Espetáculo discute os limites do amor

João Paulo Lorenzon e Arieta Corrêa interpretam casal atemporal na peça

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2013 | 02h19

Os limites da relação conjugal entram em debate em Holher Mumem. Protagonizado por João Paulo Lorenzon e Arieta Corrêa, o espetáculo, em cartaz no Sesc Consolação, encontra seu título na mistura dos vocábulos homem e mulher. Pretende questionar a possibilidade de os dois se fundirem em um só. Analisa a potência do desejo: que pode significar ruína ou redenção, bálsamo ou agonia, construção ou desconstrução.

"É uma tentativa de, a partir desse encontro com o outro, entender a própria existência", comenta Lorenzon, que além de atuar na peça, responde pela dramaturgia e direção. "Como se encontrar o outro desse um sentido para o que não tem sentido, para essa vida que começa e acaba sem explicação."

Amor e seus desdobramentos orientam o trabalho do ator há algum tempo. Apareceu nos títulos De Verdade, em que adaptou o romance homônimo de Sándor Márai. Voltou a guiá-lo em Água, no qual se entregou ao tema a partir de uma mescla de textos de escritores, como Federico García Lorca, William Blake e Vinicius de Moraes.

Agora, porém, ele acredita estar observando o sentimento amoroso por outro viés. "Aqui, o 'não' entra com mais força do que o 'sim'. O erotismo é o lugar onde as pulsões de vida e morte se encontram", diz ele, que foi indicado para o Prêmio Shell de melhor ator em 2012, por sua atuação em Eu Vi o Sol Brilhar em Toda a Sua Glória.

Influenciado pelo pensamento do filósofo francês Georges Bataille - talvez o maior teórico do erotismo - e pelo filme Império dos Sentidos (1976), o polêmico longa de Nagisa Oshima, o ator delineou uma trama regida pela ambivalência: ódio e amor, aquilo que pode atravessar o indivíduo, ainda que não mais esteja sob seu controle. "Quando me alimento do outro, alcanço lugares que a minha singularidade não me permitiria", analisa Lorenzon. "Mas essa fusão pode significar também uma doença, uma loucura."

Para dar corpo a esses questionamentos, a montagem elege os personagens Ele e Ela. Sem identidades definidas, esses seres aparecem descolados de um tempo e um espaço específicos. Podem viver em qualquer contexto porque não estão a representar um decalque da realidade. Têm a função de arquétipos e assim se colocam no palco.

Em um cenário que se resume a duas toneladas de terra, poderiam viver no princípio ou no fim dos tempos. "Propositalmente, nada sabemos sobre eles. O que vemos, poderia ser apenas o pedaço da vida de duas pessoas quaisquer", comenta Arieta - reconhecida por seu trabalho junto ao veterano diretor Antunes Filho, ela atualmente também está em cartaz no espetáculo Tribos, com Antônio Fagundes.

O descolamento do cotidiano não impede a criação de apreender fenômenos da contemporaneidade. "Existe hoje uma preferência pelo seguro, pelo adequado, pelo confortável. O risco não é bem-vindo, a aventura é vista com um traço infantil, o imprevisto é sempre algo pejorativo. Existe certo receio de experimentar os limites, o desconhecido dentro de si."

Ainda que esteja a tratar essencialmente das contradições que atravessam o encontro romântico, a peça permite expandir sua reflexão para outros campos. Como se esse estado de certa "anestesia" tivesse impregnado boa parte da vida. "Não é só nas relações, a gente não se ouve mais, não existe mais tempo para as pessoas se olharem", comenta a atriz. "A peça quer convidar as pessoas a vivenciarem um outro tempo. Um tempo em que as emoções são digeridas antes de serem expressadas."

A trilha sonora criada por Raul Teixeira e a iluminação de Lúcia Chedieck ajudam a montagem a atingir um lugar em que se pode prescindir dos habituais conflitos dramáticos: mais do que construir um enredo, a proposição é apresentar quadros que possam mobilizar a quem assiste, criar estados de suspensão e estranhamento.

Ao enveredar por esse caminho, o texto já não é mais suficiente. A dupla de intérpretes se vale de manifestações físicas: formas do corpo para dizer o que escapa ao discurso. "Foi precisamente isso que me interessou nessa proposta. O trabalho do Lorenzon nunca está focado apenas na palavra. Sempre engloba o corpo. Não é dança. Não é só teatro de texto. Mas uma dramaturgia do silêncio", observa Arieta.

A terra que cerca os atores tem uma função que excede a cenografia. Proporciona uma série de situações essenciais à obra. "Com essa terra um enterra o outro. E aí existe a óbvia vontade de destruir. Mas há também a contenção, o desejo de possuir, uma maneira de reter", aponta Lorenzon.

Mesmo que os extremos soem mais evidentes, eles não são os únicos desfechos sugeridos pela obra. Entre o êxtase absoluto e o tédio conjugal, coloca-se uma possibilidade. "Entre essas duas mortes, há uma vida. Algum caminho do meio", acredita o ator.

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