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Lúcia Guimarães
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Espelhocracia

Fui a uma festa sensacional de Ano Novo, oferecida por dois músicos, no dia 1.º. Como sempre, sou apresentada calorosamente como a amiga brasileira que, ainda por cima, conhecia Tom Jobim. Não preciso fazer esforço algum para ver sorrisos escancarados e ser incluída nas conversas, entre exclamações sobre a "música do seu país." Mas convidados bem informados sabiam que era dia da posse. Confessei, constrangida, que temos 39 ministérios (what???); que o Ministro dos Esportes durante as Olimpíadas não entende de esportes (you're kidding!); e que o Ministro de Ciência e Tecnologia não acredita no efeito estufa (impublicável).

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

05 Janeiro 2015 | 02h04

Com a posse do ministério do mandato presidencial que se inicia, foi escancarada a janela com vista para o lago de mediocridade escalado sob critério aritmético do nosso perverso sistema partidário. Um ministro de partida admitiu que não entendia bulhufas da pasta que ocupou até dezembro e lá estacionou por imposição de sua legenda. Atacar a anemia intelectual do novo ministério é fácil como pescar num pequeno aquário.

No racha que precedeu a reeleição apertada, foi comum o clamor pela volta da meritocracia à americana, em oposição ao aparelhamento fisiológico da máquina pública. Quem não prefere ser atendido, na sala de emergência, por um médico que está ali por competência e não apadrinhamento? Quem não exige que o correio cumpra sua missão sagrada de entregar qualquer correspondência, não importa o partido do remetente? Quem não ficaria revoltado ao ver seus filhos atrasados na escola por professores escolhidos sob critério semelhante ao do gabinete de Dilma Rousseff?

Entre as declarações lamentáveis dos últimos dias, o ex-ministro chefe da Secretaria Geral da presidente se superou ao dizer que se orgulha de fazer parte de uma quadrilha, segundo ele, a quadrilha que defende os pobres. Deixemos de lado o fato de a orgulhosa quadrilha a que ele se refere não estar muito preocupada com os trabalhadores com salário atrasado na refinaria da propina, também conhecida como Abreu e Lima. O que me chama atenção é "quadrilha".

Para quem desfralda a bandeira da meritocracia como um urgente produto a importar dos Estados Unidos, tenho má notícia. O país cada vez mais se aproxima da noção de quadrilha e se afasta do ideal meritocrático, uma tendência acelerada pela tecnologia da qual tanto desconfia o obscurantista Aldo Rebelo.

Os números se acumulam. Um estudo recente de dois economistas demonstrou que alunos americanos pobres que fazem tudo certo e se aplicam na escola não têm futuro melhor do que alunos afluentes que abandonam o ensino médio ou interrompem o ensino superior. De fato, continuam em desvantagem pelo resto da vida. Meritocracia?

O argumento conservador prega que, quando o Estado desaparece, os talentosos e esforçados são recompensados e os preguiçosos punidos. Há um emergente grupo ideológico brasileiro que defende a total privatização da educação, a despeito do fato de que as populações mais bem educadas do mundo frequentam escolas públicas.

Tomemos outro caso apontado como epítome da meritocracia americana, o Vale do Silício. O berço da revolução digital se assemelha mais a uma quadrilha do que a uma meritocracia. No Google, 70% dos empregados são homens, 91% brancos ou asiáticos. Facebook: 69% homens 91% brancos ou asiáticos. O Linkedin só emprega 2% de negros. O colunista econômico Joe Nocera, do New York Times, jamais acusado de ser petista, lembra que a situação é pior na hierarquia gerencial das corporações digitais e pergunta: isso é meritocracia? Ele cita o termo cunhado por Mitch Kapoor, criador do sistema Lotus que catapultou os PC's da IBM: "mirror-tocracy". Ou seja, o governo pela semelhança, pela imagem no espelho - de classe, sexo e etnia. A não ser que alguém esteja preparado para abraçar uma teoria eugênica sobre inteligência, é impossível aderir à ilusão de que o Vale do Silício é uma bolha de meritocracia.

Numa economia altamente competitiva e monopolista como a da tecnologia, empreendedores se sentem mais confortáveis com os que veem como seus pares - a pressão é aliviada pela identificação. É uma economia de soma zero em que pequenos concorrentes são pulverizados pela possibilidade de domínio de um só vencedor, seja ele a Amazon ou o Google. Sim, a tecnologia expande nossos horizontes e nos libera de tarefas árduas. Mas a economia digital dos últimos 20 anos é concentradora de riqueza e esmagadora da mobilidade social. John Major, o Primeiro Ministro britânico que privatizou as ferrovias, afirma hoje que só os educados em escolas particulares e a classe média afluente chegam ao poder na Inglaterra.

Regurgitar slogans saudosistas, como fazem alguns indignados, é como convidar Frank Sinatra para o Maracanã quando ele já desafinava. A alternativa à mediocridade não é o darwinismo social.

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