Especial refaz trajetória de Oscarito

Ele é uma figura tão destacada do cinema brasileiro que o Festival de Gramado tomou emprestado seu nome para com ele batizar o troféu que, anualmente, confere a uma figura que tenha dado contribuição decisiva à cinematografia nacional - este ano, o premiado foi o ator Paulo José. Oscarito é o homenageado de amanhã no Canal Brasil, que exibe às 19h30 um programa da série Retratos Brasileiros inteiramente dedicado ao rei do riso.Seu nome completo era Oscar Lorenzo Jacinto de La Imaculada Concepción Teresa de Jesus (ufa!), mas foi como Oscarito que ele reinou no circo, no teatro de revista e, depois nas chanchadas da Atlântida, muitas vezes em dupla com outro comediante genial - Grande Otelo. Quem viu a paródia que os dois fizeram de Romeu e Julieta em Carnaval no Fogo sabe do que esses homens eram capazes. O especial dirigido por Marcos Vinicius César retraça a história de Oscarito por meio de depoimentos da mulher, de amigos, colaboradores e admiradores. A palavra é eloqüente, mas para avaliar a excelência do humor do artista o que vale são as imagens retiradas de seus filmes. Há momentos magníficos - o duelo final de Matar ou Correr, a paródia que Carlos Manga fez do supervalorizado western Matar ou Morrer, de Fred Zinnemann, a cena em que Oscarito tenta atrasar o relógio no mesmo filme e, claro, a cena em que ele, travestido como Eva Todor, cruza com a própria no corredor do hotel em Os Dois Ladrões, outro filme de Manga. Ela o olha como se estivesse diante do espelho e Oscarito repete seus gestos à perfeição, com um sentido do timing essencial na grande comédia.Espanhol de Málaga, província de Andaluzia, onde nasceu, em agosto de 1906, Oscarito fez-se brasileiro por amor ao País que acolheu sua família. Considerava-se um autêntico malandro brasileiro e, quando recebeu convites do exterior - como o de fazer o papel que foi interpretado por Cantinflas em Volta ao Mundo em 80 Dias, a superprodução de Michael Todd vencedora do Oscar de 1956 -, recusou-os dizendo que não saberia, ou não conseguiria, fazer humor lá fora. A mulher, companheira de cena e da vida, Margot Louro, diz que era um perfeccionista. Nada em seus filmes era por acaso, havia todo um trabalho de elaboração. No outro extremo, Mário Lago destaca a incrível capacidade de improvisação de Oscarito. E lembra que, certa vez, considerando-se bloqueado para desenvolver os diálogos de uma peça, ouviu do comediante a seguinte frase: "Não faz mal, Mário escreve meia página de diálogos que eu me encarrego de preencher o resto no palco.Era um perfeccionista que improvisava e um mestre do improviso que adorava o planejamento, sendo essas atitudes aparentemente contraditórias o mesmo processo do artista que, por meio da máxima elaboração, tenta atingir a condição primeira do seu objeto de trabalho. Manga, entrevistado no especial, conta uma história curiosa. Rodavam um filme com Ivon Coury, que fazia um certo príncipe Nico, e Oscarito, com sua irreverência, fez a contração e chamou-o de "pinico". Hoje em dia ninguém nem liga para isso. Na época foi um furor. Todo mundo caiu na gargalhada no set. Encerrado o dia de filmagem, Manga encontrou um preocupado Oscarito à sua espera. O comediante lhe disse que, logo após essa cena, o roteiro previa outra de fundo dramático. E ele achava que o público, que ainda estaria rindo nos cinemas, não iria captar o significado dessa outra cena. Pediu a Manga - faça oito closes de atores entre uma cena e outra. Manga duvidou da eficiência do recurso e na sala de edição o montador achou que ele estava louco. Os closes foram feitos e montados. Manga conta - um, dois, três, até oito. Ele foi ver o filme nos cinemas. As gargalhadas do público iam serenando