ESPECIAL-Guardião do Copan recupera moral de símbolo de Niemeyer

O Copan é o único prédio que tem umcoração. É assim que o síndico do cartão postal da cidade deSão Paulo descreve o edifício de 1.160 apartamentos em que vivehá 40 anos. O coração não é simbologia, explica Affonso Celso Prazeresde Oliveira, 68 anos, guardião há quase 15 anos de uma dasobras mais famosas de Oscar Niemeyer, que completa 100 anos nodia 15 de dezembro. Trata-se de um cabo do subsolo ao terraço, que media nopassado as oscilações do prédio de 32 andares. "O Copan temvida própria. Tanto que eu brinco que se você colocar o dedinhona jugular dele, vai ver que tem um frequência cardíaca", dizOliveira. As histórias dessa microcidade de 5 mil pessoas no número200 da avenida Ipiranga, no centro de São Paulo, pulsam peloscorredores sinuosos do Copan, que passou de símbolo damodernidade paulistana nos anos 1960 e 1970 para "favelavertical" nos anos 1980 e 1990. "O centro era a convergência de tudo, era aqui que estavamos melhores cinemas, teatros e restaurantes, como o Gigetto,onde se encontrava todo mundo, os artistas", diz Oliveira,citando famosos como Roberto Carlos, Cauby Peixoto, CaetanoVeloso. "Com a deterioração do centro da cidade, o prédio tambémentrou em declínio, passou a ser chamado de treme-treme", diz,enumerando os problemas de falta de energia e água, tráfico eprostituição pelos corredores dos apartamentos. O Copan é um projeto de 1951 que só foi inauguradooficialmente em 1966. Chegou a ser renegado por Niemeyer devidoàs turbulências em sua construção, mas hoje figura entre suasobras favoritas. De volta à boa forma, o prédio voltou em anos recentes aser também orgulho da cidade. Os projetos de Oliveira para oCopan, em parceria com o arquiteto Ciro Pirondi, são ousados eprevêem um elevador panorâmico até o terraço, onde se tem umavista em 360 graus da cidade e se sonha em fazer um museu. Em curto prazo, haverá a limpeza e reposição das pastilhasque cobrem os famosos brises da fachada em curva. MELHOR OBRA EM CENTRO URBANO Enquanto narra as dificuldades para "moralizar" o Copan,com ajuda de amigos do Exército que mapearam os problemas a serenfrentados, Oliveira interrompe a conversa para resolverpepinos do dia-a-dia -- acude a secretária com um condôminoinadimplente, socorre uma mulher de 80 anos que sofreu umenfarte. "O ser humano é muito complexo, não é fácil você lidar comele", diz, explicando que distribui cerca de cinco multas porsemana para conseguir manter o que chama de "tranquilidade". Para um dos donos do Café Floresta, estabelecimento maisantigo em funcionamento e mais frenquentado na galeria notérreo do Copan, o centro continua ruim, sem segurança. "Mas o Copan melhorou muito", diz o português José AugustoPereira dos Santos, que cuida do café de 50 metros quadrados,sem bancos, apenas com um longo balcão. Entre suas melhores lembranças em 30 anos de Copan estão asfilas gigantes para tomar café nos anos 1980 e a sala de cinemapara 3.500 pessoas do Copan, "a melhor do centro", mas hojetransformada em igreja. Aberto até uma da manhã, todos os dias da semana, o café éponto de encontro do centro. "Aqui não se sente solidão. Se apessoa está lá em cima, não está bem, desce por aqui, sempretem gente de conversa. É diferente dos outros prédios." Uma das frequentadoras do café é a egípcia radicada em SãoPaulo Salwa ElGhalawinia, que compra ali pacotes de café parapresentear amigos na Jordânia. "Isso aqui não é um prédio,certo? É uma cidade", disse. Para o arquiteto Ruy Ohtake, o Copan é a mais importanteintervenção em centro urbano já realizada por Niemeyer. "Foienorme impacto na época da inauguração", lembra ele. "FAUNA EXTRAORDINÁRIA" Atualmente o Copan é foco de oito trabalhos depós-graduação e um doutorado, além de visitas frenquentes dearquitetos estrangeiros e grupos escolares. A grande procuraelevou o preço de uma quitinete de 18 mil reais há dez anospara 40 mil hoje em dia. Além das curvas que contrastam com a rigidez dos prédiospaulistanos, o Copan também ficou famoso pelos tamanhosvariados de seus apartamentos -- de 26 a 217 metros quadrados. Isso faz do edifício "uma fauna extraordinária", naspalavras do ator Sergio Mamberti, hoje secretário da Cultura,que tem vários amigos que moram ou já moraram ali. Para o jornalista e fotógrafo Bruno Torturra Nogueira, queestá em seu segundo apartamento no Copan em três anos, adiversidade de classes existe. Famílias inteiras vivem em umespaço minúsculo ou homens solitários, em apartamentos de trêsquartos. "Mas o contraste não é tão forte porque as pessoas ricasque moram aqui não são o estereótipo do rico ostensivo, não têmcarro de luxo, ou é perua de bolsa Louis Vitton", diz. "Aquiestamos no centro, as pessoas saem a pé e logo ali tem molecadate pedindo dinheiro." Ele lembra que tinha uma impressão ruim do Copan,principalmente quando via de longe a multiplicação de janelasescondidas pelas brises. "Achava um puleiro, o cúmulo daopressão paulistana", disse Nogueira. "Hoje gosto do prédio pelo fato de ser aberto, sem portão,parece que faz dele um lugar mais receptivo, uma idéia melhorde cidade", diz.

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