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Esperança radical

NOVA YORK - Uma semana histórica começou com manifestações em 50 cidades dos EUA pela defesa de imigrantes. Enquanto escrevo, no aniversário de Martin Luther King, Jr., centenas de escritores, entre eles proeminentes romancistas e poetas, estão a caminho das escadarias da bela sede da Biblioteca Pública na 5.ª Avenida.

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

16 Janeiro 2017 | 03h00

O ato vai incluir leituras de poemas lidos em posses presidenciais passadas e termina com uma caminhada em direção à Trump Tower, na mesma avenida.

Ainda não sei quantos participaram, no domingo, de protestos nacionais convocados pelo senador democrata Bernie Sanders contra o desmonte do Obamacare, que pode deixar 24 milhões de norte-americanos sem a proteção do seguro saúde.

O trecho da 5a Avenida onde fica o arranha-céu do presidente eleito já foi transformado em bunker ao ar livre. A quarteirões dali, a área do Trump International Hotel, na frente do Central Park, vai servir de palco para outra manifestação na quinta, véspera da posse, com um quem é quem da esquerda nova-iorquina (não confundir com o que se considera esquerda em Pindorama).

O prefeito Bill de Blasio, o documentarista Michael Moore e atores como Mark Ruffalo e Alec Baldwin vão puxar o cordão de denúncias de políticas prometidas sob o controle republicano das duas casas do Congresso e da Casa Branca.

Não há mais ingressos para o concerto num teatro de 1.500 lugares que vai reunir grandes nomes da Broadway em benefício de organizações de direitos humanos. Enquanto a noite da posse transcorre em Washington com uma parca amostra da terceira divisão de artistas pop, colecionadores de prêmios Tony vão soltar a voz no evento batizado de Concert for America: Stand Up, Sing Out! 

Vários museus, entre eles, o Whitney de NY e o Museu de Arte Contemporânea de Los Angeles, terão entrada franca no dia 20.

A decisão foi em resposta a um manifesto de mais de 100 artistas galeristas, curadores e artistas plásticos como Richard Serra e Cindy Sherman. Eles pediram que todas as instituições de arte fechassem as portas em sinal de luto, mas só um impulso suicida faria grandes instituições dependentes de doadores bilionários e incentivos fiscais de Washington escancarar sua ojeriza ao novo status quo.

Mas nada deve se comparar, em escala de multidões, ao sábado, 21, dia seguinte à posse. Organizadores da manifestação mãe, a Marcha das Mulheres em Washington, esperam mais de 200 mil pessoas, mas a polícia na capital está preparada para 400 mil. O evento começou com uma página no Facebook, horas depois do resultado das urnas em novembro, e conta com figuras públicas como a líder feminista Gloria Steinem, a atriz Julianne Moore e a comediante Amy Schumer.

O protesto não se reduz a questões como direitos de reprodução femininos, também vai tratar de promessas econômicas e sociais feitas pelos republicanos. E homens são bem-vindos. Fora de Washington, não faltarão manifestações nos 50 Estados americanos e em pelo menos 40 cidades fora do país, convocadas como “Marchas Irmãs.”

A percepção de ilegitimidade, que descrevi aqui na semana passada, só faz aumentar. Vai ficando claro que o resultado da votação no Colégio Eleitoral está sendo testado com desafios diários a normas éticas, à liberdade de imprensa e outras tradições morais da mais antiga democracia constitucional, sem contar, é claro, o progressivo Watergate da interferência russa, agora objeto de uma investigação bipartidária.

Dois meses depois do choque inicial, estamos testemunhando uma renascença de engajamento cívico no país. Não é à toa que tenho lido e ouvido múltiplas referências ao filósofo Jonathan Lear, que cunhou a expressão “esperança radical” num livro lançado em 2007. A esperança de Lear não pode ser reduzida a slogan otimista de campanha. Exige imaginação, ativismo e capacidade coletiva de uma cultura de se reinventar para sobreviver. 

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