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Esperanza e a descoberta do Brasil

Milton Nascimento conversa com a artista norte-americana, que se apresenta amanhã em festival em São Paulo

O Estado de S.Paulo

06 Junho 2013 | 02h13

A admiração mútua virou amizade e se transformou em relação musical - e o brasileiro Milton Nascimento e a americana Esperanza Spalding já gravaram e se apresentaram juntos em diversas ocasiões. Apaixonada pelo Brasil, a contrabaixista volta a fazer show no País amanhã, no primeiro dia de programação do BMW Jazz Festival. E, para marcar a ocasião, o Estado convidou Milton para entrevistá-la sobre sua carreira e a relação com o Brasil.

Milton Nascimento: Como foi seu primeiro contato com a música brasileira?

Esperanza Spalding: Quando estava morando em Boston, uma amiga minha, uma contrabaixista de São Paulo chamada Amanda Ruzza, trouxe um CD chamado Native Dancer (disco gravado por Wayne Shorter com Milton e outros músicos brasileiros). Nós tocamos a primeira faixa 10 vezes seguidas! Depois, a segunda várias vezes, a terceira, e assim por diante. Por meio dela, conheci vários músicos brasileiros que estavam vivendo em Boston. Comecei a participar de apresentações e a aprender as músicas que eles tocavam, e a aprender cada vez mais sobre gêneros e músicos do Brasil. E esse foi o começo de uma odisseia que me ensinou que havia muitos mundos de música dentro do Brasil. Antes de me mudar para Boston, só tinha ouvido Corcovado e Garota de Ipanema e me diziam: "Esta é a música brasileira". Você pode ver como minha mente explodiu quando tive pela primeira vez o gostinho de outras coisas!

Milton: Qual cidade brasileira mais te encanta? Por quê?

Esperanza: Infelizmente, só conheci algumas. E a minha favorita é Búzios, e isso porque você e sua família estavam lá!

Milton: Qual a sua principal lembrança daquele concerto que fizemos no Rock in Rio, em 2011?

Esperanza: Amei a sua introdução no acordeão para Ponta de Areia. E aprendi muito com você naquele dia só observando sua maneira de ser antes de nos apresentarmos. Quando me apresento, sempre sinto que enviei a música ao coração das pessoas, como se fosse uma espécie de energia extra que posso pôr na música para garantir que ela alcance as pessoas. Naquela noite, observei você sentado em sua cadeira fora do palco esperando pelo começo do concerto e vi que sabia 100% que a magia, a luz e a arte iam ser canalizadas por meio de você. Eu mesma observei acontecer, mas você estava sendo você mesmo, ali parado tocando e cantando suas canções, cada canção era tão poderosa e você não fazia acontecer, você permitia que acontecesse. E isso foi uma lição muito poderosa.

Milton: Em abril, estivemos juntos em Istambul para participar do International Jazz Day em um evento promovido pela Unesco. Quais foram suas impressões sobre esse evento? E o que você acha dos rumores de que o próximo encontro pode ser realizado no Brasil?

Esperanza: Ver você ao lado de Wayne Shorter e Herbie Hancock vale uma viagem a qualquer canto do mundo! É como se todos os planetas se alinhassem! Senti como se toda a cidade e o país estivessem sobrecarregados com a energia combinada de seus três seres. Foi histórico, um momento monumental da música com vocês três juntos no palco. Ainda estou curiosa de ver como a filosofia do International Jazz Day pode ser aplicada para servir à maioria necessitada. Como a Unesco aprendeu com a experiência, declarar um objeto um Patrimônio Mundial não serve imediatamente à comunidade ao redor dele até que sejam implementados especificamente programas para enriquecer os meios de vida da população local. Por isso, depois que parti de Istambul, pensei: "Uau! Isso foi maravilhoso, tudo que todo o mundo disse e tocou foi tão lindo! Mas, o que demos às pessoas mais necessitadas de Istambul? Como cultivar aquele Patrimônio Mundial Intangível (isto é, o jazz) realmente enriquece as vidas das pessoas que vivem ali? Tanto dinheiro foi posto nesse evento, tantas pessoas adoráveis, poderosas, criativas estavam ali juntas, mas com o que nós realmente contribuímos?" Onde quer que se realize o próximo International Jazz Day, espero que saiamos com respostas melhores para essas perguntas.

Milton: Já pensou em gravar um disco com os compositores brasileiros que você mais gosta? O que acha dessa ideia?

Esperanza: Sim, sim, sim! Há um compositor chamado Milton Nascimento. Ele é o meu compositor brasileiro favorito, e em minha mente senta num trono à direita de meus compositores favoritos de todos os tempos. Isto é, a questão não é ser um "compositor brasileiro", é ser "um compositor brilhante". Por isso fico grata em informar que pretendemos fazer um álbum juntos. Além disso, há um pianista/compositor que está vivendo em Nova York chamado Samuel Kardos. Ele escreveu um fabuloso concerto para contrabaixo para mim, mas vou precisar de mais quatro anos para prepará-lo! Tive a alegria de tocar um pouco com Guinga e gostaria de trabalhar mais com ele. É outro de meus compositores favoritos. Trabalhei um pouco com Ana Carolina também e ela é fantástica. Além disso, aprendi na vida que apesar de termos "uma lista de desejos" de pessoas com as quais gostaríamos de trabalhar, a vida com frequência nos surpreende com colaborações inesperadas que acabam sendo mais mágicas do que qualquer coisa que poderíamos ter sonhado!

Milton: Você é uma pessoa muito admirada pelos músicos brasileiros, o que é muito natural, pela sua simpatia e sua beleza. Já sabe quando vai voltar ao Brasil para tocar em outras cidades além de São Paulo e Rio de Janeiro? Tenho muitas saudades de você!

Esperanza: Bem, espero ser convidada a tocar no Brasil mesmo quando for chata e feia! Mas, falando sério, minha banda e eu sempre nos sentimos tão bem recebidos no Brasil e cada vez que vamos sinto que ficamos muito pouco tempo. Por isso, pretendo ir ao Brasil sempre que puder, e realmente gostaria de visitar mais cidades do país. Todo o mundo vem e toca para plateias do Rio e de São Paulo, mas eu adoraria trazer minha música para mais lugares, e ouvir música em todos os lugares! E além disso, tenho de voltar porque também sinto muito a sua falta, Milton!

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