá não estivesse. No início, quis retribuir com livros, e, como eu recusasse a paga, ia entregá-los na minha ausência. Em mais de uma ocasião, estando eu debruçado sobre alguma papelada, de repente ouvia o estrondo de algo desabando na mesa, e, quando me virava, lá se ia o Sussu a passos rápidos, sem voltar o rosto.

Um dia fui viver na Europa e nos perdemos de vista. Na volta, anos mais tarde, ele tinha mudado de emprego, e, cada qual na sua peleja, raramente nos víamos. Certa manhã, a faxineira o encontrou no sofá, com expressão pacificada e o Jornal da Tarde aberto no colo. Era 7/7/77, e algo me diz que, se lhe tivesse cabido programar o infarto, Ubirassu Carneiro da Cunha, poeta parcimonioso que era, teria levado em conta a insistência num mesmo algarismo.

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