Esperanças em declínio

Acesse o Google. No retângulo designado à pesquisa, insira o nome de político com importância no cenário nacional. Acompanhe-o da palavra narcisismo. A tela será tomada por uma enxurrada de citações. Não há jornal, site, ou blog que não lhe forneça rico material. Em seguida, insira o nome de figura notória das artes e dos esportes. Não será diferente o resultado. Na sociedade midiática e informatizada, o narcisismo ata o político à pessoa notória e, ao definir a ele e a ela de celebridade, os individualiza.

SILVIANO SANTIAGO, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2010 | 00h00

Vulgarizado o termo, pergunta-se quando, como e por que ele ganhou o contexto sociopolítico e econômico. Há 31 anos, o sociólogo Christopher Lasch (1932-1994) tomava o termo de empréstimo à teoria de Sigmund Freud sobre o "narcisismo secundário". Segundo ele, o nó górdio da sociologia estava na nova onda de individualismo. Numa década de esperanças em declínio, o sujeito recalca a autoestima baixa e a raiva, para impor como moeda corrente a imagem grandiosa de si mesmo. Ao usar o outro como objeto de autogratificação, o narcisista está, na verdade, a reivindicar a aprovação e o amor da sociedade.

Christopher Lasch intitulou seu estudo de A Cultura do Narcisismo - A Vida Americana Numa Era de Esperanças em Declínio (1979). No Brasil, o best-seller foi publicado em 1983 pela Editora Imago. A edição tornou-se raridade e os sebos a oferecem por R$ 250.

Com a metralhadora giratória freudiana, na qual sobressai algum chumbo grosso marxista, o sociólogo varre a cena americana, recém-liberada dos horrores da Guerra do Vietnã, ainda às voltas com a renúncia do presidente Nixon e a enfrentar a escassez de petróleo em casa e as violentas represálias aos seus diplomatas no mundo muçulmano. Recessão e inflação batem à porta e reacendem o narcisismo dos líderes. Relembra a fala farsesca do presidente Kennedy diante de Kruchev em Viena (anos 1960) e as trapaças retóricas do presidente Nixon frente a uma nação que lhe era invisível (anos 1970). Dos líderes, o narcisismo se transfere para os cidadãos, só dispostos a agir em público quando a autoridade política os desaponta.

Lasch critica as forças do Partido Republicano. Ao se retirar o esporte das quadras estudantis e anular a torcida de parentes e vizinhos, o jovem desportista vira figura midiática solitária, valorizado na publicidade das commodities. Também critica os democratas. Sob o paternalismo do Estado, acolhem o pluralismo racial e cultural. Encaminhar o jovem na vida deixa de ser atributo da família. Transforma-se em prerrogativa das agências de controle social. Os laços familiares cedem o lugar ao bem-intencionado e funesto assistente social, e as escolas públicas entregam profissionais iletrados à sociedade. O racismo de jure do sul se casa com o racismo de facto do norte. Encarar a atualidade implica também analisar o modo como estão envelhecendo mal os líderes estudantis do câmpus de Berkeley e de outras universidades.

O terrível diagnóstico de Lasch é ratificado no discurso sobre o mal-estar dos cidadãos americanos (malaise speech), proferido pelo presidente Jimmy Carter em 1979. Diante da nação, Carter verbaliza a ansiedade geral através de mil e uma falas de populares, que cita. O presidente as sintetiza: "Numa nação que tinha orgulho do trabalho braçal, dos laços familiares fortes, das comunidades fraternas e da fé em Deus, muitíssimos de nós tendem hoje a venerar a autocomplacência e o consumo."

Importante na elaboração do conceito de narcisismo é o modo como Lasch o desentranha da derrocada do individualismo empresarial, desde sempre abonado pelo mito do sonho americano. Para desenhar o declínio da força do indivíduo, até então canalizada para o negócio e o enriquecimento rápido, o sociólogo invoca o ideólogo da mobilidade das classes baixas, Horatio Alger (1832-1899). Foi ele o popular romancista das centenas de histórias de pobres que se tornam ricos (ragged to riches stories). Na falência do espírito Horatio Alger, Narciso abria a válvula de escape.

O anônimo indivíduo de sucesso se deixa fascinar pela fama. Diz Lasch: "São tipos em extinção o megaempresário que vive na obscuridade pessoal e o capitão da indústria que nos bastidores controla o destino de nações." Entre os mortais, evita-se a competição, perde-se a credulidade, são desqualificadas as relações pessoais, tornando-as transitórias. "Straights by day, swingers by night" (caretas de dia, descolados à noite) em As Contradições Culturais do Capitalismo (1976), o sociólogo Daniel Bell, teórico da sociedade pós-industrial, prenunciara as análises de Lasch.

Numa década de esperanças em declínio, o lucro e as virtudes protestantes, de que Max Weber fora o porta-voz, não mais despertam o entusiasmo dos cidadãos. Abandona-se a salvação pelo trabalho e, como alternativa individual e salutar, adota-se a sensual terapia corporal. Na autobiografia Crescendo aos Trinta e Sete (1976), Jerry Rubin, o anarquista do grupo dos Chicago 7, escreveu que, de 1971 a 1975, tinha experimentado terapia gestalt, bioenergética, comida natural, tai chi, hipnotismo, dança moderna, meditação, acupuntura, terapia sexual, etc. Aos 37 anos se sentia como se tivesse 25. Rubin, como outros ex-radicais, conseguia trocar os slogans revolucionários pelos terapêuticos, com igual desrespeito aos dois.

"Rápidas e sucessivas mudanças sociais por um longo período de tempo", Lasch observa conservadoramente, "criaram nos Estados Unidos da América o desemprego, desvalorizaram a sabedoria dos mais velhos e desrespeitavam todas as formas de autoridade, incluindo a autoridade da experiência."

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