Esperança morena

Seleção mexicana voltou para casa com a perspectiva de uma regeneração em marcha

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

07 Julho 2018 | 02h00

Segunda-feira, o Brasil ganhou do México na Copa e perdeu na política. Os mexicanos foram derrotados na bola, mas venceram nas urnas, com um olé de Morena, que, apesar do nome, não joga futebol. Morena é o acrônimo do Movimiento Regeneración Nacional, a coligação que nas eleições de domingo passado fez barba (elegendo López Obrador presidente), cabelo (62% dos deputados) e bigode (54% dos senadores).

Como não ter simpatia e torcer por um partido chamado Morena? E como ignorar a grande lição para o Brasil que os mexicanos, bem longe do gramado de Samara, nos deram? Eles nos ensinaram que “o desgaste institucional e a desilusão do povo com seus representantes podem trazer mudanças profundas desde que exista a liderança política necessária no momento certo”, observou Monica Del Bolle, em sua coluna de quarta-feira. A liderança existe e também é conhecida por uma sigla, Amlo, as iniciais de Andrés Manuel López Obrador, justificável trocadilho com “lo ame” (ame-o), já que ele se elegeu com 53% dos votos e irá governar com maioria nas duas casas do legislativo.

A seleção mexicana, merecidamente derrotada pela brasileira, voltou para casa com a perspectiva de uma regeneração em marcha. A nossa, quando voltar, reencontrará outra vez a mesma irrefreável degeneração que aqui deixou. Os perdedores em Samara ganharam, no México, um “Messias tropical” (alcunha dada a Obrador por Enrique Krauze, intelectual independente, editor da revista cultural Letras Libres); enquanto que nós, vencedores em Samara, só temos o que já tínhamos antes da Copa, um Conde Drácula tropical.

Populista de esquerda, Obrador impôs uma tunda no candidato continuísta, José Antonio Meade, do PRI (Partido Revolucionário Institucional), o MDB local. “Miedo o Meade?” indagava o slogan de sua campanha. A maioria dos mexicanos revelou ter, sim, “miedo”, mas de Meade - e de mais do mesmo pelos próximos seis anos.

Seu antecessor e padrinho político, Enrique Peña Nieto, era da mesma cepa: formado em business, só ligado em negócios. Na campanha de 2012, quando venceu Obrador por um porcentual ínfimo de votos, mostrou-se um ignorante em assuntos que não lidassem com cifrões. Precisou da cola de um assessor para citar um livro marcante em sua vida. Mas não conseguiu identificar o nome do autor de A Cadeira da Águia, Carlos Fuentes, que, rindo, comentou: “Ele tem o direito de me ler, mas não de ser presidente com tamanha ignorância”. O episódio virou chacota nas redes sociais e viralizou o bordão “Não dê dinheiro a Peña Nieto, dê-lhe apenas um livro”.

Se o México tivesse desclassificado o Brasil na Copa, passaria a torcer, com entusiasmo, pelo esquadrão asteca. Os mexicanos jogam um futebol alegre, já hospedaram dois Mundiais, e têm uma relação fraternal com a gente; até nos cederam uma velha canção rancheira, Cielito Lindo, que, carnavalizada durante a Segunda Guerra, tornou-se um bota-fora sem exclusividade clubística nos estádios daqui. Sem contar que 1.500 anos antes de Jesus nascer já se batia uma bolinha com os pés naquelas paragens.

Tenho uma velha paixão pela terra do Cantinflas. Por sua cultura, sua civilização pré-colombiana, seu povo, suas cidades coloniais, sua culinária - sem excetuar a tequila, Maria Félix e Silvia Pinal. Já a cruzei seis vezes, em todas as direções; ainda não conheço Vera Cruz, Tampico e Tijuana, nem faço questão.

Fiz algumas incursões algo esotéricas, seguindo trilhas literárias e cinematográficas, como passar um fim de semana à beira do Lago Pátzquaro para conhecer as locações de duas relíquias do cinema mexicano (Janitzio, de 1934, e Maclovia, de 1948), cinco dias em Puerto Vallarta (onde John Huston morou e filmou A Noite do Iguana), além das peregrinações triviais aos lugares pisados, habitados  imortalizados por alguns expoentes nativos e adventícios, nos livros e na tela.

México foi, desde o início do século passado, uma espécie de Paris latino-americana, um refúgio acolhedor para estrangeiros das mais variadas espécies, com ou sem problemas políticos: de Trotski a Eisenstein, de André Breton a Malcolm Lowry, de Artaud a D. H. Lawrence, de B. Traven e Graham Greene.

Vieram primeiro os seduzidos pela aura mítica do relacionamento entre Montezuma e Hernán Cortéz (como o poeta americano Hart Crane) ou pela Revolução de Pancho Villa e Zapata (como os jornalistas e escritores Ambrose Bierce e John Reed), depois os atraídos pelas andanças e os misteriosos desaparecimentos de Crane (afogado no Caribe) e Bierce (sumido no meio da Revolução), e pela cobertura das proezas de Villa que Reed fez para a imprensa americana.

Não pude realizar o que o escritor e jornalista Paco Ignacio Taibo II, nascido espanhol e criado mexicano, fez tempos atrás para um documentário, a partir do ensaio-reportagem de Reed, México Insurgente. Taibo saiu de El Paso, no Texas, atravessou a fronteira e reconstituiu o roteiro cumprido pelo jornalista americano ao lado de Villa e seus companheiros de revolução. Muito simpático e íntimo da história de seu país de adoção, Taibo conduz a narrativa com a dose certa de informação histórica e descontração. Confiram no YouTube.

Antes das eleições, rumores davam Taibo como o futuro ministro da Cultura de Amlo. Vozes idôneas consideram uma ótima escolha; outras, não menos confiáveis, duvidam que o novo presidente se incline por alguém mais à esquerda do que ele. Seria Taibo o Darcy Ribeiro de Amlo? Que seja, desde que Nossa Senhora de Guadalupe não permita que Amlo tenha o mesmo destino de Jango. Afinal o México, que Porfírio Diaz, o ditador militar derrubado pelos revolucionários de 1910, lamentava ficar “tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”, agora tem Trump do outro lado da fronteira. 

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