"Esperando Godot" ganha as ruas de SP

Os moradores de rua são os principais convidados da encenação do diretor alemão Wolfgang Pannek para a peça Esperando Godot, do irlandês Samuel Beckett (1906-1989). O hábitat dos sem-teto, a rua, foi o cenário escolhido pelo diretor para a montagem que estréia nesta sexta-feira, ao meio-dia, na Galeria da Consolação, integrando o projeto da Secretaria Municipal de Cultura Arte na Rua. Sábado, no mesmo horário, a peça será apresentada no Parque da Aclimação e domingo, às 13 horas, na Praça Nossa Senhora Aparecida, em Moema.Esperando Godot fez sua estréia mundial em Paris em 1953, sob direção de Roger Blin, com rápida repercussão internacional e imediato sucesso de público e crítica. Dois anos depois, era encenada na Inglaterra e em vários outros países, até no Brasil, numa montagem da Escola de Arte Dramática (EAD), dirigida por Alfredo Mesquita e elogiada por Décio de Almeida Prado. Quase meio século depois da estréia mundial, o texto já foi dissecado por centenas de montagens, diferentes leituras e análises críticas. Muitos diretores, atores e ensaístas contribuíram para tornar conhecidas as imagens dos dois andarilhos, Vladimir e Estragon, que tentam distrair-se com atos cotidianos - como tirar botas, comer cenoura e relembrar o passado - para passar o tempo, enquanto esperam Godot. Quem é Godot? Nem eles sabem ao certo quem é, quando vem e se vem realmente. No entanto, somente essa tênue esperança pode dar algum sentido a suas vidas."Essa é uma fábula que se adapta muito bem ao Brasil", diz Pannek. "Há muitos personagens nas ruas brasileiras que lembram a figura desses dois andarilhos, gente que nunca sai do lugar, está sempre debaixo da ponte, mas espera por algum tipo de salvação". O diretor lembra ainda a proliferação das igrejas evangélicas como ponto de contato entre a esperança de Vladimir e Estragon e dos sem-perspectiva em nosso País.Por isso mesmo, em sua concepção, Pannek não pretende fazer nenhuma outra interferência na peça, a não ser levá-la para as ruas. "São muitas as qualidades intrínsecas desse texto e não precisam ser realçadas pela encenação", acredita. "Não é preciso ter lido Hegel para compreender e emocionar-se com essa fábula sutil, inteligente e divertida". Pelo contrário. Segundo o diretor, levar Godot para o público das ruas pode ser uma forma de resgatar o seu frescor original. "Só a platéia parisiense da estréia pôde usufruir a peça como Beckett queria, isto é, sem saber se Godot chega ou não, sofrendo o impacto de uma linguagem nova para a época".Antes da estréia de amanhã, os atores Antônio Veloso (Vladimir), Valter Felipe (Estagon), Domingos Nunez (Posso), Rodrigo Garcia (Lucky) e Danilo Veloso (menino) fizeram apresentações nas ruas de alguns bairros. "Quando Posso e Lucky entraram em cena, parte do público achou que finalmente Godot chegava". A solidão marca a vida dos personagens de Godot. Não só dos dois andarilhos, mas também de Posso e Lucky, o primeiro um patrão violento que traz o criado atado por uma corda. Como observa o crítico Décio de Almeida Prado, os personagens estão ligados pelo vínculo mais poderoso que se possa imaginar: o medo da solidão. Até o aparentemente seguro de si Posso diz: "Pois é isso, não posso dispensar por muito tempo a companhia de meus semelhantes".Pannek não teme a natural dispersão das ruas, agravada pelo fato de os atores contracenarem no mesmo nível do público, sem a utilização de um tablado, o que certamente limita o número de espectadores com boa visão do espetáculo. "Nosso objetivo é realizar uma experiência artística e não comercial, por isso não estamos preocupados com o número de espectadores; se prendermos a atenção de alguns, já será muito bom".Fundador da Companhia Taanteatro, Pannek vive em São Paulo desde 1992, onde dirigiu Homem Branco e Cara Vermelha e Primeiro Fausto, entre outros espetáculos. Depois das apresentações deste fim de semana, a Taanteatro vai seguir apresentando a peça em outras ruas da cidade. "O ideal é conseguir uma certa desteatralização; prender a atenção de um público que, num primeiro momento não saiba se aquilo é teatro ou não e, além disso, nunca tenha ouvido falar de Beckett".Esperando Godot. Comédia. De Samuel Becket. Direção Wolfgang Pannek. Sexta, às 12 horas, Galeria da Consolação. Passagem subterrânea da Rua Consolação esquina com Avenida Paulista; sábado, às 12 horas, Parque da Aclimação. Rua Muniz de Souza, 1.119, tel. 278-4042; domingo, às 13 horas, Praça Nossa Senhora Aparecida/Moema.

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