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Espetáculo ‘Nada’ bebe na obra de Manoel de Barros e relaciona seu universo com o de Beckett

Encontro aparentemente improvável acontece na peça e na instalação 'Rumor'

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

06 Setembro 2013 | 19h37

O que será que Manoel de Barros pode ter a ver com Samuel Beckett? Um é aclamado como poeta do Pantanal. O outro, irlandês, carrega o título de pai do teatro do absurdo. Pois é a partir desse encontro aparentemente improvável que surgiram o espetáculo Nada e a instalação Rumor, ambos em cartaz no Sesc Belenzinho.

Um caminho para entender essa “estranha” aproximação é deter-se sobre a devoção que os irmãos Adriano e Fernando Guimarães, de Brasília, dedicam ao autor de Esperando Godot. “Não sei se conseguiríamos não trazer o Beckett. Ele acaba aparecendo em tudo o que fazemos”, comenta Adriano.

Juntos, os dois diretores se dedicam há mais de 15 anos à obra do escritor. Tamanha familiaridade talvez seja o que torne possível encontrar pontos de contato que não soam assim tão evidentes. Ainda que Manoel de Barros seja lembrado sempre por sua ligação com a natureza, a grande marca da sua poesia – aquilo que o torna o maior poeta brasileiro vivo – é a maneira como maneja a linguagem. Sua capacidade de sorver as palavras, de transformá-las em silêncios e encantamentos. “São dois escritores que têm um olhar voltado para as insignificâncias, para a invisibilidade da ação, que estão a lidar com a distensão do tempo”, considera Fernando.

Com a parceria de Miwa Yanagizawa, os irmãos Guimarães conceberam uma peça que brinca com o universo forjado por Manoel de Barros. Mas que evita qualquer tipo de recriação de sua arte. Não faz menção aos seus versos. Também recusa as representações ou emblemas retirados de seus livros. “Se fosse para declamar a poesia dele seria melhor que cada um lesse sozinho”, acredita Miwa que responde pela codireção e também atua na montagem. “Além de suas obras, nos alimentamos muito das entrevistas que Manoel concedeu ao longo de sua carreira”, conta ainda Adriano.

Ainda que tenha nascido desse junção de referências literárias e filosóficas, o espetáculo conta a prosaica história de uma família – filhos, sobrinhos e netos – às voltas com os preparativos para a comemoração dos 80 anos do avô (Lafayette Galvão).

Para o público que chega, limitado a 40 espectadores, a aparência é a de uma festa de aniversário. Eles serão tratados como convidados: recebidos com conversa pelos anfitriões, e mimados com pães de queijo, bolo, sucos e café. “Aqui, não existe essa hierarquia entre palco e plateia. Queremos ter com o público uma relação horizontal”, diz Adriano. “Não se trata de uma improvisação. Existe um texto a ser seguido, mas isso não nos impede de criar um espaço para o diálogo. O mais importante no espetáculo é a experiência de compartilhar, e estamos abertos para isso.”

Existem elementos que entram nesse aniversário apenas para causar ruído e estranhamento. Será assim a entrada em cena de Ana (Lúcia Bronstein): filha que retorna à casa dos pais, após uma ausência de sete anos, vestida de noiva. O ambiente onde transcorrem as ações também foi concebido para provocar certo deslocamento. Mais uma lembrança do laço estreito que os encenadores mantêm com o pensamento beckettiano.

No lugar de um cenário, existe o ambiente da instalação Rumor, ocupado por milhares de peças de vidro que pouco se relacionam com o que está acontecer. “Não queríamos espetacularizar esses objetos. Eles não servem como cenografia. Apenas estão ali, como coisas inúteis”, ressalta também Fernando Guimarães.

NADA E RUMOR

Sesc Belenzinho. Rua Padre Adelino, 1.000, Belém, tel. 2076-9700. 5ª a sáb., 21h30; dom. e feriado, 18h30. Até 6/10.

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