durante os closes e, no fim, os espectadores estavam preparados para a cena dramática, como Oscarito queria.Não apenas Manga, o diretor, mas colegas como José Lewgoy, o malvado das chanchadas da Atlântida, Renata Fronzi, mais o ator e escritor Mário Lago, que criou textos para Oscarito fazer no teatro, o crítico José Carlos Monteiro e um tiete assumido como Agildo Ribeiro - todos, sem exceção, destacam quanto era grande o nosso Oscarito. Ele carnavalizou o brega, fez crítica social sem nunca ter problemas com a censura e deu à chanchada alguns de seus títulos de nobreza. Na época, a chanchada era considerada um cinema popular para platéias pouco exigentes. Hoje, críticos como Sérgio Augusto e Jean-Claude Bernardet a defendem como uma solução cultural inteligente, que partia da nossa precariedade para virar pelo avesso os códigos das produções "sérias" de Hollywood.Bernardet escreveu, sobre Nem Sansão nem Dalila (de Manga), um ensaio em que analisa a paródia como obra de resistência cultural. O próprio Manga diz que a peruca de Oscarito como Sansão representava a submissão do cinema brasileiro, vestindo a peruca do americano. Poderia ser um delírio de "autor", mas cada vez mais há gente séria analisando a chanchada como expressão do Brasil da época. Quem faz isso obrigatoriamente se curva ao gênio de Oscarito, ao jogo corporal que ele trouxe do circo, à capacidade histriônica de passar do riso às lágrimas, expressando um patetismo que não é totalmente alheio ao chapliniano Carlitos. Manga, aliás, diz que ele foi "o nosso Chaplin". Foi um moralista que detestava grosseria e vulgaridade. Tinha horror a palavrão.E desfilam as cenas de filme - Oscarito e Grande Otelo em Matar ou Correr, Oscarito e José Lewgoy no mesmo Matar ou Correr, Oscarito, Eliana e Fada Santoro em Nem Sansão nem Dalila, Oscarito e Norma Bengell na sublime imitação que essa atriz maravilhosa fez de Brigitte Bardot em O Homem do Sputnik - todos filmes de Manga. Foi quem mais vezes o dirigiu. Nove entre dez filmes de Oscarito são sempre dirigidos por Manga. Mas, além dele, Oscarito também trabalhou com Moacir Fenelon (em Gente Honesta e Fantasma por Acaso), José Carlos Burle (Barnabé, Tu És Meu) e Watson Macedo (Carnaval no Fogo). São figuras exponenciais de uma fase importante do cinema brasileiro. Oscarito trabalhou até com os pioneiros Ademar Gonzaga e Humberto Mauro. Seu primeiro foi dirigido pelos dois, A Voz do Carnaval, de 1933.É um semidocumentário com cenas posadas de estúdio e outras reais, do próprio carnaval carioca. Oscarito e Margot Louro aparecem no Baile das Atrizes. Com Gonzaga, sozinho, fez Alô, Alô Carnaval, ainda ligado ao tema das folias de Momo e famoso, principalmente, pelos números musicais com Almirante, Francisco Alves, Lamartine Babo, Dircinha Batista, Aurora Miranda e a lady do tutti frutti hat, Carmem Miranda. Grande Oscarito - nosso Oscar de ouro, como diz o título do livro que a Fundação Banco do Brasil lhe dedicou, para lançamento no Projeto Oscarito, que visa a preservar a arte e a cultura nacionais. Ele morreu em agosto de 1970. Há 30 anos, portanto. Merece como poucos a homenagem que o Canal Brasil lhe presta.O canal brasileiro da Net vai adiante e faz atualmente uma promoção para que o público eleja o maior comediante do País em todos os tempos. Oscarito está na frente, com 47% dos votos e para informar-se melhor sobre o assunto, basta acessar o site www.globosat.com.br e clicar na página referente ao Canal Brasil. Em agosto, por conta dessa vitória expressiva, o canal promete exibir oito clássicos de Oscarito.Retratos Brasileiros - Especial sobre Oscarito - Direção de Marcos Vinicius César. Amanhã, às 19h30, no Canal Brasil.

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