Espinha não é nada

Pedro & Bianca, série de ficção que estreia hoje na TV Cultura, aborda o inesgotável repertório de temas da adolescência, em 46 episódios

CRISTINA PADIGLIONE, O Estado de S.Paulo

11 Novembro 2012 | 02h10

Série de TV para adolescentes é produto que todo canal de TV cobiça, mais do que nunca, no mundo todo. Repertório não falta. O problema é que poucas intenções resultam em enredos capazes de seduzir esse público alvo, hoje com atenção fragmentada entre a tela do celular, a música que vem do fone de ouvido e o diálogo simultâneo via Facebook ou MSM. No caso de Pedro & Bianca, série que a TV Cultura põe no ar hoje, em 46 episódios, o horário de exibição é, à primeira vista, o maior inimigo do produto - bom produto, diga-se. A série irá ao ar aos domingos, 14h30, horário quase nulo para o hábito de ver TV.

Ali estão dois irmãos gêmeos, um branco e uma negra, moradores da periferia de São Paulo, estudantes de escola pública estadual, prontos para lidar com os questionamentos e os dramas da adolescência. Pedro (Giovanni Gallo) e Bianca (Heslaine Vieira) cursam o 1º ano do Ensino Médio e moram com o pai, Edison (Thogun Teixeira) e Zuzu (Gorete Milagres) - a simpática avó Arminda (Teca Pereira) morre no primeiro episódio.

Iniciativa do projeto Escola 2.0, em parceria entre TV Cultura e a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, Pedro & Bianca foi realizada pela produtora Coração da Selva, vencedora de uma licitação promovida pela Cultura e pela Secretaria de Educação. Dono de créditos de sucesso na emissora, como Castelo Rá-Tim-Bum, Cao Hamburger assina a concepção do programa, tendo colaborado com a escalação do elenco - Thogun, o pai, é uma revelação de Filhos do Carnaval, série dirigida por ele para a HBO, em nome da produtora O2 Filmes.

Para um programa que nasceu sob as asas da Secretaria de Educação do Estado e foi gravado em escola pública estadual (E.E. Alberto Torres, no Butantã), o maior desafio talvez fosse escapar da cilada de se tornar uma série "chapa branca", ou seja, de fazer a lição de casa de acordo com os interesses do ensino estadual.

"Eu também tinha essa preocupação", disse Cao ao Estado. "Mas o foco da série não é a escola, não estamos fazendo uma série sobre a escola nem sobre a escola pública, mas sim sobre adolescentes, essa idade tão rica, conturbada, tão intensa. Vamos tratar das questões de como é crescer", com uma gama inesgotável de assuntos. A escola, completa, "é a locação principal, é o ponto de encontro, não é só o local de aprendizado, mas também onde as pessoas se socializam".

Com recursos gráficos de pós-produção que tornam a série muito palatável e bem acabado, Pedro & Bianca não tem pretensões educacionais, e Cao confessadamente dispensa o termo. "Não gosto de falar em programa educativo, prefiro falar em programa de entretenimento com conteúdo", diz.

Auditório. Até para aprofundar alguns temas que o ritmo de ficção não aconselha estender em cena, Pedro & Bianca renderá cinco programas de auditório em horário à parte da série, onde serão discutidas questões abordadas no enredo. A ideia é promover uma edição de auditório a cada dez episódios da série, pela tela da mesma Cultura.

No primeiro episódio, Pedro e Bianca apresentam os pais, a avó e a nova escola. E lá vão os dois irmãos explicar como podem ser gêmeos, sendo um branco e outro negro. A estreia aborda o trote escolar e a necessidade de ser bem aceito socialmente por um novo grupo, o que passa até pelo penteado indesejado de Bianca, revoltada com seu "cabelo ruim".

Cao Hamburger se apresenta aqui como "coordenador" da série, não como diretor-geral. Conta que não participou muito da etapa da licitação que escolheu a produtora, mas fez "supervisão artística na implantação do programa, na escolha dos atores, na escrita dos roteiros e na escolha dos temas". "Os diretores gerais são dois caras de quem gosto muito, o Roberto Moreira, que fez Cidade dos Homens (série da O2 na Globo) e Fábio Mendonça, que dirigiu alguns episódios de Filhos do Carnaval.

Para quem já criou programa para criança e adultos, fazer TV para adolescente não é mais complicado. "Mas é uma idade que dá muito pano pra manga".

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