Especial aborda fim dos cinemas de rua

A progressiva desativação dos cinemas de rua, fenômeno que se verifica também em São Paulo, começou no fim dos anos 80, quando os exibidores passaram a optar por salas menores, de manutenção mais barata. Com o advento dos shoppings e das salas multiplex, o fenômeno se consolidou. Os shoppings oferecem vantagens extras: estacionamento seguro, muitas vezes gratuitos (no interior, bem entendido) e a possibilidade de completar o programa com uma lanchonete. Com essa concorrência, qual é o destino dos velhos cinemas de bairro? Ao longo desta semana o telejornal Diário Paulista, da TV Cultura, tenta responder a essa pergunta com uma série diária de reportagens, que irão ao ar a partir das 18h30. "Muitos espectadores do interior reclamavam que não tinham cinema em suas cidades e resolvemos fazer um levantamento", explica o repórter Eduardo Elias. Ele visitou várias cidades do interior nos últimos dois meses e captou quase 10 horas de material. Segundo Elias, as salas de rua dos cinemas estão em extinção e o maior inimigo são as igrejas evangélicas, que adoram transformar as grandes salas em templos religiosos. "Além delas, os bingos aparecem em segundo lugar, mas o inimigo mortal são os estacionamentos, que, apesar de aparecerem em terceiro, derrubam o cinema, para utilizar apenas a área livre." A reportagem mostra casos absurdos, como o tradicional Cine São José, de Sorocaba, um dos maiores já feitos no Estado, com capacidade para 2.500 pessoas. "O São José era tão grande que em sua área existem hoje um estacionamento, várias lojas e uma sala de shows eróticos", conta Elias. Segundo ele, o mais triste é que as salas de rua tinham história e faziam parte dos costumes da cidade. "Encontramos um casal da cidade de Monte Aprazível que se conheceu no cinema e, para matar a saudade, precisa viajar para a cidade mais próxima." Em Santos, o tradicional cine Iporanga, que contava com três salas, acaba de fechar. Ele ficava na avenida Ana Costa, uma das mais importantes da cidade, e conhecida como uma espécie de cinelândia, já que abrigava a maioria dos cinemas. A abertura de dois shoppings decretou a pena de morte para esses cinemas. Na velha avenida, ainda resiste o cine Indaiá, com duas salas. Amanhã irá ao ar uma entrevista com o ator e diretor Anselmo Duarte, feita na cidade de Salto, onde ele nasceu. A cidade tem a honra de hospedar a única Palma de Ouro recebida por nosso cinema, pelo filme O Pagador de Promessas, dirigido por Duarte. O troféu está em seu escritório. A cidade chegou a ter três cinemas, mas hoje não conta com nenhum. "O diretor tentou montar um cineclube, mas ele ficou às moscas, pois o público só queria saber de filmes de Hollywood." Para os cinéfilos, restam a TV à cabo e as locadoras de vídeo. O programa tradicional, com projetor e sala escura, em muitas cidades, é apenas uma lembrança, um velho quadro na parede. Mas há quem lute contra isso. "Em Salto, um grupo de aficionados por cinema está conseguindo montar uma sala", conta Elias.

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