João Caldas Filho/Divulgação
João Caldas Filho/Divulgação

Espetáculo com Jandira Martini questiona sistema de ensino

Atriz vive professora que, descontente com alunos, comete crime

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

29 de agosto de 2013 | 19h16

Os adolescentes estão entediados. No novo filme de Sofia Coppola, The Bling Ring, são meninas enfadadas que assaltam as casas das celebridades de Hollywood. Mas o tédio não é privilégio dos jovens. Em Prof! Profa!, espetáculo que estreia amanhã no Sesc Ipiranga, Jandira Martini interpreta uma professora que, desiludida com o que presencia nas salas de aula, decide romper com a mesmice e tomar uma atitude radical.

Escrita pelo belga Jean Pierre Dopagne, a peça conta a história dessa mulher – que não sabemos ao certo quem é nem o que fez – que foi condenada pela justiça. Além da prisão, contudo, ela foi submetida a mais uma penalidade: subir todas as noites ao palco de um teatro e, diante da plateia, relatar o seu crime.

Dedicada ao ensino da literatura, a ex-professora se deparava com alunos desinteressados. Em seu anos de carreira, ela observa que eles se tornaram mais agressivos e sabem cada vez menos. Só que não soube se adaptar aos novos tempos: época de comunicação mediada por ferramentas tecnológicas, de embrutecimento, dissolução de antigos valores e quebra de hierarquias. “Ela é uma idealista. Queria ser uma professora como uma das que teve quando era criança e queria que os alunos se comportassem como ela se comportava naquela época”, acredita Jandira.

Existe um nítido descompasso entre o sistema educacional e o mundo contemporâneo. Mas, diante das mudanças com as quais não pactua, essa educadora não consente em resignar-se. Resiste àquilo que o presente lhe impõe como verdade inescapável. Abre mão do lugar de vítima para tornar-se uma agente da tragédia.

Jandira é reconhecida por sua desenvoltura em papéis cômicos. Mas, nessa criação, vê-se diante de um humor de outra natureza. Muito diferente inclusive, das suas criações como dramaturga. “Não tem estrutura de texto cômico, mas momentos de graça, esse riso que é provoacado por algo cruel. É um tipo de humor raro no Brasil, o texto é muito ferino”, comenta a intérprete.

Esse é o primeiro monólogo da carreira da atriz. “Era o texto perfeito para isso. Por que o discurso dela não é um solilóquio. O tempo inteiro está falando com a plateia, jogando com quem a assiste.”

Na montagem, ela também não dá voz apenas à professora. Assume vários personagens que a rodearam ao longo da vida: uma série de alunos, as mestras que a ensinaram no colégio, o próprio pai.

Ao eleger tal punição para o crime da protagonista o dramaturgo não cria só um mote dramático, mas uma oportunidade de tecer uma infinidade de comparações entre o teatro e o ensino. Dopagne traz um lastro de realidade à sua ficção. Valeu-se de sua experiência como professor na Universidade de Bruxelas. “É interessante porque ele mostra o teatro como uma certa forma de purificação. Mostra ainda que o professor tem que ser um bom ator se quiser conquistar os alunos”, crê Jandira.

Quem conduz a encenação é Celso Nunes, diretor com o qual a atriz mantém uma longeva parceria. O primeiro trabalho juntos data de 1966, uma montagem de A Falecida, de Nelson Rodrigues. O último encontro havia acontecido em 1992, quando fizeram A Vida É Uma Ópera.

Bastante simples – apenas um tablado negro, com mesa e cadeira –, a cenografia reforça a aparência de depoimento sugerida pelo texto. Constantemente, o público é confrontado com suas opiniões controversas, com sua ética particular.

As atenções devem voltar-se principalmente para o discurso encampado pela atriz. Mesmo que as palavras sejam o foco da montagem, ela também oferece à atriz a oportunidade de explorar a movimentação, os gestos, aquilo que escapa do que está sendo dito e, ainda assim, está evidente.

 

PROF! PROFA!

Teatro do Sesc Ipiranga. Rua Bom Pastor, 822, 3340-2000. Sáb., às 21 h; dom., às 18 h. R$ 15/R$ 30. Até 29/9.

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