JF Diorio/Estadão
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Espetáculo 'A Toca do Coelho' discute as angustiantes faces do luto

Em ‘A Toca do Coelho’, Maria Fernanda Cândido e Reynaldo Gianecchini vivem casal que tenta superar perda do filho

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

20 Setembro 2013 | 23h11

O luto tem medidas e tempos inexatos. Não respeita a lógica dos calendários e costuma despertar nas pessoas reações distintas: constrição, raiva ou culpa.

A Toca do Coelho, espetáculo que abre temporada no sábado, 21, no Teatro Faap, traz Maria Fernanda Cândido e Reynaldo Gianecchini como um casal que tenta superar a morte do filho de 4 anos. Cada um deles lida com a perda como pode e a dor, que poderia uni-los, só serve para apartá-los mais e mais. “Tem muito a ver com o perfil de cada um, como eles atravessam um maremoto desses. Cada um está se segurando do jeito que dá”, comenta Maria Fernanda.

Trata-se da primeira versão brasileira para o texto de David Lindsay-Abaire. A montagem norte-americana, que estreou na Broadway em 2006, arrebatou uma série de prêmios, entre eles o Pulitzer de dramaturgia e o Tony de melhor atriz para Cynthia Nixon (conhecida por seu papel na série Sex and the City).

Como seria de se esperar, a obra tem o poder de suscitar, onde quer que seja encenada, emocionadas reações do público. Nada, afinal, pode soar mais trágico do que a perda de uma criança.

O maior mérito dessa ficção, porém, talvez venha menos da catarse que ela pode provocar do que da sagacidade de observação do autor ao mirar as angústias desses seres. “É uma dramaturgia limpa. Os personagens não ficam dizendo o que estão sentindo. O que realmente importa não está sendo dito. Tudo fica no subtexto”, diz Dan Stulbach, que responde pela direção. “Era justamente isso o que eu queria trabalhar com os atores, buscar algo mais seco, mais interiorizado. E escapar do que poderia ser um melodrama.” O projeto, que Stulbach chegou a cogitar fazer como intérprete, marca a sua estreia como encenador.

Além de mirar a rotina do casal de protagonistas – Beca e Paulo – outros personagens engrossam a trama: Isa (Simone Zucatto) é a irmã inconsequente que aparece grávida e Nat (Selma Egrei) é a avó do menino morto, que também já enfrentou a perda de um filho. “Todos estão sofrendo, mas é difícil que eles consigam se entender nesse momento”, acredita Maria Fernanda.

Para a atriz, outro aspecto que fica evidente são os estereótipos que existem dentro das famílias. “Há sempre aquele que é o certinho, o outro que é irresponsável. São imagens que criamos – ou nas quais nos colocaram – e é difícil escapar isso.”

A perda não é apenas o momento da angústia. No contexto desse drama, também foi capaz de catalisar uma série de transformações. A plateia acompanha a mudança na relação entre as duas irmãs. Vê como, sutilmente, reorganiza-se o jogo entre marido e mulher.

Em suas particularidades, o personagem vivido por Gianecchini talvez ocupe o lugar mais delicado da trama. “Parece que ele já superou, mas não é bem isso. Em vez de entregar-se completamente ao sofrimento, tenta resgatar alguma coisa do que sobrou”, observa ainda Gianecchini. “Eles só conseguem seguir adiante porque existe ali um enorme amor.”

A participação de um personagem de fora do círculo familiar também é essencial para que as mudanças comecem a se dar.

Jason (Felipe Hintze) é um adolescente de 17 anos. Ele atropelou a criança, que havia escapado de casa e atravessava a rua correndo atrás de seu cachorro. Ainda que tudo tenha sido um infeliz acidente, sua presença é incômoda. Mas, estranhamente, surge como o único a conseguir romper o isolamento de Beca. É somente diante dele que ela será capaz de realmente chorar. Será ao seu lado que a veremos esboçar seu primeiro sorriso.

A TOCA DO COELHO

Teatro Faap.Rua Alagoas, 903, Higienópolis, 3662-7233. 6ª, 21h30; sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 80/R$ 100. Até 15/12.

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