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Espetáculo da Cia Kiwi retoma questões não resolvidas da ditadura

'Morro Com um País' é um grito e uma cobrança de revisão da Lei de Anistia

Jefferson Del Rios, Especial para O Estado de S. Paulo

16 de abril de 2014 | 20h53

A ditadura instaurada em 1964 fez também do teatro uma de suas vítimas. Censurou, prendeu, torturou quando não assassinou artistas como a diretora teatral Heleny Guariba. Morro Com um País, de Fernando Kinas e Fernanda Azevedo, é um dos ecos destes fatos que voltam do palco 50 anos depois. Como todas as ditaduras são aparentadas, o texto incorpora as tiranias da antiguidade e as recentes da América Latina e Europa.

O texto base da representação é do grego Dimitris Dimitriadis sobre o regime militar (1967- 1977) na terra que é o berço do teatro ocidental. Os gregos resistiram como seus heróis míticos. Em uma manifestação em Paris, em 1973, Mikis Theodorakis, compositor conhecido pela trilha de Zorba, de Michael Cacoyannis, explicou em francês à multidão presente ao Palácio dos Esportes o significado da sua música. À medida que cantava em seu idioma, foi adquirindo uma eloquência sofrida para terminar como em um verdadeiro discurso. Todos entenderam tamanha indignação.

A encenação paulista alterna a narrativa explicativa do teatro político (Brecht) com o impacto silencioso de Fernanda Azevedo despir-se de camisetas superpostas, cada uma com a foto de uma vítima da repressão. Esta atriz de luminosos olhos azuis domina as nuances da denúncia, dor, ódio e ironia. Como efeito de distanciamento didático, coloca-se ora como personagem ora como ela própria, ao dizer o ano em que nasceu (o exilado Theodorakis cantava na França) e assim estabelecer paralelos entre si e as veias abertas do Cone Sul onde a cumplicidade de ditaduras (Brasil, Uruguai, Argentina, Chile) produziu, entre outras coisas, sequestros para a troca clandestina de oposicionistas e a prisão e desaparecimento no centro de Buenos Aires do pianista brasileiro Tenório Jr. lá estava em shows com Vinicius de Morais e Toquinho.

O espetáculo escapa ao panfleto direto embora esteja implícita a adesão aos que se insurgiram pela força contra os que desmandaram no país entre 1964 e 1985. Não há a dialética brechtiana de se discutir se a luta armada foi um equívoco a partir da brutalidade do regime e a inércia do Partido Comunista de onde saiu parte dos quadros da futura guerrilha urbana e rural.

Morro Com um País é um grito e uma cobrança de revisão da Lei de Anistia. Atitude firme e artisticamente bem feita. Obra ideológica reiterando que, enfim, as cartas começam a ser postas na mesa. Um ex-militante da esquerda, o hoje parlamentar Alfredo Sirkis, admitiu em artigo recente na imprensa que, no combate que ele e companheiros empreenderam, "alguns limites foram ultrapassados". Limites de sangue.

Ao mesmo tempo, a impassibilidade de um ex-comandante do DOI-CODI isentando-se de qualquer culpa nessa máquina de horror faz pensar na Argentina que reviu a Anistia e colocou generais ditadores em prisão.

Morro Com um País e o que mais que se promover no meio cultural neste cinquentenário penoso é – para se usar uma expressão corrente nos quarteis – colocar na Ordem do Dia o que se pode acertar na Anistia nas circunstâncias de 1979 e o que não ficou resolvido. Em todos lugares, há sempre algo sinistro que reaparece. Um exemplo próximo: a Diretoria Nacional de Direitos Humanos do Ministério da Defesa da Argentina (atenção: Ministério da Defesa) descobriu e não escondeu um documento que detalha os "voos da morte" quando as vítimas recebiam a injeção anestésica, eram envolvidas em nylon e atiradas de avião no Rio da Prata.

Um teatro com esta preocupação, leva sua avaliação para além do campo estético. A Kiwi Companhia de Teatro se anuncia como um grupo empenhado na construção de pensamento crítico a respeito da sociedade. A inventividade e conhecimento amadurecido do oficio do diretor Fernando Kinas encontra em Fernanda Azevedo sua interprete perfeita (talento dramático e domínio técnico de voz\respiração e corpo) juntamente com uma equipe criativa e em sintonia (mesmo com precariedade nas imagens e um boneco pouco expressivo no contexto) Não há lamentos discursivos e nem se trabalha na linha depressiva. É algo épico e a mensagem, clara: o passado abandonado jamais se torna passado.

MORRO COMO UM PAÍS

CIT-Ecum. Rua da Consolação, 1.623, Consolação, 3255-5922. 5ª, às 21 h. R$ 40. Até 17/4.

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