Esperando pelo pior

RIO - É raro, mas acontece. Vez por outra, sou acusada numa carta ou num botequim digital de ser tendenciosa e pró-Obama. Vivemos num tempo em que, se você não for atacado, é porque está em repouso no São João Batista, em Botafogo, onde já descansam meus pais e dois irmãos. Além da explicação óbvia de que uma coluna é, por natureza, opinativa, não posso deixar de lembrar que importamos dos Estados Unidos a noção de que há uma realidade de direita e outra de esquerda. Se um democrata disser na CNN que o sol nasceu às 5h30, é possível que um republicano seja convidado a discordar. A falsa equivalência ideológica que infantilizou o debate da vida pública americana produz momentos surrealistas num ano eleitoral.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2012 | 09h52

O cenário foi exacerbado, mas não pode ser atribuído apenas ao conglomerado de mídia News Corp. de Rupert Murdoch, o magnata australiano que mais dá emprego a extremistas de direita e fez de sua rede Fox uma lucrativa usina partidária. Por partidária não quero dizer apenas antidemocrata. Tony Blair, o ex-primeiro-ministro trabalhista britânico, é padrinho de uma filha de Murdoch e nunca teria sido eleito se não tivesse ido beijar a mão do hoje compadre.

É irônico notar que, quando se fala tanto no declínio econômico americano, nosso consumo de cultura e informação nunca foi tão influenciado pelos Estados Unidos. A autoestrada digital é controlada por corporações americanas como o Google, Facebook, Twitter, Amazon e Apple e não conseguimos funcionar sem atravessar seus territórios cada vez mais privatizados. Por isso, a temporada que começa esta semana não vai plantar ninguém no Planalto, mas infiltra a nossa cultura em vários aspectos.

Serão 60 dias de espetáculo da eleição presidencial como esporte sangrento. Perto da conclusão da temporada das convenções, Bill Clinton tocou nesse ponto ao denunciar a direita americana por ter deslocado o debate nacional para um antigo coliseu romano. Aproveito, aqui, para pedir desculpas pelo erro da semana passada: previ que a convenção democrata seria melancólica. Não foi. De Michelle Obama à asiática americana que perdeu as duas pernas na Guerra do Iraque, do habitualmente boquirroto vice-presidente Joe Biden ao professoral Bill Clinton, os democratas deram um show de civismo, compaixão e diversidade. Sim, já poupo os missivistas, minha preferência é clara, mas não tenho muita esperança de ver o presidente reeleito.

No melhor discurso político desde que Barack Obama se pronunciou com eloquência incomparável sobre o racismo nos Estados Unidos, em 2008, Bill Clinton, que desfruta o carinho de dois terços dos americanos, de acordo com pesquisa recente, foi muito, mas muito além das expectativas dos comentaristas mais blasés.

Quando recebeu um telefonema de Obama, há poucas semanas, pedindo socorro eleitoral, Clinton sabia que sua incumbência seria em parte racial. Romney andava pelos comícios dizendo a eleitores independentes predominantemente brancos que Obama era o anti-Clinton. Ele gostaria de dizer anti-Cristo, mas Romney prefere dispensar seu racismo em código, como quando declarou no discurso da convenção em Tampa: “Quando nós precisamos de alguém para tratar das coisas realmente importantes, é necessário um americano real”.

Ao que Barack Obama retrucou, com sutileza que infelizmente deve ter escapado à maioria, mencionando exportações, sob seu governo, de produtos carimbados com “três palavras orgulhosas: Made in America”.

Que a pecha de ilegitimidade continue, a esta altura, a ser aplicada a Barack Obama por homens que se dizem honrados é uma desgraça da vida pública americana e um espetáculo lamentável para o restante do mundo.

Bill Clinton foi o melhor mensageiro, não só da legitimidade do presidente, como da superioridade moral, política e econômica da campanha democrata nesta eleição. Logo Clinton, que fez um dos discursos de posse mais chatos das últimas décadas, em 1997, e era temido por perder o fio da meada com detalhes. Quem sabe se a dieta vegetariana tem ajudado, mas um Bill Clinton jovial, contundente e engraçado, completamente à vontade com seu papel, um papel que preferíamos não ser necessário, nos deu o melhor momento do ano eleitoral.

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