Espelho Borgiano

Mestre argentino encontra a si mesmo na obra de Dante

Giovanna Bartucci, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2012 | 03h07

Um grande livro como a "Divina Comédia" (séc. 14) não é o capricho isolado ou casual de um indivíduo; muitos homens e muitas gerações convergiram para ele, afirma Jorge Luis Borges em Nove Ensaios Dantescos & A Memória de Shakespeare - reunião de textos críticos sobre a obra de Dante Alighieri e quatro contos -, que ganhou edição recente pela Companhia das Letras.

Com efeito, seus Nove Ensaios Dantescos (1982) poderiam ser condensados na ideia de que "investigar (os) precursores (da Divina Comédia) é indagar os movimentos, as sondagens, as aventuras, os vislumbres e as premonições do espírito humano". Assim, é com extrema delicadeza que o escritor argentino se aproxima desta "obra mágica", deste "microcosmo de âmbito universal", ao mesmo tempo em que se debruça sobre os personagens e seus processos mentais.

Será por meio do exercício de transformar o seu presente num curvar-se para trás no tempo e num permanente vir-a-ser que Borges identificará, nos versos do italiano, justamente uma antecipação de sua própria obra.

Por outro lado, em A Memória de Shakespeare (1983), composto pelo conto-título e ainda 25 de Agosto de 1983, Tigres Azuis e A Rosa de Paracelso, o leitor se deparará com temáticas frequentes na ficção do argentino, como o sonho e o sonhar, o duplo e, claro, a memória, a qual. "Não é uma soma; é uma desordem de possibilidades indefinidas", conforme escreveu Borges - borgianamente.  

GIOVANNA BARTUCCI É PSICANALISTA, AUTORA DE BORGES: A REALIDADE DA CONSTRUÇÃO. LITERATURA, PSICANÁLISE (IMAGO)

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