Ronaldo Gutierrez/Divulgação
Ronaldo Gutierrez/Divulgação

Espetáculo 'Bichado' fala de um mundo entre o caos mundial e o rock

Dirigida por Zé Henrique de Paula, peça está em cartaz no Teatro do Núcleo Experimental

Jefferson Del Rios, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2012 | 21h30

Numa época da loucura das guerras e das guerras dos loucos, Bichado, de Tracy Letts, tenta juntar as duas coisas no quarto de um hotel barato do meio Oeste Americano. Um grupo de desajustados reproduz ali, em clima caricato de jogo eletrônico, o que acontece agora mesmo na Síria e no Sudão (ontem foi no Iraque, Libéria, Serra Leoa) como está ocorrendo na Guatemala, embora nenhum Tracy Letts saiba da América Latina.

O dramaturgo chega carregado de prêmios e o programa do espetáculo informa que sua obra retrata “conflito entre valores morais e espirituais”. Letts tem uma escrita agressiva com imagens que juntam a contundência de Jim Thompson (roteirista do filme Os Imorais) ao fraseado de rappers ou figuras de histórias em quadrinhos. Resulta em algo de impacto e também confuso, o que pode ser consequência de perda na tradução dos arranjos verbais do escritor, as insinuações nas entrelinhas, interjeições de duplo sentido.

No começo temos duas amigas, uma foi casada com um delinquente preso e que vai aparecer de repente, uma lésbica sem muito sentido no contexto e um rapaz estranho, surgido do nada, neurótico de determinada guerra real ou um paranoico em estado grave.

Há mais gente no enredo, mas o essencial é que Letts quer mostrar o que está acontecendo lá fora, seja em Bagdá ou no fundo dos olhos azuis de Anders Breivik, o norueguês que matou 77 pessoas alegando defender a Europa do “multiculturalismo, sobretudo da presença muçulmana”. As moças rodam pela vida ao sabor do acaso, cocaína, sexo ocasional e pequenos favores. Um dos homens é o marginal metido a caubói que bate em mulher; o outro - eis a questão - vítima de experimentos para guerras químicas ou doenças fabricadas (ressurge a tese da criação da aids em laboratórios). É sinistro, é quase inacreditável, mas, sim, o mundo lá fora, vale repetir, estoca gás mostarda, vírus letais e minas antipessoas e outros meios atrozes de dizimar o ser humano apesar dos tratados que os proíbem.

O espetáculo de Zé Henrique de Paula, que já abordou guerras em encenações anteriores, prende a atenção pela energia sustentada no ritmo nervoso do humor negro e absurdo, o gosto pelo desequilíbrio, elementos que o bom elenco do Núcleo Experimental encarna com insolência e verdade (Einat Falbel, Paulo Cruz, Alexandre Freitas, Adriana Alencar e Rodrigo Caetano).

Se há um objetivo político universal mais profundo em Letts, desta vez ele ficou em segundo plano. Há um incontornável tom americano nas referências ao provincianismo de Oklahoma, no contraste entre a nostalgia rural e o meio alternativo urbano (rock, punk, grafite, tatuagem, gangues) e na tensão de um jovem acabar convocado para guerras em lugares que ele nem sabe onde fica.

Em dado momento, porém, a obra e sua representação enveredam pela possibilidade de tudo ser a ilustração de uma mente perturbada. O realismo inicial explode em delírio futurista blade runner (há um terceiro homem que pode ser uma máquina. Há uma criança que talvez não exista). Entra-se subitamente no embalo do rock horror show ideológico. Poderia soar gratuito, caótico e pouco inovador nesse alarme amalucado contra os males da vida, do mundo, do capitalismo, etc. Mas não é a impressão que fica.

Zé Henrique consegue habilmente montar um discurso dramático anarquista, digamos. Apesar do título nada convidativo em português, Bichado tem sua lógica. Se tudo vai mal, se o Tribunal de Haia para crimes contra a humanidade é lento, se o genocida africano Charles Taylor e o matador da Noruega podem se proclamar inocentes, o Núcleo Experimental não desanima. Ao contrário. Abriu seu próprio espaço cênico (e café-bar), um ponto acolhedor perto do histórico Teatro São Pedro, no coração da velha Barra Funda de Mário de Andrade e Alcântara Machado. O apocalipse fica para outro dia.

BICHADO

Teatro do Núcleo Experimental. R. Barra Funda, 637, 3259-0898. 6ª, sáb. e 2ª, 21 h; dom., 19 h.

R$ 30 (6ª grátis). Até 21/5. 

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