Bel Pedrosa/ Divulgação
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Espectador de seu país

O português Miguel Sousa Tavares fala de Madrugada Suja, obra que acaba de sair no Brasil

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2013 | 02h12

Não há a natureza épica de Equador, livro em que o português Miguel Sousa Tavares usa a história de Portugal como pretexto para discutir colonialismo, a fronteira entre dois mundos, escravidão e outros temas incômodos. Em seu novo livro, Madrugada Suja, a escrita é mais simples e o romance menos ambicioso, embora igualmente denso. Se não se fala de um Portugal colonial, o país continua em primeiro plano. Advogado de formação, Sousa Tavares dá um jeito de envolver o protagonista do livro, Filipe, numa trama jurídica para discutir temas como responsabilidade civil, suborno e os últimos 30 anos da vida pública portuguesa, passando pela Revolução do 25 de abril e a reforma agrária.

Filipe é um arquiteto paisagista que corruptos tentam subornar para a aprovação de um projeto numa cidade costeira do Alentejo. Aparentemente, é um profissional acima de qualquer suspeita, mas uma tragédia passada coloca em questão a solidez de seu caráter, a despeito de sua resistência a esquemas de fraudes e propinas. O livro, como se vê, também poderia se passar no Brasil - e Sousa Tavares evoca mesmo a lógica de Adhemar de Barros ("roubo, mas faço") nesta entrevista concedida por e-mail.

Corrupção política é um dos temas de Madrugada Suja - e ela parece ser endêmica tanto em Portugal como no Brasil. O senhor diria que esse é um traço cultural reforçado pela nova configuração econômica mundial?

Não creio que a corrupção seja endêmica em Portugal: não existe, por exemplo, ao nível do polícia ou do pequeno funcionário. O que existe mesmo, e no alto, é o tráfico de influências, que é tão ou mais pernicioso e não deixa marcas. Os poderes locais corruptos, se souberem mostrar obra, são sufragados pelas populações. É a velha lógica do vosso Ademar de Barros: "Roubo, mas faço!".

Todos sabem que o senhor não aprova o novo acordo ortográfico e isso fica bem claro na edição brasileira de Madrugada Suja. Por que a insistência em manter a ortografia usada em Portugal?

Herdei dos meus avós e tetravós um patrimônio que chamamos a nação Portugal: um território (que é o mesmo há 850 anos), uma paisagem, uma história e uma língua, que levamos a todos os cantos do mundo e que hoje é a língua comum de 300 milhões de pessoas. A raiz dessa língua é o português de Portugal, de Camões, de Camilo, de Pessoa. Não tenho o mais pequeno desejo ou preocupação de uniformizar essa língua de acordo com o meu português. Mas também não vejo porque ceder o meu português às regras da ortografia brasileira, aliás em condições que não são de todo recíprocas e com regras que não fazem nenhum sentido aqui. Madrugada Suja trata de três gerações de portugueses, sendo que o representante da mais nova, Filipe, ao confrontar-se com a corrupção política, olha para o próprio passado e vê na tragédia registrada na madrugada que dá título ao livro um reflexo do presente.

O senhor diria que a crise portuguesa estaria assim associada ao declínio moral de um povo?

Associar a atual crise econômica e financeira ao declínio de um povo é um passo que eu não dou e que não aconselharia ninguém a dar. Não cabe no espaço desta entrevista explicar por que razão a atual crise econômica portuguesa reflete, sim, o declínio da fabulosa ideia da União Europeia, por força de uma crise de liderança e de visão política de merceeiros - quem governa a Europa atualmente. São forças demasiado fortes para um país tão pequeno e indefeso enfrentar sozinho.

A uniformização cultural ditada pelo sentimento de pertencer à União Europeia e desejar estar sintonizada com ela não levou Portugal à destruição de suas culturas regionais?

O pano de fundo do meu livro é a tragédia da desertificação do interior de Portugal. Levamos dois séculos a povoar o território conquistado aos árabes e apenas 30 anos a despovoá-lo. Em grande parte, isso deveu-se ao erro terrível que foi vendermos a agricultura à União Europeia. Para não concorrermos com a política agrícola comum - construída em benefício da França, Alemanha, Bélgica e Holanda, sobretudo - ofereceram pagar aos nossos agricultores, com dinheiros europeus, para eles abandonarem as terras. E assim, abandonada a agricultura, o mundo rural foi desaparecendo e, com ele, toda a vida das aldeias e pequenas cidades do interior. E, por isso, você hoje encontra aldeias como a Medronhais do livro, com um só habitante, transformado num Robinson, num guardião de memórias. Essa história é verdadeira - a aldeia existe, com outro nome, e ele ainda lá está, sozinho. Foi, ao saber disso, que me ocorreu a história.

Filipe, ao constatar que o terreno da herdade de Fontebela é vedado à construção, descobre não apenas uma falcatrua jurídica, mas que o país inteiro é conduzido pela lógica do lucro a qualquer custo e do suborno. Foi isso que o motivou recentemente a imprecar contra o presidente português?

Vamos por partes. O país inteiro não está "submergido à lógica do suborno": não somos o México! Eu chamei "palhaço" ao nosso presidente no sentido político e como reflexo daquilo que tem sido o seu desempenho do cargo: tenho, de fato, um profundo desprezo pelo personagem.

Como jornalista e apresentador de televisão, como vê a consagração do gênero literário definido como docuficção? Equador, Rio das Flores e Madrugada Suja se encaixariam nesse segmento?

Eu escrevo romances e os meus romances têm uma história, porque eu continuo a acreditar que os romances são, antes de tudo, uma história contada aos outros. Se isso é docuficção, não sei. Sei apenas que é a minha forma de escrita e que ela tem que ver com a minha formação: também no romance, eu sou uma testemunha, aquele cuja tarefa é contar uma história que eu vivi e os outros não viveram. Ou que eu inventei, a partir do que vi, vivi ou imaginei, e que aos outros pode interessar também. Não escrevo para mim, nem para a crítica, nem para os prêmios: escrevo para o tipo que vai à livraria e compra um livro meu.

MADRUGADA SUJA

Autor: Miguel Sousa Tavares

Editora: Companhia das Letras

(352 págs., R$ 39,50)

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