Espetáculo do sofrimento

Eu gostaria que houvesse um dia sem imagens. Gostaria de passar um dia sem precisar abrir meu computador e ser inundado por imagens trágicas e banais. Gostaria de passar um dia sem ver a imagem de Kim Kardashian ao lado da imagem de uma pilha de cadáveres no Congo.

NOVA JERSEY, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2012 | 02h09

Mas mesmo que eu boicotasse a internet, mantivesse o televisor desligado e usasse meu celular só para e-mails e mensagens de texto, as hordas vitoriosas de imagens me envolveriam do vídeo no banco de trás do táxi, do vídeo em um banco ou supermercado, do televisor nas salas de estar de lares vizinhos. Quando nasceu meu segundo filho, uma enfermeira insistiu para eu lhe entregar o meu celular e depois ficou parada do outro lado da cortina tirando fotos enquanto minha filha era retirada de minha mulher numa cesariana. "Como está o bebê?", eu perguntei, esticando os braços para segurar minha nova filha. A enfermeira sorriu para mim e suavemente recolocou o celular em minha mão, dizendo: "Tirei algumas fotos maravilhosas".

Já se escreveu muita coisa sobre a ambiguidade moral da câmera, e o grande livro sobre o tema é Sobre a Fotografia, de Susan Sontag. No entanto, uma reflexão filosófica sobre a fotografia é, a esta altura, irrelevante. O que nos rodeia com a ubiquidade envolvente do oxigênio não é algo como "fotografia". A fotografia é um produto de propósito e vontade. Nosso cerco segundo a segundo por imagens é inteiramente aleatório. É um produto não de propósito e vontade, mas de distração, luxúria e o eterno impulso humano para envergonhar e humilhar.

Uma amiga minha me contou que estava andando por uma rua de Manhattan certo dia quando esbarrou numa pequena multidão de pessoas reunidas na calçada. Quando ela se aproximou, viu que elas estavam rodeando um pássaro com a asa quebrada que lutava pela vida na calçada. Todas brandiam seus aparelhos digitais tirando fotos da criaturinha moribunda.

Qual o significado disso tudo? Estariam simplesmente expressando a necessidade humana de registrar a vida que as cercava, como artistas fizeram desde o tempo das pinturas nas cavernas até os impressionistas, as fotos de Atget de Paris, as fotos de trabalhadores de Salgado, e outros? Ou teriam se tornado, como a decadente classe dirigente do Império Romano tardio, tão indiferentes ao sofrimento que o espetáculo do sofrimento havia se tornado mais um prazer sensual?

E por que alguém simplesmente não pegou a ave e tentou levá-la para um lugar onde ela pudesse ser salva? Antes que minha amiga pudesse fazê-lo, a ave morreu.

Ao que parece, a era digital nos levou a um "ponto de virada". A curiosidade que nos mantém engajados com o mundo e atentos à realidade se transformou num distanciamento obsceno que constata eventos tenebrosos numa fantasia de imunidade de tempo e circunstância. O fotógrafo, como observou Sontag, sempre teve de lidar com o fato de que "capturar" alguém numa película lhe confere um poder potencialmente abusivo. Agora, porém, ninguém lida com nada. As pessoas simplesmente fotografam a agonia de outras pessoas - ou de outras criaturas -, fazem o upload e acionam "enviar".

Na semana passada, o New York Post, tabloide dedicado a reportagens floreadas de acontecimentos revoltantes, se superou no quesito das imagens promíscuas. Ele publicou em primeira página, sob a manchete CONDENADO, e com a legenda EMPURRADO PARA O TRILHO DO METRÔ, ESTE HOMEM ESTÁ PRESTES A MORRER, a foto de um homem de pé sobre os trilhos agarrando-se em desamparo à borda da plataforma enquanto um trem se aproxima para atingi-lo. Segundos depois, ele morreu esmagado. Verificou-se depois que ele era um coreano que havia se envolvido numa briga com um sem-teto, o qual havia atirado o pobre infeliz para os trilhos.

O debate, hoje tão familiar nesta era de captura desregrada de fotos, recomeçou. Por que o fotógrafo não tentou salvar o homem em vez de fazer a sua foto? Como o New York Post foi capaz de publicar tal foto, que seguramente magoaria e indignaria a família da vítima?

Segundo o fotógrafo, que declarou trabalhar como free lance para o New York Post, ele só fez a foto na esperança de usar o flash para alertar e parar o trem. (Sim, e eu tenho um par de asas que uso para ir e voltar voando à Califórnia). Ele também alegou que as outras pessoas na plataforma estavam tirando fotos com suas engenhocas em vez de ajudar o coreano. Nisso eu acredito.

Mas o debate é irrelevante. Fotos como essa continuarão a surgir, e pessoas continuarão alçando o voyeurismo a um repugnante novo tipo de moralidade. A observação indiferente - a sociedade do espetáculo, como alguém um dia a chamou - é uma qualidade de decadência e os Estados Unidos estão, de certo modo, em seu estágio tardio, decadente. E em nossa era de ascendência tecnológica, nossos inúmeros aparelhos milagrosos servem, inevitavelmente, como ilusões de imortalidade.

A única resposta a isso é declarar guerra às imagens degradantes ou sem sentido. Talvez algum gênio, um Steve Jobs da oposição, invente um novo tipo de grafite digital. Até lá, neste país ao menos, precisamos proclamar um feriado nacional em que as pessoas terão de usar uma venda sobre os olhos por 24 horas. Elas acabarão vendo mais em um dia do que viram em anos.

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